Escola com Criança Esperança e Afroreggae é a pior do Rio no Ideb

Projetos sociais, frequentes visitas de presidentes, UPP e PAC não fizeram diferença na educação de Ciep do Cantagalo, em Ipanema

Raphael Gomide, iG Rio de Janeiro | 03/08/2011 07:00

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Foto: Raphael Gomide

Crianças brincam na área de lazer do Ciep e do Criança Esperança (à direita, em painel)

O Complexo Rubem Braga, no Morro do Cantagalo, em Ipanema, abriga o Espaço Criança Esperança, da Rede Globo, o AfroReggae, o projeto Dançando para não Dançar e o Ciep Presidente João Goulart, da Secretaria Municipal de Educação. Já visitaram o local, inúmeras vezes, o prefeito Eduardo Paes, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a presidenta Dilma Rousseff e o governador Sérgio Cabral. A primeira-dama da França, Carla Bruni já esteve no complexo, que recebe visitas diárias de turistas estrangeiros.

O conjunto de favelas Cantagalo/Pavão-Pavãozinho recebeu R$ 71 milhões em obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), um elevador panorâmico que virou ponto turístico e uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora), instalada em 2009.

Foto: Raphael Gomide Ampliar

Porta da escola municipal, no Cantagalo, a pior do Rio apesar das visitas constantes de políticos e turistas

Paradoxalmente, apesar da permanente atividade cultural, da estrutura, da projeção e da atenção política, a escola municipal de Ipanema foi a que teve pior desempenho no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) entre as 970 avaliadas da rede municipal do Rio, 1,8 nos anos finais do Ensino Fundamental. No ano anterior, a nota havia sido 3,7. Na Prova Rio, feita em 2010, o resultado também foi ruim: 3,6, deixando a João Goulart em 683º, ainda no pior terço das escolas municipais.

Nos anos iniciais do Ideb, resultado também decepcionante: é a segunda pior nota, 3,1, entre os colégios do município; no Ide-Rio (Índice de Desenvolvimento de Educação Rio), teve a 960ª posição, com 3,4.

“O espaço aqui é bom, a única coisa que estraga é a escola. O resto é legal”, disse a aluna Rayane Santos, 13.

“Os professores não passam muito as coisas. Não me surpreende em nada essa nota. É ruim. Os alunos não prestam atenção, por isso não sabemos nada. Os professores saem da sala quando os alunos estão fazendo bagunça. Só às vezes tem dever de casa. A aula é boa, mas os alunos bagunçam. Depois da refeição, todo mundo joga tangerina, fruta, um no outro, jogam comida debaixo da mesa, pegam a colher e a fazem de catapulta para jogar arroz...”, conta Joice Santos.

Foto: Raphael Gomide

Joice Santos, que acha a escola ruim, e Robson Alves, que gosta da aula de Educação Física, no Cantagalo, em frente ao colégio

A entrada da João Goulart é uma porta de vidro, ladeada por uma bandeira do Brasil em um mastro. Dali, vêem-se uma escada com corrimão e, à direita, andaimes, carrinhos de transporte de material de obra, uma escada desmontável e tapumes – provavelmente restos de uma obra recente.

A cinco metros da porta da escola está o projeto Criança Esperança, da Rede Globo; a outros 10 metros, o projeto Dançando para não Dançar; no andar de baixo, o grupo cultural Afroreaggae. Na sexta-feira (29), um grupo de cerca de 30 estrangeiros estava no local, rotina quase diária desde a instalação do elevador.

Caroline Corrêa, 14 anos, estudou na escola João Goulart até a 3ª série, mas saiu porque “não estava aprendendo nada”. Foi para a Escola Municipal Roma, uma das mais bem colocadas no município, com Ideb de 5,4 nos anos finais, o triplo da nota do ex-colégio. “É muita diferença”, disse Caroline.

A australiana Ruth Hienna, que mora no Rio há um ano e fala bem português, visitava o espaço na sexta-feira (29), disse que a situação é curiosa.

Foto: Raphael Gomide

Caroline saiu da escola porque não aprendia; Rayane e Joice acham que tem muita 'bagunça'

“É curioso, mas nem tão surpreendente. Há muito preconceito no Brasil, muita desigualdade. O governo não está nem aí para a educação. Se a economia está bem, então está tudo ótimo. Mas educação é chave para um país. Parecem estar fazendo o mesmo que a Austrália: evitam educar os aborígenes para não perderem poder”, disse Ruth Hienna, de origem afro-aborígene.

A secretária de Educação, Cláudia Costin, afirmou ao iG que o mau resultado da João Goulart, divulgado em julho de 2010, também deixou todos no órgão “chocados”, por conta do “ambiente cultural rico” que cerca a escola.

A secretaria mudou a direção e a coordenação pedagógica da escola este ano e instituiu uma série de programas de reforço e estendeu o horário de funcionamento para sete horas diárias.

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65 Comentários |

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  • Marco Antonio | 23/08/2011 09:21

    O Problema é mais amplo do que propagam, são várias as 'feridas' que são ignoradas, principalmente por certos economistas metidos a educadores. Cada um toca no ponto que lhe convém e o verdadeiro foco é deixado de lado ou até mesmo ignorado. Busquem informações de como os alunos das escolas de países de destaque na educação encaram a escola, quaís são seus objetivos em frequentar a escola? Como deve ser sua postura enquanto aluno?\nAgora comparem com a maioria dos estudantes brasileiros...

