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Nete domingo, o papa vai "venerar" tecido, que para alguns envolveu corpo de Jesus e, para outros, é artefato produzido

No domingo, o papa Francisco vai "venerar" o famoso Santo Sudário, que para alguns é o tecido que envolveu o corpo de Jesus Cristo e, para outros, é um artefato produzido durante a Idade Média.

Seja como for, saber como o tecido acabou registrando a imagem de um homem segue sendo um mistério.

O escritor especializado em ciência Philip Ball discute, abaixo, as teorias envolvendo o Santo Sudário:

No domingo, o papa Francisco vai
Reprodução/BBC
No domingo, o papa Francisco vai "venerar" o famoso Santo Sudário

Em um comunicado cauteloso, o arcebispo de Turim disse que o papa “confirma sua devoção ao sudário que milhões de peregrinos reconhecem como um sinal do mistério que envolve a paixão e a morte de Cristo”.

É possível notar que ele não mencionou nada sobre sua autenticidade. A Igreja Católica não assume uma posição oficial sobre isso, afirmando apenas que é uma questão para ser investigada cientificamente.

Desde que um teste com carbono-14, feito em 1989, afirmou que a peça teria cerca de 700 anos, a Igreja tem evitado dizer muito além de que o tecido é um ícone da devoção cristã.

Mas apesar da disputa sobre sua idade, os enigmas sobre o objeto vão muito além. Um amplo estudo feito em 1978 por uma equipe de especialistas internacionais – no projeto que ficou conhecido como Sturp (sigla para Shroud of Turin Research Project) não chegou a uma conclusão sobre como o tecido carrega a impressão de um homem barbado aparentemente com ferimentos de crucificação.

Não faltam hipóteses.

Alguns sugerem que a imagem no tecido passou por um processo natural, outros afirmam que é obra de falsificadores medievais e há ainda que defenda que está relacionado à ressurreição.

Mas essas hipóteses têm algum mérito? Conheça as principais teorias a respeito do misterioso tecido:

1. É uma pintura

Se isso for verdade, análises químicas poderiam identificar os pigmentos usados, assim como restauradores fazem com pinturas clássicas. Mas a equipe do Sturp não encontrou evidências de nenhum pigmento ou de corante suficiente para explicar a imagem. Eles também não encontraram sinais de pinceladas.

Na verdade, a imagem no tecido de linho é difícil de se ver a olho nu. Ela não foi identificada até 1898, quando ficou evidente no negativo da foto tirada pelo fotógrafo italiano Secondo Pia.

A leve coloração do linho não é causada por alguma substância aplicada no tecido. Na verdade, é o próprio material das fibras que acabaram escurecendo.

E, ao contrário dos principais métodos de pintura e tingimento, a coloração no tecido não pode ser dissolvida, descolorida ou alterada com agentes químicos.

A equipe do Sturp afirmou que a imagem é a forma real de um homem “em sofrimento e crucificado... e não a produção de um artista”.

Os pesquisadores afirmaram que há gotas de sangue genuínas no tecido, inclusive com o tipo sanguíneo (AB). Também haveria traços de DNA humano.

Mas isso não impediu que o americano Walter McCrone, que é consultor na área de química e havia colaborado com o Sturp, afirmasse que as manchas vermelhas não eram sangue, e sim minúsculas partículas de um pigmento vermelho ou ocre.

Assim como qualquer outro tipo de teoria sobre o sudário, a versão de McCrone é contestada e, atualmente, poucos a levam em consideração.

Há ainda a teoria de que a imagem teria sido feita a partir de um imagem de uma estátua em baixo relevo. Mas análises físicas e químicas da imagem não sustentam essa ideia.

2. É resultado de um processo natural

Se a impressão no tecido foi feita pelo escurecimento de suas fibras, o que levou a esse processo? Um dos especialistas que analisou o sudário, Raymond Rogers, argumentou em 2002 que uma simples transformação química seria responsável pelo processo.

Peregrinos fazem fila para ver o sudário em Turim
AP
Peregrinos fazem fila para ver o sudário em Turim

Segundo ele, até mesmo temperaturas moderadas de um corpo podem descolorir os compostos que formam as fibras de algodão de um tecido

Essa é uma ideia simples, mas há poucas evidências para se provar isso nessas circunstância particular. Não é algo que acontece sempre em mortalhas funerárias.

Outra ideia é a de que a descoloração das fibras foi causada por uma reação química provocada por substâncias corporais.

3. É uma fotografia

A foto de Pia mostrou que a imagem no pano era negativa: escura onde deveria ser clara. Isso aprofundou o mistério e o próprio Pia sugeriu que o sudário poderia ser um tipo primitivo de fotografia.

Essa ideia é apoiada pelo historiador sul-africano Nicholas Allen, que afirma que isso poderia ter sido conseguido ao se usar materiais e conhecimentos que estavam ao alcance de eruditos medievais, muitos antes da fotografia ter sido oficialmente inventada.

O que está por trás dessa ideia é o composto químico nitrato de prata, presente nas emulsões usadas no processo fotográfico no século 19.

Alguns defendem que o sudário é uma espécie de fotografia primitiva, que pode ter sido feita na Idade Média
Reprodução/BBC
Alguns defendem que o sudário é uma espécie de fotografia primitiva, que pode ter sido feita na Idade Média

O nitrato de prata de fato é conhecido desde a Idade Média, segundo Allen. Ela afirma que o composto foi citados em obras do século 8 e do século 13.

Ele pode ter sido usado no pano em uma sala escura e depois exposto à luz do sol por meio de uma lente feita de quartzo, já que a prata escurece com raios ultravioletas, que o vidro absorve, mas o quartzo, não.

Allen fez réplicas do sudário usando essa teoria. Mas a maneira como a imagem fica no pano quando a prata é removida e o modo que falsificadores medievais trabalhavam na época trazem problemas à teoria.

Assim como várias dúvidas sobre a forma exata e o contraste da imagem se ela tivesse sido feita dessa maneira. Por isso, muitos consideram a ideia de Allen mais ingênua do que plausível.

4. É resultado de algum tipo de liberação de energia

De acordo com um grupo de cientistas chamado Yahoo Shroud Science Group, a hipótese envolvendo a ressurreição de Jesus não pode ser descartada.

“Hipóteses ligadas a uma fonte de energia vinda de um Homem envolto em algo e outros correlacionados a descargas eletrostáticas causadas por um campo elétrico”, diz o grupo.

Visto que essa hipótese parece evocar processos desconhecidos da ciência, que presumidamente ocorreriam durante o retorno da morte, é tecnicamente certo dizer que a ciência não pode refutá-la nem, na verdade, dizer muito sobre ela.

Grupo de pesquisadores não rejeita a possibilidade de ressurreição de Jesus ter criado o sudário
Reprodução/BBC
Grupo de pesquisadores não rejeita a possibilidade de ressurreição de Jesus ter criado o sudário

Mas isso não impediu alguns cientistas de opinar. O químico Giulio Fanti, da Universidade de Pádua, propôs que as camadas superiores do tecido teriam sido queimadas por uma explosão de “energia radiante” que partiu do próprio corpo.

Ele cita o episódio bíblico da Transfiguração de Cristo e cita Lucas 9:29: “Enquanto orava, a aparência do seu rosto foi se transformando e suas roupas ficaram alvas e resplandeceram como o brilho de um relâmpago.

Isso, se falado de uma maneira educada, é uma evidência bem circunstancial. Mas Fanti sugere que se deveria ao menos testar se fontes artificiais desse tipo de radiação podem produzir um resultado similar no linho.