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Um vereador disse que Talha Asmal não era diferente de outros adolescentes e que a cidade está "arrasada"

Família e conhecidos descrevem adolescente como 'gentil' e 'inocente' e dizem que ele não mostrava sinais de radicalização; pais acreditam que ele foi 'aliciado' pela internet.

Líderes comunitários de Dewsbury, no condado de West Yorkshire, na Inglaterra, cidade natal de um adolescente tido com o mais novo britânico a participar de um atentado suicida a bomba, se disseram chocados com o ataque.

O vereador de Dewsbury Masood Ahmed disse que Talha Asmal, de 17 anos, não era diferente de outros adolescentes e que a cidade está "arrasada".

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Acredita-se que Asmal tenha se tornado o mais novo homem-bomba britânico, ao cometer um ataque em uma refinaria ao sul de Baiji, no Iraque. Ele era um dos quatro homens-bomba que realizaram os ataques que mataram ao menos 11 pessoas na cidade ao norte de Bagdá no sábado.

O 'Estado Islâmico' postou no Twitter fotos de Talha Asmal se preparando para o ataque suicida
Reprodução
O 'Estado Islâmico' postou no Twitter fotos de Talha Asmal se preparando para o ataque suicida

Até então, o mais novo homem-bomba britânico era Hasib Hussein, da mesma cidade, que aos 18 anos se explodiu em um ônibus como parte dos atentados terroristas de 7 de julho de 2005 realizados no sistema de transporte público em Londres.

A família de Asmal disse que ele foi aliciado na internet, descrevendo o ocorrido como "uma tragédia".

Informações nas redes sociais ligadas ao grupo autodenominado "Estado Islâmico" dizem que Asmal, usando o nome Abu Yusuf al-Britani, participou do ataque de sábado.

"A comunidade está arrasada e chocada com as notícias", disse Ahmed, que é do Partido Trabalhista.

À rádio BBC 5, ele disse que "não havia sinais" de que Asmal havia sido aliciado por extremistas online - como sua família acredita que tenha ocorrido.

"Ele não era diferente de nenhum adolescente em termos de ser amoroso, cuidadoso, ingênuo e inocente. Ele adorava esportes e estava indo OK na escola", disse Ahmed.

Lorraine Barker, diretora executiva da escola em que Asmal estudava, disse ao jornal Times que ele era "muito quieto e reservado".

"Ele não chamava nenhuma atenção para ele mesmo, era só um aluno meticuloso", disse.

Ela disse que funcionários e alunos ficaram "completamente em choque" quando ele viajou para o Oriente Médio.

Em um comunicado divulgado no domingo, a família disse que ele era "um adolescente amoroso, gentil, afetuoso e afável".

"Ele nunca nutriu nenhum sentimento ruim contra alguém nem demostrou qualquer tipo de visão violenta, extremista ou radical", disseram. 

"A idade tenra e a ingenuidade de Talha aparentemente foram exploradas por pessoas desconhecidas que, se escondendo atrás da anonimidade da internet, ficaram seus amigos e se engajaram em um processo calculado e deliberado para atrai-lo."

"Estamos todos, naturalmente, profundamente arrasados e com o coração partido pela tragédia que parece ter se abatido sobre nós."

Para Tom Symond, analista da BBC para Assuntos Internos, o fluxo de jovens homens e mulheres britânicos para zonas de guerra na Síria e no Iraque continua a ser o maior desafio do esforço contraterrorista britânico.

Autoridades estimam que mais de 700 cidadãos britânicos tenham feito o trajeto, alguns adotando o nome de "al-Britani" para representar suas origens. Metade voltou para o Reino Unido, e, segundo Symond, são vistos como potencial risco à segurança do país.

Um levantamento feito pela BBC indica que mais de 30 jovens britânicos ainda estejam em zonas de guerra - o número que pode chegar a 50.

Mas a pesquisa indica que um terço é desconhecido da polícia e dos serviços de segurança, o que torna seu trabalho de mapear extremistas e priorizar aqueles que representam riscos maiores muito mais difícil.

'Não são vítimas'

Shahid Malik, ex-parlamentar e amigo da família de Asmal, disse que foi "perturbador" ver como Talha parecia relaxado nas fotos que o "Estado Islâmico" afirma terem sido tiradas logo antes de sua missão suicida.

"Ele parecia em paz. Parece que está pronto para ir e encontrar o criador. É uma indicação clara do sucesso que aliciadores do 'Estado Islâmico' têm tido em envenenar e fazer lavagem cerebral em Talha e garotos como ele", disse.

Malik comparou o caso de Asmal - e outros semelhantes - ao de vítimas de abuso sexual.

"Muitas vezes os pais não têm ideia do que está acontecendo e os próprios meninos não se veem como vítimas - e mesmo a sociedade não os vê assim."

"Eu conheço a família. São amantes da paz, uma família linda - não fariam mal a uma mosca."

"Eles estão completamente consternados e arrasados. O mundo deles foi despedaçado além do compreensível."

Pelo menos 700 britânicos viajaram para se unir a extremistas no Oriente Médio
Reprodução
Pelo menos 700 britânicos viajaram para se unir a extremistas no Oriente Médio

Ele acrescentou que o caso de Asmal pode servir de alerta.

"As mesquitas precisam confrontar essa ideologia do mal de frente. Os jovens precisam ser ensinados sobre o que é aceitável e o que não é a respeito da ideologia do 'Estado Islâmico'".

'Pregadores do ódio'

O "Estado Islâmico" capturou grandes faixas de território no leste da Síria e no norte e oeste do Iraque.

Pelo menos 700 pessoas do Reino Unido viajaram para apoiar e lutar com organizações jihadistas da área - a maioria se uniu aos "Estado Islâmico".

Asmal viajou para a Síria com outro adolescente de sua região, Hassan Munshi.

Em um pronunciamento, o Ministério do Interior disse: "Desde 2011, treinamos mais de 160 mil pessoas trabalhando na linha de frente do nosso setor público para identificar e prevenir extremismo, detivemos cerca de 100 pregadores do ódio - mais do que qualquer governo - e, com sucesso, tiramos do ar mais de 90 mil páginas relacionados a terrorismo da internet."

"Também removemos ou recusamos 30 passaportes em 2013 e 2014 em casos de pessoas que foram consideradas em risco de viajar para a Síria ou Iraque."

 Os adolescentes Hassan Munshi e Talha Asmal (à esquerda) saíram do Reino Unido em 31 de março
Reprodução/BBC
Os adolescentes Hassan Munshi e Talha Asmal (à esquerda) saíram do Reino Unido em 31 de março

Britânicos envolvidos com terrorismo no exterior

- Abdul Waheed Majid, de Crawley, em West Sussex, foi o primeiro britânico a fazer um ataque suicida, em Alepo, na Síria, em fevereiro de 2014

- Ibrahim al-Mazwagi, de 21 anos, foi supostamente o primeiro britânico morto lutando na Síria. O estudante da Universidade de Hertfordshire foi baleado e morreu em fevereiro de 2013

- Abdullah Deghayes viajou para a Síria com seu irmão de 16 anos em janeiro de 2014. Ele foi morto três meses depois, logo após completar 18 anos

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