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Scioli, governador de Buenos Aires, e ministro da economia, Kicillof, são apostas da presidente para manter kirchnerismo

Néstor Kirchner passa a presidência para a mulher, Cristina, em cerimônia de posse no Congresso de Buenos Aires, na Argentina (21/10/2010)
AFP
Néstor Kirchner passa a presidência para a mulher, Cristina, em cerimônia de posse no Congresso de Buenos Aires, na Argentina (21/10/2010)

Quinze anos após a chegada do seu marido e ex-presidente Néstor Kirchner à Presidência da Argentina, em 2003, a presidente reeleita Cristina Kirchner tenta manter o legado do kirchnerismo em um momento delicado da economia do país.

Viúva de Kirchner, que morreu em 2010, ela passará a faixa ao sucessor no dia 10 de dezembro, após as eleições presidenciais de outubro – ou de novembro, caso seja realizado um segundo turno. Cristina definiu a chapa presidencial, mesmo antes das eleições primárias de agosto, e escolheu os principais candidatos governistas ao Congresso Nacional, segundo a imprensa local.

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Nas listas de candidatos a deputado estão, por exemplo, o ministro da Economia, Axel Kicillof, o secretário-geral da Presidência, Eduardo "Wado" de Pedro, e o filho da presidente, Máximo Kirchner – aos 38 anos e sem ter ocupado cargos no Executivo, ele pela primeira vez disputa uma cadeira política.

Apesar do mau momento econômico e das implicações politicas da morte do promotor Alberto Nisman, em janeiro, Cristina recuperou popularidade nesta reta final de governo, segundo diferentes pesquisas de opinião, registrando em torno de 35% a 40% de aprovação.

Seu futuro é, porém, uma incógnita já que ela não será candidata a uma cadeira no Parlamento do Mercosul (Parlasul) ou ao Congresso.

"Cristina preferiu seguir exemplo [do ex-presidente brasileiro] Lula e da [presidente chilena] Michelet Bachelet e não quis buscar um cargo de menor hierarquia após ter sido presidente", escreveu o colunista Carlos Pagni, do jornal La Nación.

Analistas dizem que o destino do kirchnerismo dependerá, principalmente, de a chapa governista conseguir sair vencedora do pleito de outubro, já que opositores questionam as medidas econômicas atuais, como as duvidosas estatísticas de inflação.

No entanto, a oposição teria maior dificuldades no Congresso, de acordo com cálculos preliminalres dos especialistas.

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Outros analistas especulam que Cristina espera realizar informalmente a articulação política do governo servindo de conselheira a políticos kirchneristas.

Sem primárias

Quanto aos candidatos kirchneristas, o ministro Kicillof é hoje apontado nos bastidores das conversas dos negociadores brasileiros como "responsável pelas maiores dores de cabeça na relação bilateral". "Com ele não tem diálogo e é difícil chegar a um acordo, não importa o tema", disse um deles.

Nesta semana, em meio a rumores de que poderia continuar como ministro, mesmo que seja eleito deputado, Kicillof disse ao Canal CN23: "Meu mandato [de ministro da pasta] termina em dezembro, junto com o da presidente".

Política da Frente Para a Vitória (FPV), Cristina chamou a atenção dos políticos opositores, dos analistas, de setores da imprensa, críticos do governo, e de eleitores nas redes sociais quando definiu a chapa presidencial – antes das primárias.

Cristina Kirchner em cerimônia no palácio do governo da Casa Rosada
AP
Cristina Kirchner em cerimônia no palácio do governo da Casa Rosada



Carlos Zanninni, auxiliar de longa data do kirchnerismo, foi convocado para ser vice na chapa presidencial. Pouco conhecido do público, Zannini é atualmente secretário legal e técnico da Presidência, esteve preso na ditadura (1976-1983) e foi deputado e presidente do Tribunal de Justiça da província de Santa Cruz, na Patagônia, o berço político do kirchnerismo.

A escolha de Zannini pode ter sido, segundo o jornal El Cronista, o motivo para o aumento do dólar paralelo nesta semana - a moeda foi cotada acima dos 13,40 pesos, maior alta em cinco meses.

