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Ele lutava contra o apartheid na África do Sul e hoje ajuda pessoas com marcas deixadas por regimes opressivos

Quando uma carta-bomba foi entregue na casa do padre Michael Lapsley, ela desencadeou também um processo perpétuo de cicatrização. Há 25 anos, a vida do religioso mudou de forma irreparável quando vivia em Harare, no Zimbábue.

Arquivo pessoal
"Se os encontrasse em algum momento eu perguntaria: vocês ainda fabricam cartas-bombas?"

Ele estava na sala de casa, lidando com a correspondência, quando notou que tinha recebido duas revistas religiosas - nada fora do comum.

Uma das revistas era no idioma africâner e a outra, em inglês. Quando ele abriu a revista em inglês, as duas explodiram.

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Com as mãos em chamas e não conseguindo ver ou ouvir nada, ele foi atirado para longe, gritando de dor. Em seguida, mergulhou na escuridão.

As mãos de Lapsley estavam destruídas, ele tinha perdido um olho e os tímpanos foram destroçados. Quando ele chegou ao hospital percebeu a gravidade dos ferimentos e o que tudo aquilo significaria para seu futuro.

"Tinha aceitado que poderia morrer por causa do lado que tinha escolhido, mas não que teria uma grande deficiência", disse.

"Houve um período curto no qual desejei estar morto, nunca tinha conhecido alguém sem as mãos então não pensei que conseguiria ter uma vida ativa de novo."

Cura e força

Padre Michael Lapsley na infância
Arquivo pessoal
Padre Michael Lapsley na infância

Mas, quando deu início ao processo de cura física, Lapsley conseguiu encontrar forças a partir das pessoas que o cercavam.

"Para mim foram as orações, amor e apoio do mundo todo que me ajudaram a tirar algo bom do mal (que aconteceu)", afirmou.

O "mal" que o padre descreve não é apenas o ato dos que enviaram a carta-bomba, mas as razões para o ataque.

Apesar de nunca ter sido confirmado, Lapsley tem certeza de que o pacote foi enviado por pessoas que trabalhavam para o regime segregacionista do apartheid na África do Sul.

O padre tinha se pronunciado a favor do Congresso Nacional Africano (CNA), liderado por Nelson Mandela. O visto de Lapsley, nascido na Nova Zelândia, tinha sido cassado e ele teve que sair do país em 1976.

Ao lado de Nelson Mandela, já com o gancho
Arquivo pessoal
Ao lado de Nelson Mandela, já com o gancho

Depois de uma vida toda de pacifismo, Laspley precisou pensar muito antes de escolher ser partidário do CNA, principalmente devido ao uso de armas pelo movimento.

Mas, quando pessoas foram mortas na Rebelião de Soweto, em 1976, as opiniões teológicas e morais sobre o que é certo e o que é errado foram desafiadas de tal forma que ele desistiu do pacifismo.

"Decidi que, naquele contexto, como um último recurso, as pessoas têm o direito de se defender com armas", disse.

Depois de ser expulso da África do Sul, ele viajou pela região, espalhando a mensagem do CNA até chegar ao Zimbábue, onde estava morando até receber a carta-bomba.

Vinte e cinco anos depois, Lapsley compara a perda das mãos à perda de uma pessoa amada.

"Se alguém próximo de você morre, o luto vai ser uma parte do resto de sua vida. Pode não significar necessariamente que você será esmagado ou consumido pelo luto, mas é uma dimensão do que você é."

Próteses

Lapsley crê na restauração, não na punição
Arquivo pessoal
Lapsley crê na restauração, não na punição


Laspley completa suas atividades cotidianas de uma forma relativamente fácil, usando próteses com ganchos que se transformaram em parte de sua identidade.

"Há 25 anos havia apenas duas opções para próteses: os ganchos ou os braços mais parecidos com o real, que são menos práticos. Então escolhi os ganchos", contou.

Quando se trata da aceitação do que aconteceu, o padre dá crédito à sua forte fé em Deus, que permitiu que ele perdoasse os responsáveis pelo ataque, quem quer que sejam.

"Se eu os encontrasse em algum momento eu perguntaria: o que vocês fazem agora? Vocês ainda fabricam cartas-bombas? Se a resposta for 'não', ou, 'na verdade ajudamos no hospital' ou 'ainda fazemos algo para ajudar os outros', então, eu os perdoaria alegremente."

Lapsley acredita mais na justiça restaurativa do que na justiça tradicional, punitiva, e ficaria satisfeito até se os responsáveis pelo ataque não fossem punidos.

Por essa razão, ele agora viaja pelo mundo visitando pessoas que ficaram com deficiências, graves cicatrizes, marcas ou problemas causados por regimes repressivos.

O padre realiza seminários e sessões em grupo onde conta a própria história e estimula outras pessoas a fazer o mesmo. Ele acredita que, ao falar sobre um evento traumático, a pessoa pode ser curada.

"Quando as pessoas contam as próprias histórias e quando elas ouvem e são reconhecidas em um espaço aberto, isto ajuda no processo de cura. E quando as pessoas deficientes veem outras pessoas deficientes fazendo isto, então elas se sentem com mais poder", disse.

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