Eles são pagos para se dedicar aos estudos

Bolsas de estudo de mestrado e doutorado permitem que profissionais deixem o mercado de trabalho para viver de estudar

Cinthia Rodrigues, iG São Paulo | 04/01/2011 12:01

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No começo de 2008, a professora Tatiana Calsavara teve dois grandes êxitos profissionais. Passou em um concurso municipal para se tornar docente efetiva e ganhou uma bolsa para fazer um doutorado em Educação na Universidade de São Paulo (USP). O problema é que, por contrato, só poderia aceitar um dos dois. Depois de analisar as possibilidades, optou pelo que geraria mais renda: estudar. Com o aumento dos valores e do número de bolsas de pós-graduação, histórias assim tornam-se cada vez mais comuns.

Foto: Guilherme Lara Campos/ Fotoarena

Tatiana preferiu bolsa de doutorado na USP a emprego, de olho em renda futura

O Conselho Nacional de Desenvolvimento Cietífico e Tecnológico (CNPq) criou para 2011 mais 2 mil bolsas de mestrado e doutorado, elevando o total distribuído em todo o País para 21,7 mil. A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) informa que beneficia cerca de 50 mil pós-graduandos por ano com auxílio mensal. São Paulo conta também com 6 mil bolsas para pesquisa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Embora ainda longe da média dos salários da maioria dos profissionais com ensino superior, as bolsas de estudo hoje vão de R$ 1.200 para mestrado a R$ 5 mil para o pós-doutorado (veja tabela por agência financiadora abaixo) o que já torna possível viver de estudar. “É apertado, mas compensa”, explica Tatiana, que fez a escolha de olho no futuro. “Depois disso, vou poder me inscrever em concursos para professor de universidade pública, o que garante uma renda bem maior do que dando aula no ensino básico.”

Tatiana recebe da Fapesp R$ 2,5 mil mensais. O contrato é de três anos ou até o final de seu doutorado sobre educadores anarquistas previsto para 2012. Quando pensa em dinheiro, ela soma ao valor as vantagens que a vida acadêmica traz. Na USP, faz esporte e aulas de francês de graça e conseguiu vaga para a filha de seis anos na creche da instituição. “Venho para cá no horário da entrada dela, às 8h, passo o dia envolvida com minha pesquisa ou atividades relacionadas e só saio às 16h15 em tempo de buscá-la”, conta.

 

Valores das Bolsas Capes CNPq Fapesp
Mestrado R$ 1.200 R$ 1.200

R$ 1.392 a

R$ 1.478*

Doutorado R$ 1.800 R$ 1.800

R$ 2.053 a

R$ 2541*

Pós-doutorado R$ 3.300 R$ 3.200 a R$ 4.000* R$ 5.024
* valores variam conforme experiência do aluno

 

 

Computador, livros e viagens
A bolsa é para o sustento do pós-graduando. Outros custos de estudo dos bolsistas são cobertos por uma reserva técnica. A Fapesp paga este adicional diretamente ao estudante ao longo do curso. Tatiana, por exemplo, já recebeu algumas parcelas em conta corrente e usou para viajar ao México e à Fortaleza (CE) pela universidade, comprar livros e um notebook. “A única exigência é que tudo seja doado à instituição ao final da pesquisa”, diz. 

O CNPq e a Capes deixam a verba à disposição do orientador dos estudantes, que deve administrar o dinheiro para um grupo. Flavia Alves de Souza, também doutoranda da Faculdade de Educação da USP, mas com bolsa do Conselho Nacional, conta que tem apenas parte dos gastos com congressos e livros pagos. “Isso depende de quantos interessados há em cada evento, nós fazemos o pedido e, às vezes, a cobertura financeira é total, em outras parcial”, explica.

