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Ascensão de movimentos ultraconservadores nos EUA pode dar voz a políticos revolucionários de direita ao redor do mundo; veja quais são eles

Ativistas de extrema-direita americanos aparecem em um vídeo exaltando o presidente eleito dos EUA, Donald Trump
Reprodução/The Atlantic
Ativistas de extrema-direita americanos aparecem em um vídeo exaltando o presidente eleito dos EUA, Donald Trump


Há quem diga que não tenha ficado surpreendido com a vitória do candidato republicano à presidência dos Estados Unidos, Donald Trump. Mas, é possível que a virada na corrida eleitoral e a consequente derrota de Hillary Clinton tenha surpreendido e trazido mais perguntas do que respostas para a maioria das pessoas ao redor de todo o mundo.

Afinal, Trump pode ser taxado como um "mistério" aos olhos de cidadãos comuns (e mesmo para cientistas políticos, de certo modo). Tudo bem, muitas promessas foram feitas durante a tentativa de ser eleito; porém, quais delas o magnata vai, realmente, conseguir cumprir durante seu mandato de quatro anos? Por que a população norte-americana se sentiu carente de uma política tão conservadora ?

Além disso, há questionamentos acerca da possível influência da guinada à direita que a política norte-americana para outros países. Podemos afirmar que existe uma "onda conservadora" no mundo? Como os movimentos ultraconservadores nos Estados Unidos podem impactar outros países? Para entender melhor e responder a algumas (das muitas) perguntas sobre a vitória de Trump, o iG conversou com especialistas. 

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Tea Party: ninho de extremistas

Conhecido como uma vertente economicamente conservadora norte-americana, o "Tea Party" foi criado oficialmente em 2004, mas seus ideais partem da Revolução Americana, no início do século 18, por volta do ano de 1700, quando os Estados Unidos ainda eram uma colônia e lutavam por sua independência do Reino Unido.

“Os seguidores desse movimento defendem a mínima intervenção do Estado na economia, além de condenarem medidas sociais como o Obamacare, o plano de saúde proposto por Barack Obama, do qual o presidente eleito, Donald Trump, havia afirmado que iria extinguir”, explica Robert Gregory Michener, doutor em ciências políticas pela Universidade do Texas e professor da Faculdade Getúlio Vargas.

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Dessa maneira, os seguidores dessa corrente culpam o aumento excessivo de impostos e as altas taxas de desemprego como consequências de políticas sociais, ampliadas ao longo dos oito anos das gestões Obama, segundo explicou o professor de Relações Internacionais da Pontíficia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Carlos Gustavo Poggio. 

Para Poggio, isso fez com que candidatos revolucionários e extremistas, como Trump, fortalecessem suas candidaturas - ou seja, se colocando como contraponto ao que está sendo realizado na conjuntura de insatisfação.  “A solução para melhorar a economia, para essas pessoas, é fechar as fronteiras, tornando-se potências antiglobais, como é o caso da Rússia de Vladimir Putin”, enfatiza Michener. 

Especialistas apontam a chanceler alemã, Angela Merkel,  como  o
Antonio Cruz / ABr - 14/05/2008
Especialistas apontam a chanceler alemã, Angela Merkel, como o "pilar do liberalismo ocidental" após a saída de Obama


Repulsa Democrata

Para os especialistas, as consequências dessa repulsa democrática pode dar potência à voz de movimentos ultrarrevolucionários, como é o caso da “Alt-right” nos Estados Unidos, que já vem ganhando espaço na mídia nacional e internacional.

Michener explica que a diferença entre este movimento e o Tea Party, é que, enquanto o Tea Party busca o enaltecimento dos preceitos conservadores na economia, o Alt-right tenta instaurar uma ordem social ultraconservadora. 

O movimento ganhou atenção depois do anúncio de Stephen Bennon como chefe de estratégia de Trump em Washington. Bennon é autodeclarado seguidor da Alt-right. 

"Os líderes dessa corrente lutam por uma revolução nostálgica com a volta do ‘americano clássico e branco'. É uma reação violenta à cultura liberal e aos preceitos da diversidade”, destaca Teixera.

Onda Conservadora

Pode-se afirmar que esses ideais conservadores vistos nos Estados Unidos poderão impactar de forma direta as urnas de países como a Alemanha e a França em 2017.  Contudo, para os especialistas consultados pelo iG,  muitos líderes ocidentais acreditam que a chanceler alemã, Angela Merkel,  poderá desempenhar o "pilar do liberalismo ocidental" caso consiga ser reeleita em 2017. 

Porém, a própria chanceler afirmou que a corrida pelo cargo, desta vez, deve ser a mais difícil de toda a sua carreira. Durante uma conferência, Merkel, que está à frente da Alemanha desde 2005, lembrou que a sociedade do país enfrenta uma "forte polarização" e prometeu lutar "pelos nossos valores e pelo nosso modo de vida". 

Sob a ótica de Michener, a Alemanha se beneficiou do liberalismo nos últimos anos e isso não deve mudar. "Por outro lado, a França poderá sofrer uma contra reação conservadora com a vitória de uma candidata como Marine Le Pen, da frente nacional francesa", ressalta. 

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Correntes fundamentalistas e o Brasil

Para Goggio, "mais do que o conservadorismo, o nacionalismo exarcebado é algo que temos que nos preocupar".  Já que, da união do conservadorismo com o nacionalismo, para os especialistas, originam-se as correntes fundamentalistas. E é aí que "mora o perigo". 

No Brasil, a ascensão de candidatos conversadores nas eleições municipais, como Marcelo Crivella (PRB), eleito do Rio de Janeiro, e João Doria (PSDB), em São Paulo, são evidências de que o conservadorismo já atinge o Brasil, mas seu rumo ainda é incerto. Aliás, já houve uma demonstração de apoio forte nas redes sociais ao deputado federal, Jair Bolsonaro (do PSC-RJ), reconhecidamente defensor de ideais conservadores, para a corrida dos presidenciáveis em 2018. 

Assim, o resultado da influência conservadora de Washington no País deve aparecer nas urnas quando os brasileiros escolherem o próximo presidente do Brasil.  

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