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Com forte presença de policiais e militares nas ruas de Caracas, protestos da oposição até os quartéis têm pouca adesão

Guaidó
Reprodução/Twitter
Autoproclamado presidente interino da Venezuela, Guaidó convocou o povo às ruas

A convocação era clara e pedia que todos os venezuelanos levassem uma mensagem aos quartéis da Força Armada Nacional Bolivariana (Fanb). Mas desta vez, em meio a um clima de forte incerteza, com a ausência das lideranças opositoras nas ruas e um aparato repressor ostensivo na cidade, a participação popular foi escassa. O pedido do presidente da Assembleia Nacional (AN), Juan Guaidó , proclamado por ela “presidente encarregado” da Venezuela em janeiro, obteve uma baixa adesão neste sábado num ambiente que mistura decepção com as últimas ações da oposição e, principalmente, temor pela repressão ordenada pelo governo do presidente Nicolás Maduro. 

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O Globo percorreu neste sábado vários pontos de encontro determinados pela oposição em Caracas e constatou que a presença de manifestantes era pouco expressiva. Guaidó pedira a seus seguidores que fossem aos quartéis entregar aos militares um documento reafirmando a oferta de anistia da AN aos que abandonarem Maduro, buscando redobrar as pressões sobre membros da Fanb na Venezuela . A tentativa de levante da última terça-feira é considerada por analistas, jornalistas e até mesmo algumas fontes opositoras um fracasso. E a tentativa de mobilização de ontem tampouco teve êxito.

Nas ruas e avenidas da capital venezuelana, agentes da Guarda Nacional Bolivariana (GNB) e da Polícia Naciona Bolivariana (PNB) marcaram forte presença, criando um ambiente de medo. Pessoas que costumam ir a marchas opositoras optaram por ficar em casa.

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— Não temos condições mínimas de segurança — afirmou a estudante Eugenia Ramírez, de 25 anos, assídua participante dos protestos organizados e liderados por Guaidó.

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Na última sexta-feira, Maduro afastou o diretor da PNB, general Carlos Pérez Ampueda, em uma verdadeira caça às bruxas nas forças de segurança. Se opositores estão assustados, o pavor na Fanb, na GNB e na PNB é igual ou maior. Para que Guaidó e o presidente do partido Vontade Popular, Leopoldo López — solto da prisão domiciliar e agora hóspede na Embaixada da Espanha — pudessem fazer a fracassada ação de terça, foi necessária a participação de militares, membros do Serviço Bolivariano de Inteligência (Sebin) e da GNB.

Medo nos quartéis

Desde então, Maduro tem aparecido todos os dias rodeado de militares e, em seus discursos, reitera a palavra “lealdade” cada vez que pode, mandando um claro recado a antigos e potenciais traidores. Neste sábado, foi ao Centro de Treinamento de El Pao, onde convocou os militares a ficarem alerta “aos traidores”.

Nos quartéis, o monitoramento é permanente, revelou um militar reformado, cujo sobrinho é comandante de um batalhão do Exército.

— Os telefones dos militares são controlados de forma permanente, eles quase não podem falar com suas famílias — contou a fonte.

Num episódio ainda sem esclarecimento, quatro militares — entre eles um general — e dois policiais foram mortos numa emboscada no estado de Aragua neste sábado. Segundo as autoridades, eles foram atacados ao investigarem um anterior “atentado terrorista”.

O cenário venezuelano é complexo. A oposição está tentando reconstruir um plano que não deu certo, com um de seus líderes refugiado numa embaixada e seus seguidores cansados e atemorizados. Já o governo, também enfraquecido, tenta conter a insatisfação dentro dos quartéis e evitar novas traições.

Paralelamente, o chanceler da Venezuela , Jorge Arreaza, encontrará seu colega russo, Sergei Lavrov, neste domingo em Moscou. Depois dessa conversa, Lavrov se reunirá com o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, na Finlândia. Por sua vez,  Cuba pediu que a crise na Venezuela seja resolvida com negociações.