Tamanho do texto

Para especialistas, confirmação do magnata para concorrer à Casa Branca é consequência da crise econômica de 2007 e 2008, que levou imigrantes e muçulmanos a se tornarem bodes expiatórios das alas mais conservadoras

Apesar de ter sua campanha oficializada pelo partido Republicano, Trump ainda possui  altos níveis de rejeição nos EUA
Facebook/Reprodução
Apesar de ter sua campanha oficializada pelo partido Republicano, Trump ainda possui altos níveis de rejeição nos EUA



Demagoga, populista, racista. São esses alguns dos adjetivos que especialistas consultados pelo iG citam para classificar a postura de Donald Trump ao longo das prévias que o consolidaram como candidato republicano à presidência dos EUA –  oficializada em convenção do partido  realizada na terça-feira (19).

Polêmica e desacreditada desde que foi lançada, com discursos islamofóbicos e xenófobos, a campanha de Trump conseguiu, apesar da total ausência de experiência na política do magnata, derrubar um a um todos os pré-candidatos que pretendiam disputar a Casa Branca pelo partido, entre eles o senador texano Ted Cruz e o ex-governador da Flórida Jeb Bush. Mas será que existe uma explicação objetiva para tamanho fenômeno?

LEIA MAIS:  Contra chatice, Trump transforma convenção que oficializará candidatura em show

Professor de Relações Internacionais da PUC-SP, Carlos Gustavo Poggio afirma que um dos pontos que ajudaram na vitória do magnata entre os republicanos foi o clima de instabilidade surgido nos EUA após a recessão econômica dos anos de 2007 e 2008 – e que acabou prevalecendo, principalmente entre o eleitorado mais conservador.

“A criação de empregos e o aumento de renda ainda não atingiram a parcela tradicional dos eleitores republicanos: branco, de classe média, escolaridade básica e mais velho”, avalia Poggio. 

Esposa de Trump é acusada de plagiar discurso de Michelle Obama na convenção do partido republicano
Twitter/Reprodução
Esposa de Trump é acusada de plagiar discurso de Michelle Obama na convenção do partido republicano

A opinião é corroborada por outros especialistas. De acordo suas análises, é reconfortante para os temores da parcela mais conservadora dos republicanos o discurso xenofóbico e isolacionista do magnata – que, entre outras propostas, promete erguer um muro na fronteira dos EUA com o México e proibir temporariamente a entrada de muçulmanos em território norte-americano.

“É uma população que se imagina em uma América pós-guerra”, diz Rogério Baptistini, cientista político da Universidade Presbiteriana Mackenzie. “Um povo que não se conforma com a perda do protagonismo norte-americano no mundo.”

Consultor público e professor de marketing político da ESPM, Emmanuel Publio Dias vai ainda mais longe. Para o especialista, o “discurso demagógico” de Trump só conseguiu ganhar espaço devido à incessante busca do eleitorado republicano por um inimigo comum para explicar a crise econômica no país – como o fez o magnata com os imigrantes. 

LEIA MAIS:   Pesquisas mostram Clinton com 46% da intenção de votos, contra 41% de Trump

Ele ameniza, no entanto, a vitória de Trump e de seu discurso durante as prévias. “As restrições dos republicanos, que ficaram claras com a ausência dos ex-candidatos [republicanos] na convenção, devem fazer com que Trump passe a abrandar seu discurso. Apesar de merecer atenção por chegar onde chegou, não me parecem haver chances reais de Trump ganhar de sua rival”, avalia Dias.

Discurso xenófobo e isolacionista do empresário é um conforto para os temores dessa parcela republicana
Twitter/Reprodução
Discurso xenófobo e isolacionista do empresário é um conforto para os temores dessa parcela republicana

“Além da divisão interna no próprio partido, a história demonstra que um democrata nunca vota em um republicano, e vice-versa. Nos EUA, a política é mais consciente da que estamos acostumados a ver aqui. Não existe esse oportunismo barato.”

LEIA MAIS:  Trump elogia ditador Saddam Hussein por matar terroristas

De fato, as reações contrárias à oficialização da candidatura ganham mais força a cada dia. Após republicanos contra o magnata protestarem na convenção que oficializou o nome de Trump para a disputa pela Casa Branca, o ex-pré-candidato Jeb Bush, irmão do ex-presidente George W. Bush, publicou um artigo no jornal “The Washington Post” no qual defende que Trump “não é o futuro do partido” e “nem dos Estados Unidos”.

Ou seja, além da adversária Hillary, dos democratas e dos setores mais liberais da sociedade norte-americana, Trump ainda tem como obstáculos os próprios “colegas” de partido. Aqueles que, assim como os adversários, também veem seu discurso como demagógico, populista e racista.

    Leia tudo sobre: Donald Trump
    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.