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No México, professores vão às ruas contra introdução de sistemas de avaliação; especialistas defendem que proposta é responsável por alto nível da educação em países asiáticos

No México, professores foram às ruas contra a proposta de avaliação docente do governo federal
Reuters
No México, professores foram às ruas contra a proposta de avaliação docente do governo federal


No último domingo (19), seis pessoas morreram durante confrontos entre professores e a polícia no Estado mexicano de Oaxaca. Pelo menos 100 pessoas ficaram feridas, incluindo muitos policiais. O protesto, organizado pela combativa facção de Oaxaca da Confederação Nacional dos Trabalhadores de Ensino, o principal sindicato da categoria do México, foi apenas o capítulo mais recente na resistência de um amplo setor da categoria em aceitar reformas educacionais introduzidas pelo governo em 2013.

Entre as medidas que estão em debate, a mais polêmica é a introdução de um sistema de avaliação do desempenho dos professores. Os mexicanos não são os únicos a resistir a esse tipo de iniciativa. No Chile também houve protestos quando, em 2006, foi introduzida uma proposta muito parecida.

Entretanto, "a maioria dos países com bons resultados educativos avalia seus professores", diz Cristián Cox Donoso, especialista em estratégia docente do Escritório Regional de Educação da Unesco para a América Latina e o Caribe. Xangai, Cingapura, Hong Kong e Japão aparecem nas primeiras posições do Programa Internacional para Avaliação de Estudantes (Pisa), utilizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico para comparar o desempenho e matemática, ciência e leitura de meio milhão de adolescentes de 15 anos em 65 países, incluindo o Brasil.

Em Xangai, por exemplo, assim como no resto da China, existe um complexo sistema destinado a medir a qualidade dos professores. Os critérios gerais se estabelecem a nível nacional, detalham-se ao nível local, e cada escola é encarregada de levar a cabo as avaliações. Além de habilidades profissionais, integridade e valores do professor também são testados.

Especialistas dizem que avaliação docente eleva qualidade da educação em países asiáticos
Reuters
Especialistas dizem que avaliação docente eleva qualidade da educação em países asiáticos

O processo tem autoavaliações, questionários dirigidos a colegas, alunos e pais, mas também leva em conta os resultados acadêmicos de seus alunos. Os dados computados, por fim, são enviados ao governo central. "A China quer redefinir o sistema para torná-lo mais científico", diz Vivian Stewart, autora do livro A World-Class Education: Learning from International Models of Excellence and Innovation, que analisa iniciativas internacionais bem-sucedidas no campo da educação.

Stewart também elogia o sistema de avalição de professores em Cingapura. No país asiático, a avaliação anual é obrigatória desde 2005 para todos os professores. Ela leva em conta não apenas os resultados acadêmicos, mas também as iniciativas pedagógicas do professor, as contribuições para seus colegas e sua relação com os pais de alunos e organizações comunitárias. E, durante três momentos do ano, o plano de aulas de cada professor é vistoriado pelo diretor ou sub-diretor da escola.

No Japão, cada professor estabelece objetivos junto à direção da escola no início do ano, e no final do ano tem seu desempenho avaliado. Durante o ano, aulas são supervisionadas por grupos de professores - e em alguns casos por inspetores e mesmo autoridades via vídeo. Em Hong Kong, as escolas realizam avaliações anuais, que o governo revê a cada três anos.

Informalidade

Mas nem todos os sistemas são tão formais. Na Finlândia, país que segue sendo um importante referencial educacional a nível internacional, embora tenha perdido posições nas últimas edições do Pisa, a maneira de medir o desempenho dos professores é diferente.

Policiais cruzam barricada deixada por manifestantes na cidade de Nochixtlan, em Oaxaca
Jorge Luis Plata/Reuters - 20.6.16
Policiais cruzam barricada deixada por manifestantes na cidade de Nochixtlan, em Oaxaca

No início da década de 1990, o país europeu aboliu o sistema de inspeção escolar e hoje as avaliações têm lugar na própria escola, com base em conversas entre o professor e o diretor. "É um modelo baseado na confiança", diz Paulo Santiago, analista de educação da OCDE. Mas ele admite que o sistema em vigor não serve a todos e “precisa ser adaptado ao contexto".

Panorama latinoamericano

Especialistas recomendam ainda que um modelo de avaliação precisa cumprir com as seguintes características: os padrões de medição devem estar bem estabelecidos, os professores devem conhecê-los e quem avalia os professores deve ter boa formação.

Na América Latina, o país que há mais tempo avalia seus professores é o Chile. O governo criou um sistema nacional em 2006, depois de uma longa negociação com os sindicatos. "E a partir de agora, com a promulgação da Lei da Carreira Docente, os professores da rede particular também serão avaliados", explica Cristián Cox Donoso, o especialista em estratégia docente da Unesco.

O processo inclui uma revisão do portfólio do professor, gravação de uma aula, entrevistas com examinadores e uma autoavaliação. Os dados são alimentados a um computador, que calcula uma nota para o desempenho docente. E os resultados podem determinar se um professor vai receber aumento ou mesmo ser enviado para plano de reaprendizado para trabalhar suas deficiências.

Se não há melhora nas avaliações seguintes, o professor poder ser forçado a deixar de exercer a profissão. Cox informa que, além de Chile e México, Colômbia e Peru também estão estudando ou introduzindo projetos do tipo.