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Refugiado perdeu irmã e pai em ataque do Boko Haram e fugiu do país; imigrações são as maiores desde a 2ª Guerra Mundial

Quando Luiz (nome fictício), de 36 anos, perdeu o pai e a irmã em um ataque do grupo terrorista Boko Haram a uma igreja da Nigéria, ele decidiu deixar seu país em busca de um local mais seguro para viver. 

Cristão criado em Maiduguri, no Estado de Borno, o nigeriano entrou em contato com amigos que também haviam decidido deixar a Nigéria e vendeu tudo o que tinha na esperança de uma vida melhor. Mas optou por um destino diferente dos demais: enquanto a maioria se arriscou pelo mar Mediterrâneo rumo à Europa, ele seguiu para a Guiné-Bissau e, de lá, embarcou para o Brasil.

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Migrantes esperam para desembarcar do navio Phoenix no porto de Messina, Sicília, Itália (jun/2015)
AP
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"Sempre tive medo do [Mar] Mediterrâneo. Quando saí da Nigéria, queria fugir da morte, e não ir de encontro a ela", explica ao iG . "Não tinha a intenção de vir ao Brasil, mas havia ouvido falar que o País era receptivo e não perseguia grupos religiosos. Fiz a escolha certa."

Os nigerianos estão entre os grupos com maior número de solicitações de refúgio em andamento no Brasil. De acordo com o Acnur, até outubro de 2014, 1.150 aguardavam retorno do governo sobre seu status. À frente deles só estavam senegaleses, com 2.164. Ganeses são a terceira maior população à espera de refúgio, com 1.090 solicitações pendentes.

Instalado no Brasil desde 2013, Luiz trabalha e mora em São Paulo. Falante de português, ele afirma ter aprendido, assim que chegou no País, uma palavra que descreve exatamente o que sente ao pensar na família, especialmente quando se trata da mãe, atualmente asilada em Gana: saudade.

"Meu coração fica apertado quando penso nela, por que agora só tenho minha mãe. Mas ela sabe o quanto tenho me esforçado para juntar dinheiro e trazê-la para morar comigo. É meu maior sonho", diz.

Atualmente, o maior número de refugiados no Brasil vem da Síria. Entre janeiro de 2010 e outubro de 2014, 1.524 refugiados sírios chegaram ao Brasil. Para facilitar a entrada deles, a legislação nacional de refúgio criou o Conare, Comitê Nacional para os Refugiados. Por meio do órgão, foi criada lei que garante documentos básicos aos refugiados, incluindo os de identificação e de trabalho.

Brasil ainda é rota incomum

A decisão de Luiz é diferente da tomada pela maioria dos grupos que fogem da violência de seus respectivos países. De acordo com a OIM, Organização Internacional para a Migração, desde o início deste ano, cerca de 153 mil migrantes foram pegos tentando entrar na Europa pelo Mediterrâneo de forma ilegal, um aumento de 149% em relação ao mesmo período de 2014, quando 61.500 tentaram passar pelas fronteiras européias.

Para o pesquisador do observatório interdisciplinar de políticas públicas e professor de economia José Renato de Campos Araújo, esse aumento no fluxo de migratório se deve principalmente ao crescente número de conflitos internos em países da África e do Oriente Médio. 

"A Europa é o foco de imigrantes, principalmente africanos, desde pelo menos a década de 1960, por causa da riqueza do continente. Mesmo com a crise europeia, a região ainda é convidativa. Ainda mais porque há um grande número de compatriotas, o que facilita a adaptação", explica.


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Em busca de um futuro melhor

Segundo o órgão, o foco dos imigrantes ilegais é a rota dos Balcãs Ocidentais (a fronteira terrestre húngara com a Sérvia), onde o número de migrantes detidos ultrapassou os 10 mil de janeiro a abril deste ano. No período entre 1º de Janeiro e 31 de maio, mais de 50 mil migrantes foram pegos nessa rota, um aumento de 880% em relação ao mesmo período de 2014.

No caso da África, países como Senegal, Mali, Guiné e Gâmbia concentram os maiores índices de imigrantes ilegais rumo a Europa. A maioria deles são homens solteiros na faixa dos 20 anos. 

Risco no Mediterrâneo

O primeiro semestre deste ano registrou a maior onda de imigração em massa desde a 2ª Guerra Mundial (1939-1945) e com ela, um grande número de mortes nas águas do Mediterrâneo. Até agora, pelo menos 1 mil imigrantes morreram afogados, número 20 vezes superior a todo o ano de 2014.

Mesmo assim, esse tipo de tragédia não dissuadiu outros aventureiros a tentarem a sorte pelo mar com traficantes de pessoas. A explicação, segundo pesquisador do observatório interdisciplinar de políticas públicas José Renato de Campos Araújo, é que para grande parte desses grupos, o risco de morte no Mediterrâneo não é pior do que as circunstâncias que eles vivem em seus respectivos países de origem. 

"A maioria dos imigrantes nem chega ao continente e muitos deles sabem disso. Mas para esses imigrantes, continuar em seus países é assinar um termo de morte iminente. Ao menos no mar eles têm uma chance, mesmo que remota", explica Araújo. Grande parte das embarcações sai da Líbia, que se tornou uma anarquia depois que forças ocidentais liderarem a revolta que tirou o líder Muammar Gaddafi (1942-2011) do poder em 2011.

De imigrante a refugiado

Já dentro da Europa, o maior número de pedidos de refúgio em 2014 foi para a Alemanha com 202.700 requisições, ou 32% do total. A Suécia veio logo em seguida com 81.200, ou 13%. Depois, Itália com 64.600, ou 10% do total, França, 62.800, ou 10%, e a Hungria, 42.800, ou 7%, foram os países mais procurados para asilo político.

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De 2013 para 2014, o número de imigrantes fazendo a travessia praticamente quadruplico
AP
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Países como a Itália têm agido expressivamente para minimizar os efeitos catastróficos das imigrações ilegais e ajudado nas operações de resgate. A ONU informou que somente até a primeira semana de maio o governo italiano recebeu cerca de 35.500 refugiados. A agência de refugiados da ONU indica que o maior grupo requerentes de refúgio no continente é formado por sírios, com 122.800 requisições de asilo, ou 20% do número total de candidatos. Eritreus que fogem da guerra estão em segundo lugar.