"Estamos diante do efeito Cristina e não do efeito Zannini. A presidente definiu sua tropa para o Congresso Nacional para complicar a vida do próximo governo, seja quem for o eleito", disse o economista e opositor Alfonso Prat-Gay, ex-presidente do Banco Central na gestão kirchnerista, em entrevista à rádio Mitre, de Buenos Aires.

O economista Fausto Spotorno, da consultoria Ferreres e Associados, atribuiu a alta à "incerteza eleitoral" e à "falta de definições sobre problemas da economia, como a inflação" – estimada em cerca de 15% anual pelo governo e em 30% por consultorias econômicas.

Nesta semana, o candidato presidencial Daniel Scioli, governador da província de Buenos Aires, disse que "Zannini é um homem inteligente, que conhece o Estado e garante governabilidade e institucionalidade" do país.

As declarações foram feitas no primeiro ato de campanha dos dois candidatos, realizado, na noite quarta-feira, na província de Córdoba, onde Zannini nasceu. "Scioli não era visto como kirchnerista puro, mas sua popularidade levou a presidente a definir sua candidatura", disse à BBC Brasil a analista política Mariel Fornoni, da consultoria Managment&Fit.




Surpresa
Segundo ela, causou surpresa a escolha de Zannini como representante do kirchnerismo na chapa presidencial, já que ele não é conhecido popularmente. Em uma palestra em um seminário da Universidade Tres de Febrero, de Buenos Aires, o analista Eduardo Fidanza, da consultoria Poliarquía, disse que uma das incógnitas, caso vença a chapa governista, é: "Como fará Scioli para governar com um vice que é de Cristina?".

O analista político Jorge Giacobbe afirmou à rádio La Red que a escolha de Zannini é para manter "Scioli sob controle" do kirchnerismo. Em seu discurso de campanha, Scioli citou as "realizações" dos três governos kirchneristas – 2003 a 2015 -, como a geração de empregos, a criação de planos sociais e políticas de direitos humanos "reconhecidas internacionalmente".

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Na última quinta, o jornal La Nación informou na primeira página que "Zannini estreou como candidato que garante o atual modelo (político) e como representante dos Kirchner". No mesmo dia, a presidente discursou em rede nacional de rádio e de televisão acompanhada por Scioli e Zannini e elogiou o candidato a vice.

"Hoje tem uma pessoa aqui que pode me entender, Zannini. Ele nos acompanha desde tempos provinciais (província de Santa Cruz)", disse a presidente. Os apoiadores, com bandeira da agremiação La Cámpora, que tem o filho de Cristina entre os fundadores, aplaudiram.

A presidente citou também o filho. "Uma vez, meu filho Máximo me disse quando entravamos (num lugar de um ato político) que sentia uma força muito grande, uma energia positiva, que nos levantava. Eu senti também. E é o que sinto agora aqui", disse na localidade de Santa Rosa, na província de La Pampa. Ela afirmou ainda que o país ressurgiu após a chegada do kirchnerismo e citou, entre outras medidas, a estatização da Aerolíneas Argentinas.

Seus apoiadores gritaram: "Vamos, vamos Argentina, somos 'soldaditos' (soldadinhos) de Cristina".

Foi a 26ª aparição em rede nacional realizada pela presidente neste ano, de acordo com cálculos da imprensa local. Cristina sugeriu criticar candidatos adversários como o pré-candidato opositor à Presidência Mauricio Macri, prefeito da cidade de Buenos Aires, e principal competidor de Scioli, segundo pesquisas de opinião.

Em seus sites, os jornais locais informaram: "Cristina é contra Macri ao dizer que não se governa com 'chamuyo' (blá, blá, blá, em tradução livre) e globos' (enfeite que caracteriza as festas eleitorais do macrismo).

Para Rosendo Fraga, do Centro de Estudos Nova Maioria, Cristina "aposta em reter o poder para voltar em 2019". As garantia para isso seriam a La Cámpora e Zannini e não Scioli.

"Ela teve que aceitá-lo para ter chance de chegar à Presidência e para que o kirchnerismo ficasse no poder", diz Fraga à BBC Brasil.

Ele lembrou ainda que no seu único discurso, em setembro de 2015, Máximo Kircner disse que, se perdessem a eleição, "entregariam o governo, mas não o poder".



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