Mateus Prado

Educador analisa o Enem, os vestibulares e o ensino brasileiro

Mateus Prado cursou Sociologia e Políticas Públicas na USP. É presidente nacional do Instituto Henfil e autor de livros didáticos. Presta assessoria em Enem

Prova da Fuvest é para quem estuda em escola particular

Primeira fase teve questões de conteúdo médio e difícil e menos interpretação

28/11/2010 23:27

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A primeira fase da Fuvest sempre foi marcada por reunir, na mesma prova, concepções bem diferentes. Algumas áreas apresentavam questões mais interpretativas e outras alternavam conteúdos de dificuldade média e alta - matemática é o último caso. Como sempre, a prova apresenta questões que são praticamente impossíveis de serem resolvidas por alunos de escolas públicas.

Na última reforma do seu vestibular, a Fuvest já vinha dando sinais do que poderia acontecer com sua prova. A segunda fase, que antes permitia que o candidato faltasse em até metade dos dias, simplesmente passou a obrigar o aluno a não zerar em nenhuma das matérias.

Isso pode parecer normal para o leitor, mas não é. Quem conhece a prova de matemática da segunda fase da Fuvest sabe bem que várias pessoas vão até o local do vestibular para não resolver nada. E não são só os cursos com matemática avançada em seus currículos que cobram a disciplina na segunda fase. A prova de matemática significa, para a maioria dos candidatos oriundos de escolas públicas, simplesmente a sua eliminação em um curso que cobre essa matéria na segunda etapa.

Mesmo com estes sinais, é difícil acreditar no que foi a prova de hoje. Chegou ao ponto de trazer uma questão com aqueles antigos testes de “complete a frase”. E por aí foi.

Física, química e matemática continuaram difíceis, um pouco mais que nos vestibulares anteriores. Havia questões em matemática que nem contextualizavam a pergunta e apenas apresentavam a equação para o examinado resolver.

Geografia e português, que antes eram provas com muita interpretação, mudaram radicalmente. Em geografia não bastou analisar gráficos e demais informações, era preciso ter conteúdo acumulado. Em português, a Fuvest até pediu para que o aluno indicasse frases que tivessem o "pretérito perfeito do indicativo", "sinestesia" e "aliteração". Há muito tempo a Fuvest não propunha questões assim.

Literatura, em geral, era cobrada na segunda fase. Neste ano o candidato precisava conhecer bem pelo menos quatro dos livros indicados para leitura. Outros foram citados, mas somente para contextualizar perguntas, sem que houvesse necessidade de conhecimento das obras.

História não deixou muito espaço para análise, foi quase tudo conteúdo. Biologia manteve o modelo de anos anteriores, cobrando conteúdo, mas só o que está no programa do ensino médio. Já inglês merece destaque, porque propôs análise de textos com as respostas em português, como sempre foi e como deve ser.

O novo e polêmico reitor da USP insiste em dizer que a universidade precisa continuar a fazer um vestibular próprio. Rejeita a unificação da seleção das públicas paulistas e, ainda mais, o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Para ele, com o vestibular, a USP consegue definir e localizar claramente o perfil de aluno que deseja e garante que ele tenha vaga na instituição.

Pois então, senhor reitor, por esta prova dá para ter uma idéia do aluno que o senhor quer. Só resolvem bem esta prova alunos oriundos das escolas particulares tradicionais e alunos das poucas escolas públicas que fazem vestibulinho para selecionar alunos. Claro que, sempre passando pela anomalia que são os cursinhos pré-vestibulares em nosso sistema de ensino.

Quem teve de frequentar uma escola pública, mesmo que tenha se dedicado aos estudos e tenha conseguido alguma das poucas vagas em cursinhos gratuitos oferecidos pelas universidades públicas, com certeza ainda terá poucas chances de entrar na USP. Alguns, até agora, podem recorrer aos cursos menos concorridos, em que com menos de 40% de acertos nesta prova conseguem ir para a segunda fase. Mas até esses têm vida curta, pois a universidade já anunciou que a prioridade em sua reforma curricular é eliminar os cursos de menor concorrência.

