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Lei nazista proibia alunos de origem judaica de fazer exames acadêmicos; universidade reparou injustiça feita há 77 anos

Uma alemã de 102 anos se torna nesta terça-feira a pessoa mais velha do mundo a receber um doutorado, quase 80 anos depois de o regime nazista tê-la impedido de prestar o último exame.

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Por ser filha de uma pianista judia, Ingeborg foi impedida de prestar seu último exame
Reuters
Por ser filha de uma pianista judia, Ingeborg foi impedida de prestar seu último exame

Filha de uma pianista judia, Ingeborg Rapoport (na época, Ingeborg Syllm) terminou seus estudos em medicina na Universidade de Hamburgo em 1937 e escreveu sua tese sobre a difteria, doença que então era um sério problema na Alemanha.

Mas, por causa das leis de discriminação religiosa e racial do governo de Adolf Hitler, Ingeborg teve negado o direito de fazer a prova oral final. A universidade, inclusive, informou por carta que ela teria recebido o doutorado "se a legislação não a proibisse de fazer a prova por causa de sua origem".

No entanto, a instituição acadêmica resolveu revisitar o caso.

No mês passado, três professores da Faculdade de Medicina da Universidade de Hamburgo sentaram-se na sala do apartamento de Ingeborg em Berlim para sabatiná-la sobre o trabalho de pesquisa realizado há oito décadas. Ficaram impressionados com a lucidez da doutoranda.

"Não quis defender minha tese apenas em meu benefício. Era uma questão de princípios. Fiz tudo isso pensando nas vítimas (dos nazistas)", disse a alemã ao jornal Der Tagesspiegel.

Ingeborg fez questão de estudar para o último exame e pediu ajuda a amigos para pesquisar online a evolução nas pesquisas sobre a difteria nos últimos 80 anos.

"A universidade queria corrigir uma injustiça. Os examinadores foram muito pacientes comigo e sou grata por isso".

Em 1938, quando a Alemanha se tornou um local extremamente perigoso para judeus, Ingeborg fugiu para os Estados Unidos, onde voltou para a universidade e conseguiu a qualificação. Foi no exílio que conheceu o marido, o bioquímico Samuel Mitja Rapoport, refugiado judeu nascido em Viena.

Na década de 50, porém, a alemã mais uma vez se viu em apuros com as autoridades: as opiniões de esquerda dela e do marido as puseram em rota de colisão com a onda de patrulhamento ideológico e perseguição política conhecido como macartismo. Fugiram mais uma vez - de volta para a Alemanha. Só que para a Oriental, sob regime comunista.

Lá, Ingeborg trabalhou como pediatra e deu aulas na universidade, recebendo ainda um prêmio por ter ajudado a reduzir drasticamente a mortalidade infantil na Alemanha Oriental.

Aos 102 anos, ela agora conquista também o doutorado que os nazistas "roubaram" em 1937.

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