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Com plano arriscado, jovem desafiou brutalidade para ter acesso a oportunidades que lhe eram negadas por grupo radical islâmico

BBC

Zahra Joy como
Arquivo Pessoal/ Joel van Houdt
Zahra Joy como "Mohammed" (à esquerda) e ela hoje (à direita) com 23 anos, estudou direito na faculdade e é jornalista

Para poder frequentar a escola durante o regime do Taleban, Zahra Joya teve de fazer algo inusitado e perigoso: se vestiu de menino durante seis anos. Naquela época, as meninas e mulheres do Afeganistão eram proibidas de ir à escola. Só estudavam em casa, na expectativa de que algum dia as instituições voltassem a aceitá-las.

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Mas o tio de Zahra, também aluno, teve uma ideia: por que não vesti-la de menino? Ela, à época com apenas cinco anos, insistiu com a mãe e o avô para levar a ideia a cabo. A princípio, a mãe recusou, dizendo que a vontade de Deus era que ela fosse menina. A menina insistiu e convenceu os dois a fazer uma experiência.

“Mudei minhas roupas e tive de aprender a ser menino. Meu tio me ensinou a jogar futebol, a ir para as montanhas, a fazer as coisas que os garotos faziam. E passei a me chamar Mohammed”, conta à "BBC".

No primeiro dia de escola, a diretora já mandou que cortasse o cabelo, pois à época poucos meninos no Afeganistão usavam cabelos longos. Mas ninguém suspeitou que ela fosse menina, já que a escola ficava a 1h30 de sua casa e ninguém conhecia sua família.

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Ela, porém, vivia com medo de ser descoberta – de não responder ao ser chamada de Mohammed ou se apresentar como Zahra, o que de fato chegou a acontecer, mas sem causar grandes problemas. A família também tinha receio de que o plano fosse descoberto e eles acabassem ameaçados. Outro medo era virar noiva em um casamento forçado pelo Taleban, como era o costume.

Sociedade

Mas a experiência teve pontos positivos. Ela teve acesso não apenas à educação, mas a segmentos da sociedade que não teria como mulher. “Ao ser Mohammed, fiz meu futuro, aprendi a socializar com homens e com uma parte da sociedade com a qual eu não teria contato. Quando tinha uma reunião só para meninos, eu podia ir, falar com homens, apertar as mãos deles, o que não era comum no Afeganistão.”

Durante o regime do Talebã, as meninas e mulheres do Afeganistão eram proibidas de ir à escola, só estudavam em casa
BBC
Durante o regime do Talebã, as meninas e mulheres do Afeganistão eram proibidas de ir à escola, só estudavam em casa


Aos poucos, até parte da sua família começou a chamá-la de Mohammed Zahra, apelido que dura até hoje. Mas, quando tinha 11 anos, o regime do Talebã caiu e ela pôde voltar a estudar.

As escolas, porém, eram separadas entre meninos e meninas. Zahra sofreu dos dois lados: os meninos achavam injusto ela ter frequentado a escola deles e as meninas faziam bullying porque “até ontem” ela era menino.

Mas a garota não ligava. “Eu dizia que estava feliz porque podia ler, escrever, tive educação no tempo certo. Estava orgulhosa porque tinha voz”, conta. Contudo, sentia falta dos tempos em que era Mohammed.

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"Como Zahra, não tinha as oportunidades que os meninos tinham, não tinha todos os direitos, não podia rir alto. Sinto saudade dos direitos que tinha como Mohammed”, afirma.

Os estudos não pararam por ali: ela estudou Direito na faculdade e hoje, aos 23 anos, é jornalista e sustenta toda a família – paga inclusive a educação das duas irmãs mais novas, pois prometeu a si que elas “não sofreriam como sofri”.

E para onde foi Mohammed? “Mohammed ainda vive em mim. A coragem que adquiri sendo Mohammed me ajudou muito a ser alguém na minha própria identidade. Tento muito não perder essa coragem que me ajudou a ser alguém e ajudar outras pessoas, especialmente mulheres.”