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Com Caio Blat e Carolina Dieckmann, filme conta história de aspirantes a escritores que se encontram 10 anos após tragédia

Uma mudança de tom marca a trama de "Entre Nós", filme de Paulo Morelli sobre o impacto da passagem do tempo em uma turma de jovens amigos. Premiado no Festival do Rio, o longa chega ao circuito comercial nesta quinta-feira (27).

A história começa em 1992, quando sete aspirantes a escritores passam um fim de semana em um sítio na Serra da Mantiqueira. O clima de alegria, bebedeira e cantoria embala o amor dos românticos Lucia (Carolina Dieckmann) e Gus (Paulo Vilhena) e dos piadistas Drica (Martha Nowill) e Cazé (Julio Andrade). Solteiros, mas com forte ligação entre si, Silvana (Maria Ribeiro), Felipe (Caio Blat) e especialmente Rafa (Lee Taylor) parecem os mais promissores na busca por uma carreira literária.

Durante a viagem, os sete decidem escrever cartas para si mesmos, que são enterradas para serem lidas dali a dez anos. Mas o momento de alegria é interrompido por uma tragédia: Rafa assume o volante bêbado e morre em um acidente de carro.

Passa-se então para um segundo momento, em 2002, quando a turma se reúne para um fim de semana que culminará na leitura das cartas. A situação, porém, mudou: Lucia é casada com Felipe, um escritor de sucesso, mas claramente infeliz. Gus se sente sozinho, Silvana vive na Europa e Drica e Cazé brigam porque ela quer filhos, mas ele não.

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A juventude despreocupada e cheia de sonhos sente o peso da vida adulta. O vazio é de todos, tanto dos que não realizaram nenhum dos desejos listados nas cartas enterradas quanto dos que realizaram todos.

Imagem do filme 'Entre Nós'
Divulgação
Imagem do filme 'Entre Nós'

Morelli, que desenvolveu e dirigiu o filme com o filho, Pedro, captura bem essa mudança e sabe usar o espaço a favor da narrativa. A imensidão e a beleza da paisagem reforçam a melancolia e os problemas internos dos personagens, e mesmo o estilo de filmagem muda completamente: no início, a câmera na mão imita um vídeo caseiro e festivo; depois, os personagens são vistos por reflexos ou escondidos atrás de paredes e janelas, como pessoas que já não revelam totalmente quem são.

Por outro lado, Morelli também usa câmera, edição e principalmente trilha sonora para criar e reforçar constantemente uma atmosfera de suspense, quando os fatos em si se desenvolvem de forma pouco surpreendente, previsível até. De certa forma, parece que os realizadores sentiram que a premissa das cartas não se sustentava sozinha, que o reencontro dos personagens, em geral interessantes e bem interpretados, não bastava como filme.

Veja o trailer de "Entre Nós":

Os cineastas disseram ter buscado inspiração no cinema do canadense Denys Arcand, que acompanhou a evolução de um mesmo grupo de personagens em "O Declínio do Império Americano" (1986) e "As Invasões Bárbaras" (2003). Seguindo a mesma fórmula e estimulados pelo elenco, os Morelli já planejam um "Entre Nós 2" para daqui a oito ou dez anos.

Mas os filmes de Arcand, bem como a trilogia iniciada por "Antes do Amanhecer", de Richard Linklater, são bem-sucedidos porque se apoiam basicamente em diálogos bem construídos e no retrato das relações humanas. O espectador se identifica com aqueles personagens e os acompanha enquanto cresce com eles.

"Entre Nós" se atrapalha ao estabelecer essa conexão na ânsia de ser, ao mesmo tempo, drama, suspense e comédia, escalando Nowill e Andrade para as piadas.

A escolha por ambientar a maior parte da trama em 2002 também parece pouco acertada. Presume-se que a intenção foi inserir personagens em transformação em um momento de transformação - são citados, por exemplo, os ataques de 11 de Setembro e a expectativa pela eleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Mas tais referências colocam os personagens mais de dez anos atrás dos espectadores e são um obstáculo para que "Entre Nós" alcance seu objetivo maior: retratar uma geração.

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