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  • Adilson | 20/08/2011 11:46

    É triste mesmo, somos os verdadeiros palhaços. E o pior de tudo é que aceitamos tudo. Se nós (povo) não mudarmos de atitude, nunca vai mudar. Viva o PT. \nEducação é tudo, enquanto investirmos apenas 5% do PIB em educação, nada vai mudar. E na verdade são menos de 5, pois até chegar na escola, a corrupção prevalece e cada um tira sua "fatia". Se está chegando 3% é muito.\n

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  • Morador do cantagalo | 10/08/2011 21:36

    o projeto crian;a esperan;a e o pior projeto do mundo \nnao doem dinheiro pra la e uma familia que comanda uma biblioteca velha , com computadores usados doados n'ao tem nenhum tipo de incentivo as crian;a e como se fosse um park para as crian;a mas um parque desses bem michuruca , com certeza o projeto crian;a esperan;a e o projeto que lucra com a miseria que tem nesse pais , n'ao doem , eu sou morado e vejo bem ,

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  • Valéria | 04/08/2011 23:45

    Sou professora e trabalho na rede pública. Sou formada e pós graduada. Vou citar dois exemplos em milhares que poderia dar: certa vez pedi a meus alunos que trouxesse para a sala de aula um encarte de mercado. Pretendia dar uma aula multidisciplinar. Trabalharia português, pois eles elaborariam uma lista de compras; e matemática, pois teriam que comparar preços e fazer o total de suas compras. Levei para a sala de aula cédulas de reais de brinquedo,comprada com meu dinheiro de verdade. Em uma turma de 35 alunos, apenas 6, trouxeram o tal encarte. As desculpas foram as mais variadas. Uns diziam que esqueceram, outros que a mãe mandou me dizer que "em casa não tinha jornal". A aula foi adiada. No dia seguinte, cheguei um pouco mais cedo e fui ao mercadinho na esquina da escola e peguei os encartes. Em outra ocasião pedi que trouxesem a xerox da certidão de nascimento. Trabalharíamos identitidade, árvore genealógica e outros temas multiculturais.Apenas 1 aluno trouxe o pedido. Em suma, não posso ser responsabilizada, sozinha, pela educação destas crianças. Também trabalho fora e ganho pouco, sem nenhuma ajuda do governo, ou de algum programa social. Chego em casa e tenho que olhar os cadernos dos meus filhos,ajudar nos deveres, atender aos anseios deles. Mas, infelizmente, no Brasil pais acham que educação é tarefa apenas da escola. Alimentação, saúde e moradia, tarefa do governo. A eles cabem apenas fazer estes filhos. Me perdoem o desabafo,mas já estou de "saco cheio". Não sou a salvadora do Brasil e nem quero ser!!!

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    Edgard | 28/08/2011 14:41

    Valeria\n\no seu post nao tem nem o que comentar! \na falta de responsabilidade dos pais (independente da situação sócio economica) e o discurso de "culpa do sistema", culpa do governo etc, tão usado pelos pedagogos de esquerda e que agora se volta contra eles tbem! tiram dos indivíduos a responsabilidade pelas consequencias!\nclaro que governo tem que cuidar da educacao basica e no Brasil o governo nao cuida disso! Mas é fácil atribuir a outrem a culpa e responsabilidade de tudo!

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    Edson | 17/08/2011 01:46

    Parabéns pela tua garra Valéria.\nAdmiro os professores deste Brasil, são guerreiros e merecem ser mais valorizados.\nA eduação dos nossos filhos deve ser uma das prioridades dos pais.\nTrabalho cerca de 10 horas/dia e em casa, no pouco tempo que tenho com as crianças, procuro ajudar em sua educação pq entendo que este é também o meu papel como pai e que o futuro dos meus filhos interessa mais a mim antes de interessar a qualquer outra pessoa.

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  • Ângelo | 04/08/2011 22:12

    Caaalma gente, este é o país da piada pronta. Sempre a mesma. Mas o palhaço? Cadê? Olho para todos os lados e só vejo os outros rindo! É com o meu e o seu dinheiro que isto é feito, seu palhaço!

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  • Laudo | 04/08/2011 21:48

    Responsabilidade. Comprometimento. Nada disso tem passado pelos diversos programas sociais que visam estrelato e publicidade. Não tem a menor vergonha nas caras de se preocuparem com os resultados efetivos. Nós somos os consumidores que engolem as notícias diárias sem crítica e multiplicamos os efeitos do circo. Nós somos os culpados. Larguemos o lixo diário do qual nos alimentamos. Pensemos um pouco mais ortodoxamente nos nossos próprios desperdícios que veremos que estamos nos entulhando de lixo, desde a fofoca maldosa contra o colega de trabalho aos copos de cerveja com os quais exageramos. Sim, somos muito irresponsáveis ainda. Saia na rua e observe por cinco minutos. Melhoremos mais nosso dia a dia e acharemos solução para tudo. É com trabalho que venceremos. Um educador sério, com tempo e alguns recursos conseguirá demonstrar a saída. Basta colocar as mãos na obra.

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  • Robério | 04/08/2011 08:08

    É fácil entender: o modelo neoliberal de escola que transfere a necessidade do conhecimento para a necessidade do lazer é um fracasso e não corresponde aos anseios da sociedade contemporânea. Toda escola de sucesso tem excelentes professores, ele é que precisa ser valorizado.

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    Eliezer | 05/08/2011 02:25

    Não tem nada a ver com neoliberalismo. Neoliberalismo é teoria econômica, não tem nada a ver com modelo pedagógico. Aliás quem cuida dessas escolas do tipo Affroreggae, é gente que defende socialismo.

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