A pedagoga recebe para estudar desde a graduação na Universidade Estadual do Ceará. Depois do mestrado, conseguiu um emprego como formadora de professores, mas logo quis voltar à pesquisa. “Me inscrevi para o doutorado na USP e, assim que passei, me desliguei do trabalho, mas fiquei quase um ano sem renda até conseguir a bolsa”, lembra.

Cada instituição credenciada pelas agências tem uma cota de bolsas. Quando uma faculdade distribui todas, precisa esperar que um aluno conclua seus estudos para solicitar novos benefícios. “Eu fiquei na fila por um tempo, é o tipo de coisa que dificulta para quem depende 100% disso”, conta Flávia.

Regras mudaram em 2010
Via de regra, bolsistas não podem ter vínculo empregatício. A intenção é que o estudante se dedique totalmente à pesquisa. Em 2010, no entanto, os dois órgãos financiadores nacionais publicaram portaria que flexibiliza o trabalho paralelo. Passaram a ser aceitos empregos ou colaborações que estejam relacionados ao estudo, o que em geral significa dar aulas.

Foto: Arquivo Pessoal

Juliana Dominguez foi uma das primeiras a conseguir bolsa e manter vínculo empregatício

A socióloga Juliana Arantes Dominguez, doutoranda em Demografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), foi uma das primeiras a aproveitar a mudança. Natural de Jundiaí, no interior do Estado de São Paulo, ela conta que sempre precisou trabalhar para pagar os estudos. Durante a graduação, manteve um emprego. Para o mestrado, foi morar em uma república com seis amigas. Depois, conseguiu um trabalho como coordenadora de projetos sociais, mas não queria se afastar da academia.

Em 2010, ela prestou a prova para o doutorado e, sabendo que uma bolsa seria insuficiente para manter seu custo de vida, decidiu não solicitar o benefício e continuar trabalhando. “Como a ideia sempre foi continuar estudando, arrumei trabalhos como professora tanto universitária quanto de ensino médio”, conta. Quando a legislação mudou, em junho, ela imediatamente conversou com a orientadora sobre acumular trabalho e estudo. Acabou ficando com as aulas no ensino médio e uma bolsa da Capes.

“Acho que quando é possível só estudar, melhor. Isso vale principalmente em casos como o meu que tenho a graduação em uma área e faço doutorado em outra. Estou aprendendo muita coisa nova”, diz, contando que sua rotina inclui aulas três vezes por semana além de cerca de quatro horas diárias de leitura individual.

Para Juliana, as bolsas são uma grande oportunidade para quem enxerga nos estudos uma forma de se se tornar mais competitivo. “As bolsas não são competitivas com o mercado de trabalho, mas nos dão uma chance de se diferenciar nele.”

Como se candidatar a uma bolsa?

As agências de fomento à pesquisa distribuem as bolsas entre as instituições, conforme o conceito e o número de alunos de cada programa. A cada ano, também há uma revisão das áreas que receberão maior investimento conforme a demanda.

A solicitação de bolsas é feita pelo orientador ou o departamento. É possível solicitar antes do início das aulas, mas apenas após a devida aprovação do projeto pela instituição.

VEJA A AVALIAÇÃO DA CAPES DE TODO OS MESTRADOS E DOUTORADOS DO PAÍS

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    43 Comentários |

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    • Roberto | 07/01/2011 09:19

      Talvez aí esteja algo que precisa mudar na forma de entender um mestrado e doutorado: não somos pagos para "estudar". Somos pagos para produzir conhecimento; produzir retorno à sociedade pelo seu investimento; Somos pagos para desenvolver trabalhos inovadores e de ponta que tragam contribuições e benefícios efetivos.

      É assim que a sociedade e, principalmente os futuros pesquisadores, precisam encarar uma bolsa.

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    • Nicolau Werneck | 05/01/2011 16:32

      Mais uma reportagem que fala sobre aumento em número de bolsas sem notar que estamos há mais de dois anos sem aumento nos valores das bolsas.

