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Sluys, que após desastre de 2009 auxiliou fundação de grupo que ajuda parentes de vítimas de acidentes aéreos, vai à Malásia

O desaparecimento do voo 370 da Malaysia Airlines despertou lembranças que Maarten Van Sluys pensou ter superado em 2011, quando grande parte dos destroços do voo 447 da Air France foi localizada quase dois anos após a queda do avião que matou sua irmã, Adriana Francisca Van Sluys, de 40 anos, e outras 227 pessoas.

Premiê da Malásia: Avião caiu no sul do Índico e não há sobreviventes

Maarten Sluys com Adriana Francisca Van Sluys, à dir., uma das vítimas do acidente da Air France de 2009, e suas outras irmãs
Arquivo pessoal
Maarten Sluys com Adriana Francisca Van Sluys, à dir., uma das vítimas do acidente da Air France de 2009, e suas outras irmãs


Galeria de fotos: Saiba quais são os desastres aéreos mais misteriosos do mundo

“Esse desastre fez reabrir todas as feridas que eu pensei já terem sido cicatrizadas. O tempo não apaga tudo, infelizmente. A dor é inevitável”, disse ao iG .

Na época do desastre com o Airbus da empresa francesa - que caiu no Atlântico no trecho Rio-Paris em 2009 -, Sluys e outros 17 familiares que perderam seus entes queridos na tragédia fundaram a Associação das Famílias das Vítimas do Voo 447 (AFVV447). Hoje, a entidade tem 46 membros e se dedica a auxiliar os parentes de vítimas de diversos desastres aéreos.

É essa experiência que ele pretende passar às famílias das 239 pessoas a bordo do avião malaio a partir de domingo (30), quando deve desembarcar em Kuala Lampur, Malásia, e onde pretende ficar até sábado de 5 de abril.

“Quero passar às famílias não apenas informações sobre seus direitos legais, e como elas podem garanti-los, mas também o apoio de alguém que entende perfeitamente sua dor e que vai ajudá-las a superar esse momento tão difícil”, afirmou.

Na mala, o sócio-fundador da AFVV 447 levará materiais em inglês com cartilhas de orientação jurídica - deveres e direitos das famílias dos passageiros - e médica, explicações detalhadas sobre como a associação foi criada no Brasil e a importância da criação dessas entidades durante as investigações de um desastre aéreo. 

“Quando há pessoas isoladas, gritando e reclamando em guichês, pedindo uma investigação mais clara e detalhada após um acidente aéreo, elas são consideradas descontroladas. Agora, quando há uma entidade, com CNPJ, exigindo seus direitos às companhias aéreas, elas passam a te respeitar”, explicou.

Veja o drama das famílias dos passageiros do voo malaio:

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De acordo com Sluys, no caso da Air France, a formação da entidade foi fundamental para que o grupo participasse de todas as reuniões organizadas pela companhia aérea dentro e fora do Brasil, além de acompanhar de perto as buscas pelos destroços do avião, entre outras ações.

"Não se pode esquecer que as famílias lidam com empresas com um preparo enorme para atuar com esse tipo de situação.”

Para ele, o direito fundamental para as famílias neste momento é a garantia de apoio psicológico permanente. “O impacto dessa notícia para eles [familiares] é muito grande. É preciso que a companhia aérea ofereça esse apoio psicológico agora, quando a mídia internacional está em cima do caso, com condições de mantê-lo por um longo período de tempo", afirmou.

Ao comparar as duas catastrofes aéreas, Sluys diz que, se tecnicamente os desastres foram diferentes, na prática a perda das famílias faz parte de um mesmo problema: a falta de segurança nos voos mundiais.

Investigação: Desaparecimento de avião foi proposital, diz premiê da Malásia

Maarten Sluys e Nelson Faria Marinho, ambos da AFVV 447, com faixa em francês que diz 'Em busca da verdade' em frente a catedral de Notre Dame, em Paris, França
Arquivo pessoal
Maarten Sluys e Nelson Faria Marinho, ambos da AFVV 447, com faixa em francês que diz 'Em busca da verdade' em frente a catedral de Notre Dame, em Paris, França


Investigação: Área de buscas é uma das mais isoladas do planeta

"A aviação não aprendeu nada com os erros cometidos pela Air France, TAM [em julho de 2007, o voo JJ 3054 caiu em Congonhas, São Paulo, deixando 187 mortos] e outras empresas. Como é que ninguém percebeu que um Boeing saiu de sua rota e seguiu pela direção contrária por quase sete horas? Ainda há muitas lacunas na questão da segurança da aviação mundial. Ainda somos impotentes diante disso”, disse.

Entre as diferenças técnicas entre os dois voos está a comunicação por meio de mensagens automáticas ACARS. O voo 447 da Air France informou anormalidades a bordo por meio desse sistema antes de cair no oceano. Já o Boeing 777 malaio teve sua comunicação desativada na própria cabine do avião antes de desaparecer dos radares.

Ainda não há evidências físicas da queda do voo da Malaysia Airlines, desaparecido desde o último dia 8. Mas, na última segunda-feira (24), o premiê da Malásia, Najib Razak, anunciou que o voo MH370 caiu no Oceano Índico a oeste da cidade australiana de Perth após nova análise de dados de satélite feita por investigadores britânicos.

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