Para o aluno paulista que fez o possível e o impossível para tentar a tão sonhada vaga em uma universidade pública, os últimos dias foram de muita tensão. E ela não termina hoje. Começou o mês com a bagunça que foi o Enem. Em seguida, fez a boa e racional prova da Unesp. Uma semana depois, fez a Unicamp, que cobrou conteúdos médios em suas questões alternativas e revolucionou, positivamente, com sua proposta de produção de textos. Terminou a maratona da primeira fase hoje, em um domingo de muito sol e calor, com uma prova conteudista e dedicada a duas dezenas de colégios particulares tradicionais e aos sistemas de ensino que impedem que o ensino médio tenha projetos pedagógicos. Pela frente, este aluno ainda tem a espera pelos resultados e as provas de segunda fase.

Cabem as perguntas: merece o estudante paulista sofrer quatro semanas seguidas e mais segundas fases para entrar na universidade? Não teria passado da hora de as estaduais paulistas unificarem seus vestibulares?

Sobre o articulista

Mateus Prado - mateusprado@usp.br - Mateus Prado cursou Sociologia e Políticas Públicas na USP. É presidente nacional do Instituto Henfil e autor de livros didáticos. Presta assessoria em Enem

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    60 Comentários |

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    • Duilio Felix | 04/12/2010 21:46

      Acho que este artigo (assim como todos os outros que criticam universidades difíceis de entrar) apresenta uma visão no mínimo simplista. Por que vocês acham que as universidades deve rebaixar seu nível de ensino ou a qualidade de seus alunos apenas para contribuir com a "inclusão social"? Quem colaca a culpa na universidade e nas escolas particulares não sabe o quanto os alunos que estão na universidade se esforçaram para estar lá e nem o quanto os alunos de escola particular se esforçam também.

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    • Cristiano | 02/12/2010 10:17

      Acho que o ponto de vista do texto é fraco, além de usar argumentos podres e que já foram debatidos em outros lugares.
      A USP jamais deverá abaixar seu nível de admissão de alunos só por que o nível do país é abaixo do absurdo. A fuvest está de parabéns, prova muito bem elaborado, feita para filtrar quem vai trazer algo de bom e útil para a tecnologia e desenvolvimento tecnologico, social e ambiental do nosso país.
      Alunos de escola pública não estão preparados por outros motivos, sociais talvez, mais não porque a prova esta dificil demais. Antes de criticas a fuvest, vote direito. Critique o politico, não a USP, que só segura o titulo de melhor faculdade da Am. Latina graças ao que vocês criticam.

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    • Carolina | 02/12/2010 02:41

      Realmente a questão é melhorar o ensino e não baixar o nível de dificuldade da prova, porque isso certamente comprometeria a qualidade do ensino que a USP proporciona.
      Para quem não sabe a USP esteve durante muitos anos entre as 100 melhores universidades do mundo, hoje ela não ocupa nem o 120º lugar, isso porque expandiram enormemente o número de vagas...O atual reitor, que vem sendo largamente criticado, está apenas tentando resgatar o lugar que um dia foi da USP. E é óbvio que para isso os ingressantes têm que ser bem selecionados. Mais do que simplismente criar vagas, a USP tem que continuar primando pela sua qualidade de ensino.
      Aqueles que se sentem despreparados, devem lutar pela melhoria de ensino, devem protestar!!
      Também sou aluna USP e esta é minha humilde opinião.

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    • bruna | 01/12/2010 14:32

      li o artigo, e é um absurdo isso,que a fuvest é so pra quem estuda em escola particular... sempre estudei em escola pública e hoje estudo na USP.. sera que realmente é para quem estuda em escola particular???

