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Entre a fé e a música: atraídos por igrejas, músicos deixam Brasil para tentar a sorte nos EUA; obtenção de visto de trabalho ainda é o principal empecilho

Igreja Orlando (EUA) arrow-options
Reprodução/Facebook
Igrejas norte-americanas, como a First Baptist Church, seguem regras rigorosas para a contratação de músicos

Orlando, no ensolarado estado da Flórida (EUA), é um dos destinos preferidos dos brasileiros, seja para férias ou para tentar vida nova. Nos últimos tempos, um novo nicho se abriu para quem sonha em conquistar o ‘sonho americano’ e ainda emplacar uma carreira internacional: fazer música nas igrejas da cidade.

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Um número cada vez maior de templos religiosos tem surgido, quer sejam comandados por norte-americanos ou por pastores que deixaram o Brasil para abrir unidades de igrejas já famosas por aqui, o que abriu oportunidade para quem quer viver da música , seja cantando ou tocando algum instrumento.

Muitos desses pastores, inclusive, já vão para o novo desafio com companhia, levando músicos brasileiros para fazer parte da banda que se apresentará durante as pregações, para cantar os louvores e participar da doutrinação de novos fiéis.

Um objetivo, diversas formas de atingi-lo

A maioria dos brasileiros que topam esse desafio deixa o país desta maneira, para acompanhar um pastor e iniciar o processo de criação de uma nova igreja dentro de uma comunidade, seja ela de compatriotas ou de outras nacionalidades. Não raro, estes músicos se apresentam para congregações hispânicas e até mesmo para os próprios norte-americanos.

Porém, ao desembarcar nos EUA, cada um acaba desenvolvendo a própria carreira de maneira diferente. Quem consegue o chamado visto religioso tem mais chances de conquistar espaço e ficar conhecido, uma vez que as igrejas maiores e mais conhecidas dos Estados Unidos, que seguem fielmente a lei (com o perdão do trocadilho), só contratam músicos que tenham documentação legal para atuar na área. Ou seja: ou os brasileiros conseguem este documento, ou precisam ser registrados como cidadãos americanos.

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A um passo do 'sonho americano'

Wave Church arrow-options
Reprodução/Facebook
Com linha parecida com a igreja Bola de Neve, Wave Church também conta com músicos brasileiros

Paulo* (nome fictício utilizado a pedido do entrevistado) é talvez um dos brasileiros que se deu melhor nos EUA e está bem próximo de tirar a ‘sorte grande’. Depois de uma primeira tentativa em São Francisco, para onde foi convidado por um amigo para trabalhar como roteirista em uma empresa que acabou não dando certo, viajou para Los Angeles em busca de dias melhores. Na ‘cidade dos anjos’, foi acolhido por um amigo de São Paulo, a quem começou a ajudar após criar um estúdio em um dos quartos, realizando alguns projetos musicais.

O single, criado a quatro mãos, foi lançado na internet e fez relativo sucesso. Neste meio tempo, ele conheceu a Wave Church, localizada na região de Hermosa Beach, que tem linha de raciocínio semelhante à da Igreja Bola de Neve e conta com algumas unidades no Brasil. O trabalho, porém, não era remunerado, o que fez com que começasse a pensar em uma mudança para uma região mais atrativa. Foi então que surgiu Orlando.

Paulo recebeu proposta para se mudar para a Flórida. Como tinha o objetivo de levar a mulher para os EUA e precisava do dinheiro para se manter, não pensou duas vezes e aceitou. Foi morar na casa de alguns pastores que conhecia do tempo em que morava no Brasil, e trabalhar em uma das igrejas mais tradicionais da região.

Ao chegar, notou que a estrutura, apesar de fisicamente boa, necessitava de mais braços para as atividades. Assim, começou a participar dos cultos tocando piano, ao lado do único baterista que compunha o grupo instrumental do coro, e a ajudar na musicalização de outros membros. Três semanas depois, recebeu uma proposta do pastor da igreja: caso tivesse interesse, a igreja entraria com o pedido do visto religioso, para que ele passasse a ganhar um salário e deixasse de receber apenas as ofertas levantadas com os fiéis.