      O último aumento ocorreu em junho de 2008. A inflação desde então já ultrapassou os 10%, e ainda não há nenhuma notícia de quando pode haver um reajuste. Enquanto isso não se para de falar em aumento no número de bolsas e em aumento no orçamento das entidades. Reajuste pela inflação que é bom, nada. Aquele aumentão de 30% que deram então foi algum tipo de irresponsabilidade? Preferia dois aumentos de 15%.

      Isso é arrocho salarial. No governo FHC houve congelamento, mas pelo menos foi declarado. E visava melhorar a condição da iniciação, dos formados e pesquisadores, como pede nosso colega aqui nos comentários. A propósito, também fiz IC em 2004 e 2005 e nunca tive problema pra receber.

      Qual é o plano hoje? O governo quer só aumentar o número de bolsistas, mas ir deixando a bolsa mais minguada? É pra virar só um auxílio, tipo um prouni? As bolsas de pós-graduação vão entrar dentro da Bolsa Família?

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    • marcos vinícius fernandes | 05/01/2011 05:07

      Sou graduando em biblioeconomia e documentação pela UFF e gostaria ,se possível, de obter uma bolsa auxílio ...

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    • Paulo Ilmar Kasmsirski | 04/01/2011 18:53


      Cada área devia ter no mínimo cinqüenta mil bolsas de estudos patrocinadas pela contribuição das empresas e dos contribuintes, principalmente em todas as áreas de pesquisas ciência tecnologia

      E uma nova pesquisa para pesquisar-nos mesmos porque o ser humano precisa ser repensado, tanto de cima para baixo como de baixo para cima, para saber como aceitamos passivamente as diferenças existentes da desigualdade entre-nos pelo mundo afora

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    • Celso Luis de Carvalho | 04/01/2011 18:46

      Acho acertada a mudança nas regras do vínculo empregatício, não somente por aumentar a capacidade financeira de manutenção do estudante, mas sobretudo por contribuir para a formação profissional do pesquisador/professor e de certa forma inserir o profissional no mercado, entretanto, o distanciamento do ambiente acadêmico da atividade profissional (agricultura, indústria e comércio) deve sempre ser considerado nas escolhas de políticas públicas para o aperfeiçoamento de pessoal de nível superior. Existe um forte descompasso no aumento da capacidade do estado em absorver essa mão de obra qualificada do que é formada. Diante disso, a formação de mestre e doutor, deve ser mais abrangente, não enfatizando somente a pesquisa, mas sobretudo o ensino (fonte de receita) de como formar (ensinar e induzir) futuros empreendedores que aplicam conhecimentos científico/tecnólogico na sociedade, por meio do mercado.

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    • Daniel | 04/01/2011 18:37

      Que propaganda sem sentido! "Aumento de bolsas acima da inflação".
      Sou bolsista de mestrado e esses 1200 já estão há alguns anos e nada de aumento. Ao contrário do que ocorre com o salário mínimo que aumenta todo ano e leva consigo os preços dos bens de consumo. Bolsista não tem décimo terceiro, fundo de garantia nem demais direitos trabalhistas. Se a pessoa seguir na vida acadêmica padrão (graduação-mestrado-doutorado e eventualmente pós-doutorado) só vai ter chances de adquirir alguma estabilidade profissional (e financeira) perto dos 30 anos.

      Estudo na USP e não sou de São Paulo, pago 400 reais de aluguel para viver em república, se não fosse a alimentação subsidiada do restaurante universitário estaria na mendicância. Acorda! 1200 é quase 2 salários mínimos para desenvolver pesquisa de ponta (sou da área de exatas).

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      PosDoc | 05/01/2011 01:44

      Pois é ...
      Fora os milhares que ganham bolsa e trabalham (medicos) ....
      Fora os que ganham bolsa e nao fazem nada (os parentes de orientadores) ...
      Fora o nivel dos alunos que esta cada dia pior ...

