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Richard Linklater discute a passagem do tempo ao acompanhar a trajetória de um garoto da infância à faculdade

Demorou, mas o grande filme de 2014 chega aos cinemas brasileiros nesta quinta-feira (30): "Boyhood - Da Infância à Juventude", um belo estudo sobre a passagem do tempo idealizado e dirigido por Richard Linklater.

Sem mudar o elenco, o longa acompanha a trajetória de um garoto dos 6 aos 18 anos. De 2002 a 2013, Linkater fez reuniões anuais com os atores para conversar sobre como estavam naquele momento de suas vidas, além de filmar algumas cenas.

Quando a história começa, Mason (Ellar Coltrane, escolhido em testes) é uma criança que lida com o divórcio dos pais (Patricia Arquette e Ethan Hawke, ótimos) e alterna brincadeiras e brigas com a irmã, Samantha (Lorelei Linklater, filha do diretor). Quando termina, ele é um jovem apaixonado por fotografia que se prepara para entrar na faculdade.

De um ponto a outro, Linklater retrata boa parte das experiências que marcam o crescimento humano: a excitação da infância, o tédio da adolescência, a primeira cerveja e o primeiro amor, os conflitos em família, os relacionamentos que começam e acabam, as mudanças de escola, endereço e cortes de cabelo.

Há uma série de semelhanças entre "Boyhood" e a trilogia "Antes do Amanhecer", trabalho mais conhecido de Linklater. Como Jesse e Celine, os personagens do novo filme têm um jeitão de "gente como a gente" que causa identificação quase imediata no público.

Imagem do filme 'Boyhood'
Divulgação
Imagem do filme 'Boyhood'

E como na trilogia, os diálogos de "Boyhood" são inteligentes e verdadeiros, sempre em torno de questões cotidianas - a escola, o amor, as relações em tempos de Facebook.

Leia mais: O amor segundo Jesse e Celine

Mas se "Antes do Amanhecer" retrata as mudanças na vida de um casal a partir de três momentos bem diferentes (o dia em que se conheceram, o reencontro nove anos depois e as dificuldades do casamento , após um novo salto de nove anos), "Boyhood" opta por mostrar o impacto do tempo de forma mais gradual e sutil.

Linklater é, sobretudo, um diretor de ideias boas e simples, que quase sempre também são bem executadas. Em "Boyhood", é notável como as mudanças de Mason e sua família não causam nenhum estranhamento, e como não há necessidade de as épocas e idades serem especificadas..

Nos situamos no tempo conforme a narrativa insere, cuidadosamente, menções a fatos históricos (a doutrina Bush, a eleição de Barack Obama), referências da cultura pop (livros da série Harry Potter, vídeos de Lady Gaga) e inovações tecnológicas (modelos de videogame, conversas via Facetime), mas sobretudo graças à excelente trilha sonora, que reflete o momento cultural de cada época, de Sheryl Crow a Arcade Fire.

Como em trabalhos anteriores de Linkater, poderia se dizer que "Boyhood" não tem muita ação ou um grande conflito. Mas a sensibilidade do diretor rende outro excelente filme e mostra que a inovação cinematográfica não passa única e necessariamente por efeitos especiais e óculos 3D.

Veja o trailer de "Boyhood - Da Infância à Juventude":