Guerra na Ucrânia: quase 700 ucranianos se rendem em Mariupol

Rússia dá sinais de que pretende usar julgamentos como arma de propaganda. Meios de comunicação russos falam em 'novo Tribunal de Nuremberg'

Soldados russos em ação na Ucrânia
Foto: Reprodução / Twitter - 29.04.2022
Soldados russos em ação na Ucrânia

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O Ministério da Defesa russo disse que 694 combatentes ucranianos se entregaram nas últimas 24 horas em Mariupol, o que eleva o número total de forças rendidas na cidade destruída para 959 desde segunda-feira. Autoridades ucranianas não confirmaram imediatamente o número. Ainda há um número incerto de ucranianos que permanecem na usina siderúrgica de Azovstal.

O destino dos prisioneiros de guerra é uma incógnita. Na terça-feira, o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, disse pretender libertar os combatentes por meio de trocas de prisioneiros, a serem combinadas em negociações secretas. Há sinais, no entanto, de que o lado russo se prepara para julgamentos midiáticos dos detidos, buscando usar a situação como ferramenta de propaganda.

Mariupol foi onde surgiu o Batalhão Azov, grupo de origem paramilitar e neonazista posteriormente incorporado à Guarda Nacional ucraniana, e muitos membros do grupo estão entre os rendidos. Desde o início da guerra, meios de comuniicação russos fazem alusão a um novo “Tribunal de Nuremberg”, apropriando-se da memória dos julgamentos militares de líderes da Alemanha Nazista organizados pelos Aliados depois da Segunda Guerra Mundial.

O Ministério da Defesa da Rússia disse que recebeu um pedido de um comitê russo que investiga o Batalhão Azov por informações sobre “as ações ilegais das formações armadas ucranianas relacionadas ao uso de bens civis para fins militares”.

Sem apresentar indícios, o ministério afirmou que “o Batalhão Azov utilizou os edifícios dos jardins de infância e escolas para equipar os quartéis” e que as tropas ucranianas equiparam “posições de tiro em locais não destinados a isso, criando um perigo real para a população civil”.

O órgão também acusou as forças ucranianas de estabelecerem operações militares em hospitais e que “os funcionários e pacientes das instalações médicas estão sendo mantidos como escudos humanos” na região de Dnepropetrovsk.

Denis Pushilin, líder da autoproclamada República Popular de Donetsk, um Estado-satélite da Rússia, disse que um tribunal decidirá o destino dos combatentes ucranianos que se renderam em Mariupol

"Quanto aos criminosos de guerra, assim como aos nacionalistas, seu destino, se depuseram as armas, deve ser decidido em um julgamento. O tribunal decide, se é um criminoso nazista, então vai a julgamento", afirmou Pushilin, citado pela agência de notícias russa RIA.

Pushilin não respondeu se quem julgará os combatentes ucranianos será a Rússia, a República Popular de Donetsk ou a República Popular de Luhansk.

"No momento, esta é uma questão da próxima etapa. O tribunal deve ser internacional", afirmou.

A decisão sobre onde será o julgamento terá peso no destino dos prisioneiros de guerra. Entende-se que seja mais fácil julgar — e executar — sumariamente os detidos nas duas repúblicas populares do que na Rússia.

Mesmo assim, também em Moscou há pressões para que os prisioneiros não tenham seus direitos de prisioneiros de guerra respeitados.

A Suprema Corte russa anunciou na terça-feira que julgará na quinta-feira da semana que vem se considera o Batalhão Azov uma organização terrorista. Na Duma, a Câmara Baixa russa, também parlamentares disseram que aprovarão uma lei classificando os combatentes como "terroristas". Em ambos os casos, entende-se que a classificação pode abriir caminho para que os direitos estabelecidos pela Convenção de Genebra, de 1949, sejam ignorados.

Alguns parlamentares russos já citaram julgamentos e outros foram mais longe com referência a execuções. Foi o caso de Leonid Slutsky, que na terça-feira disse que a Rússia deveria “pensar cuidadosamente” sobre a pena capital para os combatentes do Batalhão Azov.

"Eles não merecem viver depois dos monstruosos crimes contra a humanidade que cometeram e que são cometidos continuamente contra nossos prisioneiros", afirmou.

Desde 1996, a Rússia impôs uma moratória na pena de morte, o que foi referendado duas vezes pela Corte Constitucional do país, em 1999 e 2009.

Ainda não se sabe para onde o novo grupo de combatentes rendidos foi levado. Autoridades ucranianas disseram na terça-feira que um grupo anterior de soldados foi transportado para duas cidades controladas pela Rússia na Ucrânia.

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