Dengue afeta desempenho escolar de crianças

Municípios infestados pelo mosquito têm avaliação de ensino inferior à de cidades livres do Aedes Aegypt

Fernanda Aranda, iG São Paulo | 14/03/2011 15:37

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Pesquisa da Universidade de São Paulo de Ribeirão Perto (USP) revela que a dengue não é só um problema de saúde pública, mas também compromete o desempenho escolar das crianças brasileiras.

O economista Daniel Roland cruzou dados das cidades infestadas pelo mosquito causador da doença, o Aedes Aegypt, com informações sobre a qualidade de ensino dos municípios. Concluiu que os locais assolados pela epidemia de dengue apresentam índices de educação até 6% mais baixos do que regiões não epidêmicas.

Para chegar às conclusões, Roland comparou as notas da Prova Brasil, avaliação do Ministério da Educação aplicada aos alunos de 1ª a 4ª série do Ensino Fundamental, com os registros de dengue monitorados pelo Ministério da Saúde.

“Para sinalizar o impacto da doença na educação, comparamos cidades muito parecidas economicamente e que tinham áreas semelhantes. As diferenças entre um local e outro basicamente era a presença da dengue”, explica.

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Foram avaliados 78 municípios brasileiros (a maior parte deles na Região Nordeste) e estabelecidas médias de desempenho escolar para todos e não individualmente. “As cidades com epidemia de dengue tiveram médias de educação que variaram entre 2% e 6% para baixo quando comparadas às de municípios sem a presença da doença.”

Mais dados

O economista, que apresentou a pesquisa em fevereiro, ressalta que os resultados indicam a interferência da dengue no aprendizado, mas ainda faltam informações mais conclusivas.

“Nos Estados Unidos, os estudos que almejam relacionar saúde e educação são feitos individualmente, alguns usando até mesmo o DNA dos alunos envolvidos. No Brasil, projetos como esses são quase inexistentes, mas o meu trabalho já serve de alerta para as autoridades”, acredita.

O indício de que dengue e sucesso escolar caminham de mãos dadas é ainda mais relevante diante do perfil de infectados brasileiros. A falta de uma vacina preventiva à doença – os testes para chegar a uma dose segura já estão em andamento no País – e o longo período de infestação de casos fizeram o número de crianças contaminadas crescer ano a ano.

Atualmente, segundo a última informação do Ministério da Saúde, 25% das vítimas da dengue têm entre 0 e 15 anos. No início da epidemia, há 24 anos, a parcela infantil não chegava a 5% dos casos.

Sintomas

Os principais efeitos da doença são febre alta, dores muito fortes no corpo (principalmente nas articulações) e cansaço excessivo. As crianças, em especial, podem perder o apetite, o que justificaria as faltas na sala de aula e o impacto negativo no desempenho escolar. Caso contaminadas pela segunda vez, em geral, as pessoas desenvolvem um tipo de dengue mais grave, muitas vezes a consequência é a morte, reforçando a situação alarmante das regiões afetadas por epidemia.

No ano passado, o Brasil amargou 1 milhão de casos de dengue, sendo 15,5 mil graves e 550 mortes. Este ano ainda não foi divulgado um balanço oficial, mas apesar da tendência de queda divulgada pelo Ministério da Saúde, um quarto tipo do vírus da dengue, o sorotipo 4, voltou a circular o que amplia o risco da mortalidade. O ministro da saúde, Alexandre Padilha, já emitiu sinais de alerta para as regiões mais vulneráveis (Manaus é a principal) e o mapa de risco desenhado no fim de 2010 já indicava que 19 Estados brasileiros estão com perigo de epidemia.

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