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Não é a primeira vez que eleitores do Reino Unido vão às urnas decidir se país permanece ou não na União Europeia; em 1975, o parlamento fez a mesma pergunta e a população votou "sim"

Líder do partido United Kingdom Independence Party (Ukip), Nigel Farage é o nome do Brexit
Stefan Wermuth/Reuters
Líder do partido United Kingdom Independence Party (Ukip), Nigel Farage é o nome do Brexit


Em 1975, com medo de futuras guerras, 67% dos eleitores britânicos votaram pela permanência do país na Comunidade Europeia, em plebiscito de vários paralelos com pleito da próxima quinta-feira (23) sobre “Brexit”

As circunstâncias são parecidas com o que vive a Grã-Bretanha no momento atual: o primeiro-ministro promete renegociar os termos de adesão do país à União Europeia e, em seguida, deixa que os eleitores tomem a decisão de aderir ou não bloco nas urnas. O governo incita o público a votar "sim", mas vários membros do gabinete se opõem a ele e fazem sua própria campanha pelo "não".

Só que tudo isso aconteceu 41 anos atrás; muita gente não sabe que o plebiscito de 23 de junho, em que os britânicos se preparam para decidir sobre sua permanência na União Europeia, não foi o primeiro do tipo no país. Em 5 de junho de 1975, o governo do primeiro-ministro trabalhista Harold Wilson perguntou aos eleitores: "Você acha que o Reino Unido deve permanecer na Comunidade Econômica Europeia (CEE)?"

Afiliação

O Reino Unido aderiu à CEE em 1973, durante o governo conservador de Edward Heath. Mas durante as campanhas eleitorais que se seguiram, em 1974, o Partido Trabalhista prometeu que as pessoas poderiam dizer "nas urnas" se queriam continuar pertencendo ao Mercado Comum. Assim, quando os trabalhistas ganharam a eleição, eles mantiveram sua promessa.

Este foi o primeiro plebiscito sobre o assunto em todo Reino Unido. Antes, houve plebiscitos individuais na Escócia, País de Gales, Irlanda do Norte, Londres e seus entornos e outras cidades. Agora, as coisas parecem estar se repetindo. Durante sua campanha para as eleições de 2015, o primeiro-ministro conservador David Cameron prometeu que, se fosse vencedor, realizaria um plebiscito sobre a adesão do país à UE. Antes disso, tentaria renegociar os termos de adesão ao bloco.

Esta promessa foi em resposta aos pedidos de vários de seus próprios parlamentares conservadores e do direitista Partido da Independência do Reino Unido (Ukip, na sigla em inglês), que argumentavam que o país não tinha expressado uma opinião sobre a questão europeia desde 1975. Estas vozes argumentaram que a UE tinha mudado muito e adquirido controle excessivo sobre as vidas diárias dos britânicos.

David Cameron fala no Museu Britânico sobre os riscos da saída do Reino Unido do Bloco Europeu
Georgina Coupe/Crown Copyright/Fotos Públicas
David Cameron fala no Museu Britânico sobre os riscos da saída do Reino Unido do Bloco Europeu


Cameron, em seguida, cedeu: "É o momento de o povo britânico expressar sua opinião. É o momento para resolver esta questão europeia na política britânica". Desta vez, a questão que os britânicos responderão em 23 de junho será: "O Reino Unido deve continuar a ser um membro da União Europeia ou deve deixar a União Europeia?".

Divisões

Quando Harold Wilson anunciou que realizaria um plebiscito sobre a Europa, então nova líder do Partido Conservador - de oposição -, Margaret Thatcher, criticou a decisão do governo trabalhista como uma "estratégia para superar as divisões dentro de seu próprio partido". Em 1975, os partidos Conservador e Trabalhista estavam profundamente divididos sobre a questão. Agora, o quadro é parecido e os conservadores estão bem divididos – já os trabalhistas estão menos.

E as campanhas que foram realizadas há quatro décadas têm mais do que uma ligeira semelhança com o que está sendo visto agora. Em 1975, a líder da oposição, Margaret Thatcher, apoiou a permanência do país na Europa, juntando-se à causa do governo trabalhista. "O primeiro-ministro tem que confiar mais em seus opositores políticos do que em seus supostos amigos para garantir a decisão sobre a Europa que considera certo para o Reino Unido", disse Thatcher, no Parlamento, em 8 de abril de 1975.

"Tem sido sugerido em alguns lugares que o meu partido poderia achar tentador retirar seu apoio para constranger o primeiro-ministro, mas nós consistentemente temos votado a favor da Europa e não consideramos mudar de ideia sobre este assunto", acrescentou a premiê britânica.

Margaret Thatcher foi o nome de oposição ao governo na votação pela permanência do país na UE
Wikimedia Commons
Margaret Thatcher foi o nome de oposição ao governo na votação pela permanência do país na UE


Muitos políticos conservadores que apoiam a saída da UE – como o ex-prefeito de Londres Boris Johnson – veem a União Europeia com outros olhos, e certamente não concordam com a visão de Thatcher na época. Mas aqui é bom lembrar que o Mercado Comum era uma aglomeração bem menor de países (nove nações integravam o grupo), um bloco que seguia regras comuns mais voltadas para o âmbito do comércio. A UE, atualmente, tem 28 países que seguem as mesmas regras para vários setores, de comércio à imigração.

"Todos devem apresentar-se nesse plebiscito e votar ‘sim’, para que o assunto seja resolvido de uma vez por todas, para estejamos realmente na Europa e prontos para seguir em frente", disse Thatcher, em uma entrevista para a televisão em 1975. Nas campanhas atuais, o líder da oposição trabalhista Jeremy Corbin juntou-se à causa do governo conservador de David Cameron apoiando a permanência na UE, mas deixou claro repetidas vezes que "não está do mesmo lado do argumento" do premiê.

"Imagine o que os Tories (conservadores) fariam com os direitos dos trabalhadores no Reino Unido se votarmos para sair da UE ", questionou Corbin no site do Partido Trabalhista. "Abandonariam, com a maior velocidade possível, os direitos à igualdade de remuneração, horas de trabalho, direito a férias e pagamentos de maternidade. Seria uma fogueira dos direitos garantidos pelos governos trabalhistas no âmbito da UE".

O Reino Unido mantém, historicamente, relação complicada com a UE por controle estatal
Toby Melville/Reuters
O Reino Unido mantém, historicamente, relação complicada com a UE por controle estatal


Os principais temas

De acordo com relatos da época, as principais questões sobre as quais os eleitores se basearam para votar no plebiscito foram a economia, a defesa, o papel do Reino Unido em assuntos internacionais, a segurança e a paz diante de eventuais conflitos. Em 1975, muitos tinham memórias relativamente recentes da Segunda Guerra Mundial e uma cooperação mais estreita com a Europa era vista como crucial para evitar conflitos futuros.Agora, os tópicos mais quentes são a imigração e o controlo das fronteiras britânicas, a economia e a soberania nacional.

Em 5 de junho de 1975, o público britânico disse “sim” à permanência na Comunidade Europeia. Os resultados do plebiscito mostraram que 67,5% dos eleitores – 17,378,581 pessoas – votou para ficar.

Roy Jenkins, um dos deputados trabalhistas que apoiaram a campanha para o "sim" em 1975, pensou que estes resultados resolveriam, de uma vez por todas "a questão da Europa". "Isso deixa a incerteza no passado ", disse na época. Jenkins certamente não imaginava que a história se repetiria e que a incerteza sobre a Europa seguiria presente 41 anos mais tarde.