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Quando a diferença de opiniões, gerações e trajetórias cria um bloqueio na comunicação entre pais e alunos, em pleno período de vestibular

Enem é a porta de entrada para diversas faculdades públicas e privadas no Brasil; provas serão nos dias 5 e 6
USP Imagens - 05.01.15
Enem é a porta de entrada para diversas faculdades públicas e privadas no Brasil; provas serão nos dias 5 e 6

Maria não está tendo um final de semestre tranquilo. Isso porque 2016 – para essa estudante de 17 anos –  é ano de vestibular. Logo, essa é sua primeira chance de ingressar na sonhada faculdade de Música, aquela que seus pais não apoiam e cuja carreira, segundo eles, "não dá futuro". A jovem diz que eles não entendem que “hoje é diferente” e que ela “tem que seguir o seu sonho”. Enfim, não está sendo fácil nem para Maria e nem para os seus pais.

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As expressões entre aspas lhe parecem familiares? Assim como a nossa personagem fictícia, outros 1,2 milhões de estudantes com 17 anos vão fazer as provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) nos próximos dias 5 e 6, além de um batalhão de vestibulares durante o resto do semestre. Ao todo, são 3.201.393 candidatos com idade igual ou inferior a 18 anos só no Enem. Muitos desses, apesar de certos sobre as suas preferências, estão inseguros quanto à faculdade que escolheram cursar, justamente porque não têm a aprovação dos pais. E o pior: tal insegurança pode ser refletida no resultado das provas.

“Se o jovem não se sente apoiado, se acredita que está decepcionando seus pais e isso não está bem trabalhado em sua mente, [tal desaprovação] pode distrair e roubar sua energia mental”, afirma o coach Marco Aurélio Loureiro, fundador e CEO do Instituto Loureiro de Desenvolvimento, que trabalha com o desenvolvimento humano e profissional de jovens, pais e educadores. “Muitas vezes, os pais acreditam que estão ajudando e acabam prejudicando. Isso deve ser evitado a todo custo”, conta.

Uma questão de geração

O filósofo e educador brasileiro Mario Sergio Cortella defende, no livro “Por que fazemos o que fazemos?”, que antigamente as gerações tinham, entre elas, um intervalo de tempo de cerca de 25 anos. Hoje, a cada 10 anos, nasce uma nova geração. Com isso, um pai de 60 anos pode ter filhos da geração X e da Y.

Ou seja, mais do que nunca, há diferenças entre a forma de pensar entre os pais e os filhos da atualidade. E isso não é um problema. O problema é quando tais gerações não conseguem dialogar por conta de uma possível diferença de ideais, prioridades e preferências.

Mais do que nunca, há diferenças entre a forma de pensar entre os pais e os filhos da atualidade
Divulgação
Mais do que nunca, há diferenças entre a forma de pensar entre os pais e os filhos da atualidade

“Os pais podem (e devem) usar sua experiência, conhecimento e vivências para ajudar seus filhos a terem visões poderosas sobre a vida, porém nunca podem se esquecer de que tudo isso tem que ser transmitido dentro do contexto de seus filhos, e não na realidade em que eles eram jovens. O mundo mudou, e isso é muito bom. Conseguir transferir os fundamentos do saber de uma geração para outra é melhor ainda”, afirma o CEO do Instituto Loureiro.

"Essa é uma geração voltada para as pessoas, para as relações humanas, para a comunicação e troca de impressões. Todos querem dinheiro, porém não estão dispostos a trocar seu tempo por trabalho chatos que parecem sem sentido, que não parecem oferecer qualquer contribuição ao mundo", analisa. "Hoje existe a percepção de que se o profissional for excelente em sua área de atuação, os resultados financeiros virão".

Loureiro afirma que os avós dessa geração esperavam o auge de seus carreiras por volta dos 50 anos, através de uma sólida experiência dentro de uma mesma empresa. Na geração de seus pais, o sucesso passou a ser possível aos 30, com o empreendedorismo, o início da internet e a busca por oportunidades atraentes no mercado. "Hoje, os jovens observam pessoas de 20 anos ou menos tendo resultados extraordinários, que impactam a vida das pessoas, a forma de pensar, de se comportar e de consumir. Ele está pressionado com o resultado de seus pares, que apresentam sucesso cada vez mais cedo", explica.

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Há ainda os exemplos de pais que não tiveram oportunidade de cursar uma faculdade e, quando os filhos a têm, não sabem como lidar com isso. Alguns estimulam ainda mais os seus filhos, para criar neles uma vida que não tiveram a oportunidade de ter. Outros, não percebem a importância de uma faculdade.

Bruno Ribeiro, presidente da ONG Matemática em Movimento, que atua no ensino para alunos do colegial da escola pública na periferia paulista, conta que percebe que seus alunos enfrentam tais situações.

"Muitos dos pais dos nossos alunos, e até mesmo os meus, são de uma geração em que não era necessária uma graduação para se 'ganhar dinheiro'. Uns trabalham como autônomos, outros são do comércio e nunca fizeram o ensino superior. Até mesmo porque era mais difícil de fazê-lo", explica. "Quando eles percebem os seus filhos tendo vontade de fazer uma faculdade, estudar outra língua e até mesmo morar fora, não sabem como reagir. É algo totalmente novo para eles".

