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Protestos de junho de 2013 são tema do documentário "20 Centavos" e inspiram mostras e eventos

Se o Brasil ainda tenta entender o significado e o impacto das manifestações que tomaram as ruas a partir de junho de 2013 e continuam acontecendo em várias cidades, o universo das artes se mostra cada vez mais presente na busca por respostas.

Artistas como Seu Jorge, Tom Zé e Capital Inicial já lançaram músicas influenciadas pelos protestos, que também foram transportados para museus e para as telas.

As manifestações servem de inspiração para mostras no Museu de Arte de Moderna de São Paulo e para a Bienal de Artes  de São Paulo, que começará em setembro, são tema do documentário "20 Centavos" , que será exibido no festival É Tudo Verdade , e ganharam menção no cinema comercial, com imagens da mobilização nas ruas sendo exibidas durante os créditos do filme "Alemão" .

Diante da força e do ineditismo das manifestações, que começaram em protesto ao aumento na tarifa de transporte público em São Paulo, artistas sentiram a necessidade de retratar um acontecimento ainda em curso.

"O Brasil não tem a tradição de fazer filmes durante os momentos de transformação social", afirmou Tiago Tambelli, diretor de "20 Centavos", em entrevista ao iG . "Meu desejo foi fazer um filme dentro do processo, e não após o processo."

Segundo o cineasta, foi a repressão contra manifestantes e jornalistas que o incentivou a documentar os protestos. "O próprio medo me levou para a rua. Se o Estado estava reprimindo o direito de expressão e o trabalho jornalístico, alguma coisa precisava ser feita em termos cinematográficos."

Veja o trailer de "20 Centavos":

Assim como os manifestantes, Tambelli usou o Facebook para reunir um grupo de colaboradores em torno da ideia de filmar os protestos sem um direcionamento preciso sobre o que seria feito com o material. Enviou 50 convites e recebeu a adesão de cerca de 30 profissionais do cinema, entre diretores de fotografia, técnicos de som, produtores e montadores, que fizeram um investimento próprio de R$ 50 mil.

Até 11 equipes saíam às ruas ao mesmo tempo, e o grupo contava também com bases de produção em Brasília e no Rio de Janeiro. As 80 horas de filmagens eram editadas conforme chegavam à produtora de Tambelli, que considerava agilidade um fator fundamental. Em seis meses, o média-metragem de 53 minutos estava pronto.

Pôster da Bienal de SP, que discutirá coletividade e conflito
Divulgação
Pôster da Bienal de SP, que discutirá coletividade e conflito

Nas salas dos museus

O momento de transformação social do País também ecoa nas salas dos museus. Neste ano, a Bienal de São Paulo discutirá "as coisas que não existem", partindo da ideia de que a arte tem a capacidade de tornar visível o que não é visto e desencadear mudanças individuais e coletivas.

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O evento terá obras sobre protestos em Pernambuco e Turquia e trabalhos que refletem sobre a relação entre religião e capitalismo e sobre conflito e resistência.

O Museu de Arte Moderna (MAM) de São Paulo foi pioneiro na abordagem artística dos protestos com a exposição "140 Caracteres", uma seleção de obras de sua própria coleção com o objetivo de discutir a mobilização política por meio das redes sociais - daí o título, uma referência ao Twitter.

Durante a exposição, que ficou em cartaz de 28 de janeiro a 16 de março, visitantes puderam ver máscaras que faziam alusão àquelas usadas nas ruas, obras que formavam paisagens urbanas e trabalhos feitos durante a ditadura militar.

Na próxima segunda-feira (31), o MAM inaugura uma nova mostra inspirada no momento do País: "poder provisório", que fica em cartaz até 15 de junho e discute as relações de poder e hierarquia por meio de 86 fotos.

Convidado a pensar a exposição durante os protestos, o curador Eder Chiodetto visitou o acervo de fotografia do museu e percebeu que muitos temas dos manifestantes já eram foco de artistas nos últimos 50 anos: das desigualdades do capitalismo ao colapso do projeto urbano das metrópoles. Por isso, segundo Chiodetto, a mostra não trata do "aqui-agora" da sociedade brasileira.

Imagem da exposição 140 Caracteres, que esteve em cartaz no MAM SP
Karina Bacci/MAM/Divulgação
Imagem da exposição 140 Caracteres, que esteve em cartaz no MAM SP

"Fui juntando esses trabalhos e, quando os olhei reunidos, me veio a ideia de uma ladainha, um discurso repetitivo que se arrasta no tempo", disse, em entrevista ao iG . "Dentro dessa ideia de 'ladainha' tento mostrar, por meio dos fotógrafos expostos, que essas relações discrepantes de poder e hierarquia se arrastam há muito tempo e eclodem vez por outra em manifestações e violência."

Sem conclusões

Até agora, o retrato artístico das manifestações mais buscou provocar reflexões do que oferecer conclusões claras. É o caso de "20 Centavos", que sem narração em off ou entrevistas, se estrutura como uma colagem de imagens dos protestos, retratando a explosão de violência, a repressão policial, representantes do Movimento Passe Livre e dos black blocks, as divergências internas entre os manifestantes e suas múltiplas reivindicações.

"Durante a montagem fomos tirando as perguntas e respostas e ficando com o material que entrou espontaneamente na câmera: brigas, discursos, tensões", disse Tambelli. "O filme não pergunta, mostra. Fugimos da análise sociológica porque somos cineastas. Gostaríamos que, agora, os sociólogos, cientistas sociais e antropólogos urbanos se debruçassem sobre o filme. Como foi feito dentro do processo, ele não se encerrou ainda."

O cineasta também espera demonstrar que é possível fazer cinema de forma ágil, instantânea e barata, fora do modelo de produção brasileiro, baseado nas leis de incentivo fiscal.

Imagem do filme '20 Centavos'
Divulgação
Imagem do filme '20 Centavos'

"A gente olhava nas ruas e se perguntava: cadê os cineastas de São Paulo? Por que eles não estão na rua? É um crise cultural também, uma falta de iniciativa da própria classe cinematográfica. A gente deveria ter mais coragem e desejo de produzir filmes de pulsão social", afirmou. "Se ficasse esperando financiamento, não ia ter filme. Precisamos atuar de forma independente, com ousadia empresarial, e ir pra campo, mostrar as caras."

Arte ou documento?

Num momento em que o registro pode ser feito por qualquer pessoa munida de câmera ou celular, a mostra "poder provisório" terá tanto obras de fotojornalistas renomados, como Alcir da Silva e Orlando Brito (que registraram momentos históricos como a queda das Torres Gêmeas e o movimento das Diretas), como fotos das manifestações de 2013 feitas pelo coletivo Mídia Ninja.

Chiodetto achou relevante inserir o trabalho de um grupo que, atuando de forma independente, questionou a relação entre imprensa e mercado. "Como vejo o museu como um organismo vivo que pensa a complexidade do mundo contemporâneo, indiquei as obras do Mídia Ninja com a ideia de gerar esse debate", disse Chiodetto.

"Essas imagens são arte ou documento?", questionou. "Agora elas se unem a outras obras incorporadas pelo museu com caráter documental, e com outras de artistas reconhecidos, para formar uma rede mais complexa de pensamento. A ver."

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