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    • Ébano | 04/01/2011 16:15

      O avanço na área do ensino superior foi fabuloso nos últimos anos. Era aluno de graduação no governo FHC e era vergonhoso o nível em que o PSDB deixou a pesquisa científica no país. Uma mera bolsa de iniciação científica, que era o que eu recebia em 2001, levava cerca de 8 MESES para ser paga! As Federais estavam completamente sucateadas. Desespero maior tomava conta dos doutores que se formavam e não achavam colocação compatível.
      Agora não. Hoje é bem tranquilo fazer pesquisa, basta estar preparado e se dedicar bastante para ter um projeto de mestrado/doutorado aceito em boas instituições públicas.
      Contudo, o grande drama que o país enfrenta é o que fazer com o pessoal de alto nível formado. Tenho mestrado e graduação pela USP em História e não encontro colocação compatível. Ter mestrado e ficar lecionando na educação básica para alunos desinteressados, agressivos e sem qualquer compromisso não condiz com o meu esforço de formação. Tampouco as prefeituras e estados reconhecem, no caso dos docentes, uma qualificação profissional de alto nível. O MEC não fiscaliza as instituições particulares como deveria, de modo que tem doutor que esconde o título do currículo para ter mais chance de ser contratado pelas faculdades. Não existe estabilidade para os bons pesquisadores, sendo que a cada semestre a lista de cortes nas particulares é enorme. As instituições mantém apenas a quota mínima de mestres e doutores para os cursos. Pouquíssimas produzem pesquisa. E, ainda por cima, há uma enorme quantidade de pseudo-especialistas que ocupam as cadeiras das particulares, entopem o sistema e tiram o lugar de gente boa que poderia produzir pesquisa de qualidade e projetos de extensão universitária. Triste retrato do Brasil, aonde o jeitinho, a indicação, tem contado mais que o mérito e a qualificação acadêmica.

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      jaqueline | 05/01/2011 23:52

      Concordo com absolutamente tudo o que você disse. Sou aluna de Doutorado da USP, e realmente é muito difícil encaixar mestres e doutores recém-formados no mercado trabalho brasileiro (tema que já abordado inclusive pela Science, um dos periódicos mais respeitados do mundo acadêmico). Tive o desprazer de lecionar no ensino fundamental público por alguns meses, e saí exatamente com essa sensação: vários anos de estudo pra eu ficar na frente de uma sala de aula fazendo papel de idiota para um bando de alunos desinteressados. Mas, como vocêmesmo disse, a situação poderia estar pior, como ocorrido no governo FHC.

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      maria aparecida | 05/01/2011 00:54

      Meu querido, qdop terminei meu emstrado, enviei meu curriculop as instituições d eensino e elas nunca me chamaram p fazer uma entrevista p saber se pelo menos p saber com o eue ra, e quais as minhas verdadeiras intenções.
      Enfim tive que cair na escolap ública 1º como eventual, depois me tiraram o dioreito de ser cat F me jogaram na L e detanto conviver com alunos agressivos , desinteressado entre outras mazelas da escolapública graçs a Deus unm belo dia a minha pressão arterial subiu, pois andava muito nervosa e fikei de licença médica 90 dias depois retornei p sala de aula em 2009 e neste ano tive a certeza de que se comtinuar lá eu vou morrer já que prefiro naum matar um. Hoje desisti de ser profª, apesar de ter sido aprovado p o último concurso o estado de sp prof peb 2, e estou estudando qdo posso pois ainda estou me recuperando a minha pressaõ nunca mais subiu, E tenho fé em deus que daki há uns 3 ou 4 anso no maximo serei aprovada em outro concurso, e serei feliz
      Vale lembrar que a minha colega q tb saiu de sala de aula me disse "vc é louka meu marido e prof DR numa universidade e vc naum pode mandar no seu curriculo com titulo de Mestre tem q colocar q é especialista p eles contratarem. BRAÇOS E UM BOM ANO NOVO
      MEU EMAIL P CONTATO É CIDAEDFISICA@UOL.COM.BR

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