Tamanho do texto

Arquipélago no Pacífico viu número de casos de microcefalia em fetos crescer até 17 vezes após epidemia do zika vírus

BBC

A cientista Van-Mai Cao-Lormeau coordena pesquisas sobre zika no arquipélago do Pacífico
ILM
A cientista Van-Mai Cao-Lormeau coordena pesquisas sobre zika no arquipélago do Pacífico

Quando o Brasil alertou o mundo sobre a explosão de casos de microcefalia, autoridades de saúde de um remoto conjunto de ilhas paradisíacas situadas no meio do oceano Pacífico correram para revirar seus arquivos.

A Polinésia Francesa teve uma epidemia de zika vírus entre outubro de 2013 e abril de 2014. Oficialmente, 32 mil habitantes do arquipélago reportaram os sintomas da doença – mas pesquisas realizadas por cientistas locais indicam que o número de infectados foi bem maior.

Na época, o surto foi visto como uma "dengue suave", que passou sem deixar rastros graves. Mas, ao analisar os dados do período posterior à epidemia, o território notou um aumento considerável nos casos de malformação no sistema nervoso central de fetos e recém-nascidos: de uma ocorrência por ano, em média, para ao menos 17 após a passagem do zika.

Leia também: Ex-ministro da Saúde apoiará pedido de aborto legal por microcefalia no STF

Entre os casos, cinco eram de recém-nascidos que apresentavam dificuldades para engolir. Já os outros 12 envolviam malformações graves: microcefalia, destruição da estrutura cerebral, hipoplasia cerebelar (cerebelo menor), ausência do corpo caloso (que conecta as partes direita e esquerda do cérebro) e dilatação grave de ventrículos cerebrais. Em nove dessas ocorrências as gestantes optaram pelo aborto, legal no arquipélago.

Como pertence à França, o território segue as leis do país europeu, onde a interrupção da gravidez é permitida por livre opção da mulher até as 12 semanas de gestação e, depois disso, nas situações em que há malformação do feto ou ameaça à saúde da mãe. No Brasil, o aborto é legal apenas em casos de estupro, risco à vida da mulher e quando o feto é anencéfalo (não tem parte do cérebro). 

O número de malformações identificadas na Polinésia Francesa parece pequeno, mas não é quando analisado proporcionalmente: além de apresentar um grande salto em relação aos dados registrados nos períodos anteriores, a Polinésia Francesa tem apenas 270 mil habitantes – população similar à de cidades brasileiras como Gravataí (RS) e Governador Valadares (MG), por exemplo.

Análise difícil
As investigações hoje em curso nas ilhas francesas tentam descobrir se essas gestantes haviam sido infectadas pelo zika vírus. Nenhuma delas tinha apresentado os sintomas da doença. Não se trata, porém, de uma tarefa simples.

"É difícil porque esses casos foram reportados retrospectivamente. Apenas algumas amostras de sangue das mulheres estavam disponíveis, e algum líquido amniótico", explica a cientista Van-Mai Cao-Lormeau, líder da equipe que investiga os arbovírus (grupo de vírus transmitidos ao homem por insetos como os mosquitos) no Instituto Louis Malardé, ligado ao governo polinésio francês.

Quatro das mulheres apresentaram anticorpos contra flavivírus, família da qual o zika vírus faz parte, mas também dengue, doença que passa em surtos periódicos pelo arquipélago há pelo menos 70 anos.

Leia também: Zika pode ser transmitido pelo sexo? Os três casos que intrigam cientistas

Mapa explica como o zika vírus se espalhou desde a descoberta em 1947, em Uganda
BBC
Mapa explica como o zika vírus se espalhou desde a descoberta em 1947, em Uganda

Além disso, as autoridades locais não conseguem precisar quantos dos casos de malformação eram de microcefalia, já que, na época, não havia suspeitas de relação entre o zika vírus, que nunca havia sido identificado por ali antes, e os problemas apresentados pelos fetos.

"O que aconteceu é que, após a interrupção médica (das gestações), não houve investigação nos fetos que pudesse confirmar qual tipo de malformação ocorreu", acrescentou Cao-Lormeau, que participou de vários estudos sobre vírus como o da dengue, também transmitido pelo mosquito Aedes aegypti.

Nos testes atuais, amostras de sangue das mulheres que tiveram fetos ou bebês com malformações são expostas ao vírus da zika. A reação mostra se a mulher tem anticorpos – nesse caso, sabe-se que ela foi infectada por zika em algum momento no passado.

Surto
O zika não era propriamente um desconhecido dos cientistas do Instituto Louis Malardé, que testavam amostras vindas da longínqua ilha micronésia de Yap, palco de um surto em 2007. Eles já tinham, inclusive, implementado em seu laboratório um teste para identificar o vírus.

Segundo Cao-Lormeau, resultados preliminares de um estudo realizado pelo instituto apontam que mais de 50% da população da Polinésia Francesa hoje têm anticorpos contra o vírus, ou seja, bem mais do que as 32 mil pessoas que procuraram os serviços de saúde com os sintomas da doença – febre baixa ou média, manchas avermelhadas e coceira no corpo.

Isso significa que essas pessoas foram infectadas durante o surto e desenvolveram defesa natural, segundo os cientistas.

Leia também: 'Aborto já é livre no Brasil. Proibir é punir quem não tem dinheiro', diz Drauzio Varella

Outras conclusões obtidas na Polinésia Francesa guardam semelhanças com o que ocorre agora no Brasil. Lá, como aqui, dispararam as notificações de casos de Síndrome de Guillain-Barré, uma rara doença neurológica que causa paralisia e pode ser provocada por diversos vírus e bactérias, incluindo o zika e a dengue.

Cao-Lormeau afirma que foram 42 casos no período do surto, 20 vezes a mais do que o registrado anteriormente. A cientista não descarta a possibilidade de surgirem subtipos do zika, a exemplo do que ocorre com o da dengue, permitindo que a doença volte a acometer uma mesma pessoa mais de uma vez.

Mas diz que, ao menos por enquanto, os exames que determinaram o DNA das amostras coletadas na América Latina mostram que elas são da mesma linhagem do vírus que circulou pelo arquipélago francês e em outras regiões do Pacífico.

Um outro pesquisador do Instituto Louis Malardé afirma que o surto de zika no Brasil pode ter sido introduzido por viajantes de ilhas do Pacífico.

Em artigo publicado no National Centre for Biotechnology Information, nos EUA, o pesquisador Didier Musso sugere que o vírus pode ter sido transmitido por competidores do Mundial de Canoagem Va'a realizado no Rio de Janeiro em agosto de 2014.

"Quatro nações do Pacífico (Polinésia Francesa, Nova Caledônia, Ilhas Cook e Ilhas da Páscoa) em que o vírus circulou em 2014 tiveram equipes que participaram do torneio em várias categorias", diz o estudo. Cao-Loermeau afirma, entretanto, ser difícil saber se aquele que chegou ao Brasil tem mesmo origem nas ilhas.

"Quando a epidemia de zika começou no Brasil, o vírus já tinha circulado em vários países. O surto terminou na Polinésia Francesa em abril de 2014, mas ao mesmo tempo tínhamos o vírus circulando nas Ilhas Cook, em outros países do Pacífico e também na Ásia."