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      Juliana | 06/12/2010 10:33

      Olá ! Por acaso você realmente conhece o ensino publico estadual de São Paulo? As dificuldades são muito grandes, não para aqueles que vão para escola por ir, mas para alunos que sonham com uma vaga na universidade! É hipocresia dizer uma coisa dessas, a FUVEST seleciona os melhores, mas para ser o melhor precisa ter um ensino de qualidade, e posso te garantir que a maioria das escolas públicas não tem estrutura para isso!

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      Roberto | 04/12/2010 12:00

      Bruna, isso é piada sua né...Vc é uma pessoa em universo de sei quantos estudantes de escola pública...Falta de conhecimento da realidade do país...Não é porque vc não passa fome que não exista miséria ! A realidade é que o ensino no país está na UTI...!

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      Fabiano | 02/12/2010 12:44

      Cara Bruna, para ficar claro:
      Qual a qualidade da escola publica que vc fez? Em que bairro/cidade?
      Fez Cursinho? quantos anos?
      Estuda na USP em uma carreira concorrida? Quantos por vaga?
      A Fuvest foi reformulada em 2009, vc acha q passaria na prova com é hj?

      Obrigado

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    • Flávia | 01/12/2010 11:39

      Realmente, Fuvest é uma coisa muito arcaica. Como se já não bastasse uma prova longa e cansativa na 1ª fase, o vestibulando mal tem tempo para as festas de fim de ano, que provavelmente, passará com a cara enfiada nos livros. Falo isso por experiência própria. Não se pode respirar aliviado depois da 1ª fase, nao se pode comemorar porque passou na 1ª fase... porque ainda tem um batalhão de provas pela frente. Admito que na 2ª fase de matemática eu nao fui para PONTUAR, e sim para NÃO ZERAR! Isso porque fui aluna de escola particular e fiz cursinho!
      Long story short, demorou pra mudar esse sistema. Pra melhor.

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    • Monique | 30/11/2010 21:52

      Finalmente eu leio um artigo coerente com o drama que nós, alunos de escolas públicas passamos. Parece que as pessoas simplesmente preferem 'tapar o sol com a peneira' e dizer que está tudo bem, que o Inclusp está aí para nos ajudar. Mas não é bem assim, passei o meu ensino médio sem professores de matemática, química e física, e não há exagero nenhum nessa frase, o SEM é literal. Ano passado me esforcei para conciliar estudos próprios com os estudos da minha escola que eram muito fracos e consegui ir para a segunda fase em administração, matemática como voce disse, acabou decretando minha eliminação. Enfim esse ano fiz cursinho, mas o que muitos não sabem é que o cursinho é voltado para quem tem um conhecimento base, é mais uma revisão do que um aprendizado, mesmo o extensivo, não há como competir com quem tem conhecimento acumulado por anos com alguém que em um ano tem que se submeter a tudo e aprender tudo. De repente surgem casos esparsos de alunos de escola pública que entram em medicina, isso é pura raridade, um em 200000. É lamentável, uma faculdade gratuita deveria ser para aqueles que não tem condições, mas como tudo no Brasil favorece a elite, não poderia ser diferente.

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    • Renato | 30/11/2010 21:31

      Bom,creio q o motivo desse debate está relacionado com o último vestibular da fuvest que mostrou se realemente incapacitado de avaliar o candid¿ato com questões de alto nível e grande conhecimento específico, privilegiando candidatos que tiveram um ensino melhor, ou em muitos caso mais conteudístas e pelo o que eu vejo não é o perfil que a unversidade deseja.
      Tenho 23 anos prestei usp pela quarta vez para o curso de adm em Ribeirão Preto e no dia da prova me senti um burro com a pontos que obtive 45 muito menor comparado com o ano passado! 58!!!!!!
      sei la talvez pelo o não uso do enem esse ano!! eles quiseram mostrar mais servissssoooo

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