Com libertação de presos políticos, Cuba esvazia oposição interna

Movimento Cristão de Libertação e Damas de Branco perdem integrantes com o compulsório envio dos dissidentes à Espanha

Leda Balbino, enviada a Havana, Cuba | 19/10/2010 08:01

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Ao realizar em julho um acordo com a Igreja Católica e a Espanha para libertar 52 presos políticos, Cuba alcançou dois objetivos de uma só vez. Com o anúncio da maior libertação em massa em décadas na Ilha, diminuiu a pressão internacional desde a morte em fevereiro do prisioneiro Orlando Zapata, após uma greve de fome de 85 dias pela qual exigia melhores condições prisionais. Segundo, esvaziou internamente o movimento de oposição, condicionando a libertação ao compulsório envio dos dissidentes à capital espanhola, Madri.

“O governo cubano é hábil, no pior sentido do termo. Enquanto emite falsos sinais de mudança à Europa e aos EUA, livra-se do peso dos presos de consciência, que no desterro são desativados em termos de política interna”, afirmou o ativista dos direitos humanos Elizardo Sánchez, fundador da Comissão de Direitos Humanos Cubanos e de Reconciliação Nacional.

Dos 52 detentos, que faziam parte dos opositores ainda reclusos do grupo de 75 dissidentes presos na repressão da Primavera Negra de 2003, 39 estão na Espanha após concordar em deixar Cuba com parte de sua família.

Como muitos dos presos desencarcerados faziam parte do Movimento Cristão de Libertação, que impulsionou em 2002 o Projeto Varela para dar soberania ao povo cubano, esse grupo foi prejudicado. “O movimento é pequeno, porque muitos tiveram de ir ao exílio, enquanto sua direção é composta quase totalmente pelos que estão sendo deportados”, disse seu líder Oswaldo Payá, considerado o principal dissidente político de Cuba.

Outra organização enfraquecida foi a das Damas de Branco, criada em 2003 exatamente para reivindicar a libertação dos 75 presos da Primavera Negra. Como parentes dos prisioneiros soltos os acompanham na ida ao exterior, o grupo perdeu vários membros desde julho. “Éramos 180 e agora somos cerca de 90”, disse a líder das Damas de Branco, Laura Pollán.

Mas um empecilho vem se impondo perante o governo cubano, que prometeu concluir as libertações em novembro. Dos 13 que continuam presos, 12 não aceitam ir à Espanha. O marido de Laura, Héctor Maseda, de 67 anos e sentenciado a 20 anos, é um dos que rejeitam a proposta.

Segundo a líder das Damas de Branco, o marido gostaria de ter um tempo em Cuba antes de decidir se viaja para os EUA para ficar perto de sua filha mais jovem. “Ao serem libertados, os presos não podem passar em casa para se despedir de suas famílias. É direto da prisão para o aeroporto. E Héctor não quer que sua partida seja uma imposição do governo”, afirmou.

Para os que rejeitam o que Laura chama de “desterro”, o governo vem oferecendo a chamada “licença extra penal”, que em Cuba é concedida normalmente aos presos doentes e, no Brasil, equivaleria à prisão domiciliar. De acordo com o site Cubaencuentro, cinco presos com graves problemas de saúde teriam aceitado essa opção. “Héctor rejeitou ao extra penal porque continuaria sem liberdade. Prefere ficar no presídio para que o mundo não esqueça que ele continua preso”, disse Laura.

Em talvez um indício de que Cuba planeja cumprir a cota de 52 libertações prometidas até novembro, a Igreja Católica disse em 10 de outubro que três presos fora do grupo inicial previsto aceitaram o exílio na Espanha. O anúncio foi precedido pela informação de Sánchez de que outros nove prisioneiros – muitos dos quais foram condenados por crimes violentos – recentemente se reuniram com autoridades do Ministério do Interior para discutir sua liberdade no exílio.

Reforço para as Damas de Branco

Para manter seu movimento de pé apesar da eventual partida de mais integrantes, a líder das Damas de Branco indicou que familiares de outros presos políticos pacíficos, fora do grupo dos 75, podem se unir ao grupo mais para frente. “Ainda não iniciamos essa incorporação para o governo não interpretar como um desafio”, disse.

Na casa localizada em Centro Havana, onde qualquer um é recebido literalmente com as portas abertas e por cartazes referentes aos 75 da Primavera Negra, Laura consegue reunir 70 pessoas para os encontros do movimento.

Além disso, como há muitas Damas que vêm de outras províncias para as reuniões, Laura pode acomodar até 32 delas para dormir em sua casa ao espalhar no chão colchões que, durante o dia, são armazenados sobre as camas. Outro jeitinho é juntar três cadeiras para que finjam de cama.

Como sua casa é a base das Damas de Branco, Laura sabe da importância de sua presença no país para continuar a luta pelos prisioneiros. “Não posso fechar as portas”, disse. “Assim, mesmo que Héctor viaje ao exterior, ficarei. Se partisse, faria exatamente o que o governo quer”, completou.

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    2 Comentários |

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    • jweiss | 19/10/2010 16:44

      As pessoas em Cuba são muito simpáticas, levam a vida como podem, apesar do regime. Existem visitantes que misturam o modo de ser cubano com as durezas e crueldades do regime. O cubano tem bom humor e age mais ou menos como os soviéticos, nos anos 80, que diziam sorrindo: eles fingem que nos pagam, nós fingimos que trabalhamos.
      Em Cuba o mar é lindo, as praias maravilhosas, mas a miséria é generalizada. São alfabetizados e nem podem ler o que quiserem. E nem podem ir embora. Se forem, não podem voltar. E daqui, as pessoas deslumbradas vão apenas para passear. Morar lá ninguém quer, né mesmo?

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    • Vanderlei | 19/10/2010 15:26

      Em julho de 2009 estive em Havana por uma semana, foi um passeio inesquecivel, com oportunidade de conversar com inúmeras pessoas, sobre o "regime", do qual as pessoas se orgulham muito, mas é hora de mudanças, citou meu amigo cubano Ramsés.

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