"No entanto, desde que começamos a fazer reuniões frequentes com os pais dos estudantes e a conversar com eles no processo de seleção de novos alunos, temos percebido um maior interesse dos jovens. Essa aproximação com os pais realmente faz a diferença no desempenho deles", afirma. "É na relação de confiança com os pais que conquistamos ainda mais a confiança dos alunos".

Limites geográficos

Outra questão importante na época de vestibular é a possibilidade – ou não – que os pais oferecem a seus filhos de morar fora de casa por conta do curso escolhido.

No segundo ano do curso de Letras da Universidade de São Paulo, a estudante Juliana Gueiros, 20 anos, conta ao iG que não está fazendo a graduação que fez seus olhos brilharem no colegial. “Eu já quis fazer Letras, quando eu estava no ensino fundamental. Daí, no colegial, eu vi que existia o curso de Museologia. Agora estou apaixonada”, conta.

Juliana Gueiros faz Letras na USP, mas o seu sonho é cursar Museologia
Arquivo pessoal
Juliana Gueiros faz Letras na USP, mas o seu sonho é cursar Museologia

No entanto, o curso que Juliana queria fazer era em Minas Gerais e a mudança de estado nunca foi bem vista pelos seus pais. Por orientação deles, Juliana acabou escolhendo prestar vestibular para Letras.

“Meus pais nunca proibiram a gente de nada, de falar ‘não, você não vai’. Mas, dá pra saber. Com a convivência, você sabe o que eles aprovam ou não e, de certa forma, eu sabia que eles não queriam que eu fosse morar fora de São Paulo”, conta.

Mais velha e já trabalhando, Juliana continua apaixonada. “Eu tenho planos. Eu vou fazer Museologia, que é o que eu realmente quero. Porque eu sei que eu não vou ficar realizada... Mesmo se eu não gostar do curso, eu quero pelo menos tentar”, afirma. “Eu vou por conta própria. A essa altura, os meus pais já não podem me proibir de muita coisa ou não aprovar muita coisa”, finaliza.

Na hora da prova

Ir para a prova com conflitos como esse em casa é extremamente prejudicial ao candidato, que precisa de calma e tranquilidade para enfrentar as 180 questões do Enem. Imagine a dificuldade de se dedicar a uma prova de 10 horas de duração sem a devida motivação? Para resolver isso, Marco Loureiro garante que é importante tentar resolver a questão com os pais antes do dia da prova.

“A desaprovação é algo possível de acontecer e deve ser encarada com respeito e naturalidade. A palavra-chave aqui é essa: respeito. E mútuo. Quando olhamos pela perspectiva do jovem, ele deve sim ouvir e ponderar a opinião de seus pais. Porém, por outro lado, deve também respeitar a si próprio, suas convicções e conclusões”, analisa o coach. “A opinião dos pais é importante, porém a palavra final tem que estar com o jovem, pois em última análise, será ele que irá viver aquela vida que está sendo desenhada nessa escolha de curso”, conclui.

Além disso, no período de preparação anterior às provas, o candidato precisa separar o que se refere à discussão sobre sua escolha e seus sentimentos sobre a carreira, do que se refere ao seu processo de estudo e preparação técnica. “Momentos para refletir e momentos para se preparar. Independentemente das opiniões dentro de casa, ele terá que enfrentar o vestibular”, alerta o especialista.

“O jovem pode buscar apoio em outras pessoas que compartilhem de suas visões, como outros parentes ou amigos. Sempre com muito respeito com relação às opiniões dentro de casa, sem mágoas ou brigas”, afirma.

Loureiro diz ainda que uma boa conversa pode ajudar bastante. “Também não adianta deixar alguma situação mal resolvida e se lançar em projetos, especialmente de longo prazo. Essas indefinições drenarão as energias de todos os envolvidos e não será bom pra ninguém. Muitas vezes uma conversa boa e franca, com cordialidade e racionalidade, resolve a questão”, finaliza.

Para Poema Ribeiro, psicoterapeuta especializada em terapia de casal e família, o jovem deve ter cuidado e atenção no momento da conversa. "Se ele não tiver características, em sua personalidade, que lhe garantam firmeza na defesa de suas convicções, pode ser tragado por um mar de justificativas, explicações e conselhos baseados em vivências que, é claro, ele não tem", explica.

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A especialista diz ainda que nem sempre os pais serão os melhores conselheiros para um jovem indeciso quanto à sua futura faculdade. É preciso empatia, não autoridade. "Para que isto aconteça é necessário que esses pais tenha se debruçado profundamente sobre este filho, para poder considerar suas caraterísticas ainda não manifestas totalmente, dada a extrema juventude, para serem conselheiros adequados, e não tendam a fazer projeção do que gostariam de ter feito e sido, ou se apoiarem numa falsa visão que possam ter desenvolvido sobre seus filhos", diz.

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