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Família de americano não quis mais vir aos Jogos com medo do zika vírus, e, quando tentava vender as entradas, policiais o confundiram com cambista

Depois de ser detido por policiais, o americano Douglas McLean escreveu um alerta:
Fernanda Odilla/BBC Brasil
Depois de ser detido por policiais, o americano Douglas McLean escreveu um alerta: "não (sou) cambista"

O americano Douglas McLean, de 45 anos, diz não saber o que fazer com tantos ingressos extras dos Jogos do Rio. Na manhã desta terça-feira, doou um par de ingressos para um casal que estava ao seu lado no metrô a caminho da Barra da Tijuca e improvisou um anúncio oferencendo entradas.

Mas fez questão de ressaltar que vendia pelo mesmo valor ou até mais barato. O texto vinha acompanhado de um "não cambista". Tamanha cautela tem uma razão. Na tarde de segunda-feira, McLean foi detido em Copacabana, na porta da arena do vôlei de praia.

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Ele diz que tentava vender dois ingressos por um valor menor do que os comprou quando foi abordado por dois policiais à paisana. Primeiro, achou que se tratava de um assalto e chegou a chamar policiais militares para ajudá-lo. Não adiantou - foi levado para uma unidade policial.

"Me assustei. A abordagem foi muito agressiva. Eles se irritaram porque não acreditei que eram da polícia", relatou à BBC Brasil na manhã desta terça, enquanto se deslocava até o Parque Olímpico.

Americano continua vendendo seus ingressos - e agora, com aval de juíza
Fernanda Odilla/BBC Brasil
Americano continua vendendo seus ingressos - e agora, com aval de juíza

O americano conta que passou seis horas tentando explicar por que tinha tantos ingressos. Foi assistido por um defensor público e sentou em frente a uma juíza. Disse que sua esposa e os filhos desistiram de assistir aos eventos com medo da epidemia de zika.

Evidências

Mas o que salvou McLean mesmo foi uma reportagem de jornal, apontam ele e a decisão da juíza que lhe eximiu de qualquer tipo de punição. Ele tinha ido a Brasília assistir ao jogo de futebol feminino entre os EUA e a Suécia. Lá, deu entrevista ao Correio Braziliense relatando exatamente o receio da família em relação ao zika.

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Além das declarações, teve sua foto publicada - e isso se transformou na melhor prova de que saiu do Texas para curtir os Jogos do Rio, e não para faturar como cambista.

"A juíza disse que essa era a melhor evidência que alguém poderia apresentar. Me falou ainda que eu poderia vender meus ingressos, desde que fosse a um valor igual ou menor ao que paguei", disse o americano, enquanto tentava vender alguns de seus ingressos extra ainda no BRT (ônibus rápido) nesta terça.

Para a sorte dele, tinha tirado, com o celular, uma foto da reportagem publicada. "Tiro foto de tudo", diz McLean.

Americano mostrou foto sua em jornal, e isso colaborou para sua liberação
Fernanda Odilla/BBC Brasil
Americano mostrou foto sua em jornal, e isso colaborou para sua liberação


"Herói da minha noite"

Uma das fotos que o americano faz questão de mostrar é a do defensor público Paulo Vinicius Cozzolino. "Ele foi o herói da minha noite. Falava inglês e me defendeu bem. Falo mal português, mas vi que ele se empenhou diante da juíza", relata McLean, que foi liberado sem receber nenhum tipo de punição.

Cozzolino explica que a estratégia adotada pelo americano – de revender ingressos pelo mesmo preço ou mais barato – não é crime, "pois não se enquadra como prática reiterada com a finalidade de lucro. O problema é que muita das vezes é a palavra do agente policial contra a do turista".

O defensor diz à BBC Brasil, por e-mail, que ele e seus colegas estão indo de forma voluntária às arenas olímpicas, para atender o público que tenha problemas parecidos (ou não) ao de McLean.

"A impressão, realmente, é que o maior número de casos está ligado à prática de cambismo, muitas vezes qualificado assim de forma equivocada pelos agentes policiais. Há casos, no entanto, de toda ordem. Desde problemas relacionados à defesa do consumidor, referente a ingressos com problemas, em que estão sendo feito acordos com os responsáveis pela organização dos Jogos, até os relacionados à defesa criminal", explica Cozzolino.

McLean conta que, além dele, outro turista estrangeiro foi levado para a mesma unidade policial. "O canadense me disse que chegaram a mostrar uma arma para ele."

Na manhã desta terça, o americano lamentava o fato de ter perdido o jogo de vôlei de praia entre EUA e Brasil e de ter passado aperto na delegacia. E, apesar da assistência do defensor público, dizia estar decepcionado com a polícia.

"Agora estou com medo dos ladrões, da polícia, da zika e do terrorismo", disse antes de subir pela passarela que leva ao Parque Olímpico na Barra erguendo sua plaquinha na qual oferecia seus ingressos extras.

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