Guerra: civis se escondem em fábrica de químicos em Severodonetsk

Governador regional afirmou que cerca de 800 pessoas estão no local, e dizem que não têm planos de sair para áreas mais seguras

Destruição na cidade de Severodonetsk
Foto: Ansa
Destruição na cidade de Severodonetsk

Em meio à ofensiva russa contra a cidade de Severodonetsk, uma das últimas ainda controladas parcialmente pela Ucrânia na região de Luhansk [Leste], autoridades locais afirmaram que centenas de civis estão abrigados em uma fábrica de produtos químicos, que há semanas é cenário de combates entre russos e ucranianos.

Falando à CNN, Serhiy Gaidai, governador pró-Kiev de Luhansk, disse que cerca de 800 pessoas estão em abrigos na fábrica Azot, uma das maiores unidades produtoras de itens como fertilizantes, metanol e acetato. Antes da guerra, a unidade, responsável por parcela considerável da economia local, empregava mais de sete mil pessoas.

"Há moradores ali, e pedimos que deixassem a cidade. Mas eles se recusaram, há crianças também, mas não muitas", disse Gaidai à CNN.

Novo foco da ofensiva russa no Leste ucraniano, Severodonetsk era uma cidade industrial de cerca de 100 mil habitantes antes da guerra, e embora não tenha a mesma importância estratégica de locais como Mariupol, no Mar de Azov, ou Lyman, a 50 km dali, sua tomada por Moscou consolidaria o domínio completo de Luhansk.

Na prática, uma vitória a ser vendida internamente pelo Kremlin.

"Parece para mim, que não sou um militar, que não há muito sentido em perder tantos soldados para recapturar uma cidade que não tem qualquer significado estratégico", disse Gaidai, agora à Sky News.

"Por exemplo, a vizinha Lysychansk tem mais locais elevados e os militares teriam posições mais privilegiadas."

Segundo o governador, hoje as forças russas já controlam cerca de 70% do território de Severodonetsk, hoje praticamente devastada pelas semanas de combates — ele afirmou recentemente que 90% das estruturas da cidade foram danificadas, incluindo mais de 65% das residências. Os poucos civis que ali estão perderam o acesso à água encanada, energia e telefonia. Para ele, a vida na cidade é “um inferno”.

No caso da Azot, russos e ucranianos trocam acusações sobre bombardeios a unidades de produção e, mais grave, armazenamento de produtos químicos. Na terça-feira, o representante da autodeclarada República Popular de Luhansk em Moscou, Rodion Miroshnik, afirmou que um contêiner foi atingido pela artilharia ucraniana.

“O território da usina ainda é controlado pelas unidades armadas do regime ucraniano”, escreveu em seu canal no Telegram. Dois dias antes, Miroshnik acusou os ucranianos de matarem quatro civis em um ataque, deixando outras três pessoas feridas.

Kiev, por sua vez, afirmou que foram os russos que realizaram ataques contra a usina, afirmando que foram atingidos “prédios administrativos e um depósito de armazenamento de metanol”. À CNN, Gaidai disse que o bombardeio de terça-feira foi, na verdade, realizado pelos russos — fotos divulgadas em redes sociais mostram uma nuvem alaranjada no local.

"Graças a Deus nada ameaçou as pessoas", disse o governador. "Conforme a nuvem foi subindo e se afastando, não havia mais risco."

Apesar de Gaidai rejeitar comparações, os ataques à usina Azot trazem à memória o longo e violento cerco à siderúrgica Azovstal, em Mariupol, que por semanas resistiu a uma ofensiva militar russa, e por cerca de um mês foi o único foco de resistência na cidade.


Não se sabe exatamente quantas pessoas morreram no cerco, apenas que cerca de 400 civis conseguiram deixar o local após negociações mediadas pela Cruz Vermelha e pela ONU, além de mais de 1,5 mil combatentes, incluindo do chamado Batalhão Azov, associado a grupos de extrema direita e que integra a Guarda Nacional ucraniana.

Apesar de Kiev ter anunciado inicialmente que eles seriam incluídos em trocas de prisioneiros com Moscou, até agora não há confirmação sobre conversas do tipo, e sabe-se que cerca de mil foram enviados para uma colônia penal em Olevinka, área controlada pelos separatistas pró-Moscou. No mês passado, o chefe da autodeclarada República Popular de Donetsk, Denis Pushilin, defendeu que um “tribunal internacional” defina seus destinos.

"Sejam criminosos de guerra ou sejam nacionalistas, seu destino, se eles baixaram as armas, deve ser decidido pelas cortes", afirmou, no dia 18 de maio. — Se o inimigo baixou as armas, então seu destino será decidido pelas cortes. Se for um criminoso nazista, então será em um tribunal.

Entre no  canal do Último Segundo no Telegram e veja as principais notícias do dia no Brasil e no Mundo.  Siga também o  perfil geral do Portal iG.