Com sua experiência, ajudou a montar uma equipe de musicistas para os cultos e para o coro, o que lhe garantiu também a posição de ‘headhunter da fé’. Hoje, visita outras igrejas da região em busca de músicos que possam ser aproveitados na congregação e auxiliar no trabalho musical.

O serviço na igreja rende cerca de US$ 400 semanais, o que não é suficiente para sobreviver na região. Assim, atua também como professor de música e ensina brasileiros e norte-americanos a tocar teclado, piano, guitarra, violão e até contrabaixo. A expectativa é de que os ganhos aumentem quando o processo de obtenção do visto for concluído. Ate lá, as aulas e os cultos vão dando o tom da carreira, que tem objetivos muito mais ambiciosos: no futuro, ele espera lançar um CD, algo que deve acontecer ainda em 2019, e colocar de vez em marcha o sonho de uma carreira internacional. Voltar ao Brasil? Só em outro momento.

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A dura vida de quem não tem visto

Journey Church arrow-options
Reprodução/Facebook
A Journey Church de Orlando tem uma equipe de desenvolvimento para revelar novos músicos

A situação de Paulo, porém, é a exceção que confirma a regra entre os brasileiros. A maioria acaba enfrentando dificuldades, mesmo quando recebe algum tipo de ajuda para desembarcar nos EUA. Muitos, inclusive, acabam pagando a moradia em locais geridos pelos templos com serviço, na esperança de que os papéis para a confirmação da cidadania sejam autorizados.

É o caso de João (nome fictício utilizado a pedido do entrevistado), que tem uma história de vida bastante interessante no mundo da música, principalmente nos tempos em que ainda vivia no Brasil, e que hoje encara os desafios de sobreviver de seu talento a cada dia em Orlando, sempre de olho em um futuro melhor.

No Brasil, fez parte de uma banda que ficou conhecida após participação em um programa de TV que tinha por objetivo revelar novos talentos da música nacional. A terceira colocação no evento fez com que o grupo assinasse contrato com uma das maiores gravadoras do país. Porém, como acontece algumas vezes no mundo da música, a história acabou não tendo um final feliz: movimentações internas fizeram com que João acabasse sendo cortado do grupo e tivesse que reconstruir sua carreira sozinho.

“Eu tinha o sonho de investir em uma carreira internacional, mas não imaginava que seria tão cedo. Estava envolvido no projeto da banda, pensando em fortalecer ainda mais a marca e acabou rolando isso. Acabou que, antes do que eu esperava, eu tive essa oportunidade de vir para os EUA”, revela.

Ele conta que recebeu algumas sondagens de pessoas que conheceram seu trabalho por meio de redes sociais, e do próprio programa, e que acabou se associando a uma banda que já existia no cenário norte-americano após se apresentar em uma mostra de talentos. Porém, a oportunidade de trabalhar nas igrejas de Orlando só surgiu depois.

Ele lembra que, quando ainda estava no Brasil, atuava de forma voluntária na igreja Nova Vida, no Rio de Janeiro. Exatamente quando começava a botar em prática a ideia de ir para os Estados Unidos, descobriu que um dos pastores da igreja tinha o objetivo de abrir uma filial por lá e que já estava até com a viagem marcada.

Assim, passaram-se nove meses de muito trabalho na nova casa. Além da parte musical durante os louvores, João auxiliou na construção do templo, na contratação de novas pessoas para a banda e em tudo o que pudesse ser útil.

Neste meio tempo, foi apresentado ao trabalho da Journey Church, uma das maiores de Orlando. Atuando nas duas congregações, começou a se envolver ainda mais no ambiente musical das igrejas e a aumentar sua rede de conhecidos.

