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Inauguração de complexo educacional no Conjunto de Favelas da Maré, no Rio, expõe violência sofrida pelos moradores

O Dia

Prefeitura do Rio inaugura nesta sexta-feira o maior complexo de ensino em favelas
Arte O Dia
Prefeitura do Rio inaugura nesta sexta-feira o maior complexo de ensino em favelas


Por conta da criminalidade, algumas famílias do Conjunto de Favelas da Maré – que possui 130 mil moradores – estão receosas em matricular os filhos na nova unidade escolar que será inaugurada nexta sexta-feira (26). O complexo educacional, com oito escolas da rede municipal do Rio de Janeiro, distribuído numa área de quase 40 mil metros quadrados, está localizado em área do Comando Vermelho, quadrilha rival, segundo a Polícia Civil.

O Campus Maré, erguido na Nova Holanda, às margens da Linha Vermelha, terá cinco unidades de Primário Carioca (1º ao 6º ano), dois Espaços de Desenvolvimento Infantil (pré-escola) e um Ginásio Olímpico (7º, 8º e 9º anos). Todos vão estudar em turno integral de sete horas. O investimento total é de cerca de R$ 236 milhões e vai atender mais de dez mil crianças em turno único em toda a região da Maré.

É o caso de B., 10 anos. Ele mora no Conjunto Esperança, uma das 17 favelas da Maré, controlada pelo Terceiro Comando Puro. Com receio de represálias, a mãe do garoto, Teresinha M. R., de 35 anos, prefere não matricular o filho nas novas escolas. O menino está sem estudar. “Só tem uma unidade no Esperança e está superlotada. Prefiro deixar ele fora. Pode ser agredido por bandido ou por outro aluno de lá”, lamenta.

No ano passado, uma diretora registrou numa ata de conselho comunitário a violência entre estudantes. “Há brigas entre alunos de escolas diferentes, residentes em diferentes favelas da Maré. Eles marcam encontros na frente de escolas com esse objetivo”, diz o informe.

Alguns pais preferem ter os filhos por perto, em escolas situadas no bairro onde vivem.“É público esse receio. Nesta quinta-feira, fui procurado por duas mães que não conseguem matrícula na única escola do Esperança e vão esperar”, disse Pedro Francisco, presidente da associação de moradores do Conjunto Esperança.

A secretária municipal de Educação, Helena Bomeny, esclarece que não cabe à pasta orientar os pais a respeito da escolha da escola. “É uma decisão da família. Quem não quer ir pode ficar onde está ou esperar a inauguração de outra escola. Até dezembro, dez unidades serão abertas na Maré”, diz. Segundo ela, a maioria dos alunos já era da Nova Holanda.

PM substitui Força de Pacificação do Exército para o patrulhamento das comunidades
Fernando Frazão/ Agência Brasil
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Escolas do Amanhã elevam IDEB
A ampliação da rede municipal na região, e a implantação dos principais programas da Secretaria de Educação (como Escolas do Amanhã, Espaço de Desenvolvimento Infantil e Rio Criança Global) nas escolas do Complexo da Maré melhoram o desempenho dos estudantes da comunidade. Eles avançaram no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) 2011. Nos Anos Finais (6º ao 9º Ano), as escolas se destacaram com um crescimento de 25,5% em relação à avaliação realizada em 2009, passou de 3,6 para 4,4.

Moradores sonham com a paz na região, ocupada em março de 2014, três meses antes da Copa do Mundo, pela Polícia Militar. Logo depois, o Exército atuou por 15 meses. Com a saída dos militares, em junho, a inauguração da UPP foi anunciada. Até esta sexta-feira, não há previsão de inauguração e PMs são vistos só nos acessos da comunidade.

A violência entre as regiões da Maré também aparece nas estatísticas. Em dezembro, quatro amigos da Mangueira, entre 24 e 35 anos, desapareceram, após sair da Nova Holanda de carro e entrar na Baixa do Sapateiro, outra favela do Complexo. 

FONTE/ O DIA