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Artista já recebeu R$ 1,65 milhão em doações, mas não quer que pagamento seja confissão de crimes que não cometeu

Ai Weiwei na porta de sua casa após ser libertado em junho
AFP
Ai Weiwei na porta de sua casa após ser libertado em junho
O artista e dissidente chinês Ai Weiwei disse que ainda não decidiu se pagará o valor de 15 milhões de iuans (R$ 4,13 milhões) por uma suposta evasão tributária, admitindo implicitamente a culpa, ou se contestará a cobrança e se submeterá à possibilidade de ser preso novamente. O prazo para o pagamento vence na semana que vem.

Ai passou 81 dias detido num local secreto neste ano, motivando uma onda internacional de solidariedade. Seus partidários organizaram uma "vaquinha" para ajudá-lo a pagar o valor cobrado, e dizem que a acusação é parte dos esforços do governo chinês para calar o dissidente.

Em quatro dias, mais de 20 mil pessoas doaram cerca de 6 milhões de yuans (R$ 1,65 milhão) pela internet, por correio ou até mesmo fazendo "aviõezinhos" com as cédulas e jogando-as na casa do artista, na zona nordeste de Pequim, disse Ai nesta terça-feira (8).

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Mas ele disse que ainda não sabe se pagará o suposto imposto sonegado. "Ainda estou muito hesitante a respeito", disse ele à Reuters. "Ontem à noite eu disse: 'Ah,eu não vou pagar nada'. Mesmo que eu tenha todo o dinheiro e o apoio do público, a polícia me disse ainda ontem: 'Bem, você ainda tem a intenção de pagar. Se pagar, isso significa que você admite o crime,'" relatou Ai.

"Isso vai justificar a forma como me prenderam. Por mim, no meu coração, não vou pagar um centavo." Na semana passada, ele parecia mais convencido a não pagar, dizendo à Reuters que contestaria as acusações "até a morte".

Uma primeira parcela da multa e dos impostos atrasados, no valor de 8 milhões de iuans (R$ 2,2 milhões), vence na terça-feira da semana que vem. Ai precisaria pagar para ter direito à revisão administrativa do caso.

Inicialmente, o artista cogitou usar a casa da mãe dele, de 79 anos, como garantia. Nesta terça-feira, porém, ele disse que a burocracia para isso impediria de fazer o pagamento no prazo. "A lógica é que, se pagarmos, temos uma chance de recorrer. Mas, sabe, o tribunal e todo o Judiciário também se tornam uma subdivisão da polícia", afirmou.

Ai disse que as autoridades não lhe apresentaram provas da suposta evasão, e orientaram o gerente e o contador da Beijing Fake Cultural Development Ltd., a empresa acusada pela evasão, a não se reunirem com ele.

A detenção do artista de 54 anos, que é uma pedra no sapato do governo por causa da sua arte satírica e de suas críticas à China contemporânea, causou indignação nos governos ocidentais. Ele foi solto no final de junho.

Ai disse sentir a responsabilidade de se manifestar, mas, ao mesmo tempo, admitiu que é igualmente perigoso para ele e a família, "porque (o governo) não precisa de pretexto para fazer as coisas".

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