“Fiquei impressionado com a forma como eles tratam o trabalho, não só na parte musical, mas como um todo. Fiz um teste com eles e passei, para atuar na equipe de desenvolvimento de músicos e de serviços da igreja. Porém, até que eu consiga concluir o processo de obtenção do visto, eu não posso receber um salário”, revela.

A saída encontrada pelas igrejas é auxiliar de alguma outra forma. No caso de João, ele recebe os chamados ‘gift cards’, ou cartões de presente, que podem ser usados em diversas lojas de conveniência para a compra de comida e outros itens básicos. Outras formas de ajuda são um vale alimentação ou vale transporte, que facilitam o dia a dia dos músicos.

Além dos serviços nas igrejas, João procura se apresentar em outros lugares para “ficar conhecido”. Para isso, ele se juntou a uma banda norte-americana que faz alguns shows pelo país, o que lhe dá a oportunidade de mostrar seu trabalho e se aproximar de outras pessoas do cenário musical. Afinal, seus objetivos são bem maiores do que apenas o visto religioso.

“Meu objetivo principal é consolidar mais a minha carreira por aqui. A ideia é tirar minha documentação para poder caminhar a América inteira fazendo minha música e quem sabe também poder ir para a Europa. No caso do Brasil, se pintar uma oportunidade legal, eu volto sem problemas. Mas, no momento, o objetivo é me consolidar por aqui”, finaliza.

Mas o que é o visto religioso?

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Reprodução/US Immigration
Para a obtenção do visto religioso, candidato deve seguir uma série de regras

Segundo informa o site do governo norte-americano, o documento, comumente chamado de R-1, permite que um estrangeiro atue nos Estados Unidos temporariamente como ministro ou em alguma outra função ligada à igreja e só pode ser concedido a quem atua pelo menos 20h por semana em organizações cristãs, sejam elas sem fins lucrativos ou filiadas a outras denominações religiosas no país.

O visto deve ser usado por pessoas que dediquem suas vidas à pratica da religião e são membros seculares da fé que propagam. Para que tenha direito, o candidato deve ser membro de uma organização religiosa nos EUA por pelo menos dois anos antes da solicitação.

Portanto, obter o visto religioso, mesmo com o respaldo de um pastor conhecido no Brasil, não é das tarefas mais fáceis, o que acaba fazendo com que a maioria destes músicos brasileiros acabe se tornando ”ilegal” até que a documentação para que se tornem cidadãos americanos seja aprovada.

“Sem registro, a pessoa não pode receber. Pelo menos é assim nas igrejas que são sérias e seguem as regras direitinho”, explica Fernanda Pontoni, que trabalha na First Baptist Church de Orlando , uma das dez maiores da cidade. “Muitos trabalham de forma voluntária, doando seu tempo para a igreja. Porém, para receber, a regra diz que é preciso ter o visto de trabalho, seja ele religioso ou não.”

Luiz Felipe Veronez, da Igreja Fonte de Vida, confirma a explicação de Fernanda. Segundo ele, a maior parte dos músicos acaba sendo formada por voluntários nas igrejas de Orlando , mas que existe uma segunda maneira de obter algum dinheiro neste ramo: a chamada ‘oferta’.

“No Brasil, essa é uma forma menos divulgada de se pagar um músico, mas aqui nos EUA é bastante difundido. Acontece da seguinte forma: o pastor convida um músico para participar do culto e o apresenta aos fiéis. Neste momento, ele levanta uma oferta, pedindo que eles contribuam com qualquer quantia em dinheiro para ajudar aquele profissional”, afirmou.

Segundo Veronez, esta é uma maneira que as igrejas menores encontraram de auxiliar sem infringir qualquer tipo de lei. Outra opção é trocar a ‘oferta’ por uma exibição durante o culto. Desta forma, o músico se faz conhecido e pode vender seu material, caso tenha algum CD ou DVD já gravados, aos fiéis.