Tamanho do texto

Publicação revela riqueza histórica e cultural de instituição de 429 anos em Salvador

As portas do Mosteiro de São Bento da Bahia, em Salvador, se abriram ao público laico por apenas três vezes: em 1624, transformado em quartel de invasores holandeses, ao acolher feridos da Guerra de Canudos (1896-1897) e militantes perseguidos pela ditadura (1964-1985).

Às vésperas de completar 430 anos, o claustro do mosteiro beneditino mais antigo das Américas continua restrito aos 30 monges que lá vivem, mas se abriu mais uma vez na noite desta quarta-feira (30), para o lançamento de publicação que resgata a riqueza histórica, artística e cultural da instituição.

Em edição luxuosa, “Mosteiro de São Bento da Bahia” (editora Versal, 401 páginas, R$ 198) é uma viagem por quatro séculos de história da Bahia e do Brasil. Organizado por dom Gregório Paixão, monge beneditino e bispo auxiliar de Salvador, o volume é dividido em capítulos que abordam temas como o acervo de arte, a arquitetura e a biblioteca do mosteiro. O livro é resultado do Prêmio Odebrecht de Pesquisa Histórica – Clarival do Prado Valladares, que anualmente dá apoio integral a pelo menos um projeto inédito, da fase de pesquisa à publicação.

O conjunto do mosteiro, 20 mil m2 de área construída que compreendem igreja, claustro, biblioteca, colégio e museu, fica em plena avenida Sete de Setembro, a mais movimentada do centro de Salvador. Ali ficava a aldeia do cacique Ipiru, ou Tubarão, convertido ao cristianismo pelos primeiros jesuítas que aportaram no Brasil, em 1549. As primeiras edificações do mosteiro são de 1582.

Interior da basílica do mosteiro
Thiago Guimarães/iG
Interior da basílica do mosteiro
Protegidos pelas paredes do mosteiro, os monges dizem não se incomodar com a confusão do carnaval de Salvador – um dos circuitos da festa passa em frente ao conjunto. “As paredes são tão grossas que o barulho não nos atrapalha. E olha que são centenas de decibéis”, diz dom Gregório.

No mosteiro vivem hoje 30 monges ou noviços, a maior parte deles na faixa dos 30 anos. O candidato a monge tem de estudar seis anos e ter pelo menos dois cursos superiores. Embora a maioria dos religiosos passe os dias isolada na instituição, em uma rotina de oração e trabalho que se estende das 5h às 23h, há quem saia para dar aulas. Os monges também usam celular, notebooks e internet – todo o mosteiro conta com rede sem fio.

Há, entre os monges, quem dedique suas horas de trabalho à biblioteca do mosteiro, uma das quatro no Brasil tombadas pelo Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional). Do acervo de 300 mil volumes, 13 mil são considerados obras raras – a mais antiga, o “Comentário as Sentenças de Duns Scoto por Fr. Nicolau de Orbellis”, é de 1503.

O acervo especializado em ciências humanas conta também com documentos manuscritos do século 16, no início da história moderna do Brasil, entre eles cartas de alforria e atas de compra e venda de escravos, crônicas com relatos cotidianos do mosteiro e registros de sesmarias. Para a conservação das obras, há um laboratório de restauração em papel construído na década de 90, o mais equipado do Estado.

Entre os trabalhos restaurados no mosteiro estão cinco volumes dos “Sermões” do padre Antonio Vieira (1608-1697). Quatro dos volumes restaurados foram impressos quando o religioso era vivo, entre 1682 e 1696. O padre chegou a viver no mosteiro baiano durante o período em que preparava sua defesa da Inquisição em Portugal. A biblioteca do mosteiro fica aberta à consulta de segunda a sexta das 8h30 às 12h e das 13h às 17h.

O livro “O Mosteiro de São Bento da Bahia”
Thiago Guimarães/iG
O livro “O Mosteiro de São Bento da Bahia”
Obras de arte

Retratado em detalhes no livro, o acervo de arte do mosteiro guarda peças dos séculos 16 ao 21, com destaque para imagens sacras, peças de ourivesaria e móveis. Pelos corredores de madeira de ipê do claustro, em meio aos aposentos dos monges, é possível encontrar baús do século 17 e esculturas como a do São Pedro Arrependido, atribuída a frei Agostinho da Piedade, primeiro e um dos raros escultores do Brasil Colônia a assinar suas obras. A escultura é uma das peças que os monges enterraram no mosteiro durante a ocupação holandesa com o objetivo de evitar a destruição das obras pelos invasores calvinistas.

Uma amostra do acervo artístico do mosteiro ficava exposta em um museu, mas o espaço está hoje fechado – segundo dom Gregório, para ser transformado em uma espécie de museu do livro.

Mas os visitantes podem também conhecer a basílica do mosteiro, conhecida como Basílica Arquiabacial de São Sebastião. Erguida em diferentes momentos ao longo dos últimos 400 anos, reúne elementos de diferentes estilos, como barroco, rococó, neoclássico e até contemporâneo. No claustro, os beneditinos tocam a vida baseados no lema “ora et labora” (ora e trabalha). Em meio ao silêncio da vida monástica e a tesouros escondidos, agora acessíveis ao grande público.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.