Mateus Prado

Educador analisa o Enem, os vestibulares e o ensino brasileiro

Mateus Prado cursou Sociologia e Políticas Públicas na USP. É presidente nacional do Instituto Henfil e autor de livros didáticos. Presta assessoria em Enem

Parecia que não tinha como ficar pior

Problemas na correção das provas do Enem pioraram o que já estava ruim

15/01/2011 15:34

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Parecia que o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2010 não tinha como ficar pior, mas o Ministério da Educação (MEC) e as instituições responsáveis pela aplicação e correção das provas conseguiram fazer isto. O desrespeito aos direitos individuais seguem, e agora mais candidatos sofreram danos irreparáveis.

Desta vez, o grande problema foi a correção das provas de redação. Esta coluna, do iG Educação, já tinha adiantado que os critérios e métodos de correção da redação no Enem não são claros e objetivos. São extremamente injustos. Cerca de 3 milhões de textos passam por corretores. Eles recebem muito poder para exercer a subjetividade. São milhares os corretores. Cada aluno teve de, além de fazer uma boa redação, contar com a sorte de seu texto 'cair' nas mãos de um professor benevolente.

Os depoimentos dos alunos, pelo Brasil afora, demonstram que as notas não reproduziram, necessariamente, as capacidades argumentativas dos candidatos. Muitos alunos que, por exemplo, foram bem avaliados em vestibulares tiveram, na nota de redação do Enem, uma nota bem abaixo do razoável. O contrário também aconteceu. Alunos que não estão acostumados à produção textual receberam notas acima de 750, uma avaliação pessoal extremamente positiva se considerarmos as notas médias neste item.

Não questiono as notas altas. Certamente, nestes textos há motivos suficientes para justificar estas notas, ou até maiores. O que questiono são as baixas. É bem verdade que a gritaria geral em relação à nota inclui alunos que fizeram textos pífios e que uma nota maior não encontraria nenhum elemento de justificação. Considero esta possibilidade nas conversas que venho tendo com vários alunos e profissionais da educação desde a publicação dos resultados do exame de 2010. Mas já tenho claro que injustiças, e muitas, foram cometidas.

Estou convicto de que bons textos passaram por alguns corretores um pouco mais exigentes e pontuaram entre 400 e 700, nota que pode atrapalhar o aluno a conquistar sua vaga na universidade. Já é difícil , com os métodos de correção utilizados pelo MEC, apontar a diferença entre uma nota 600 e uma 800. Um dos livros mais vendidos no Brasil e no mundo no último ano foi "O Andar do Bêbado". Em uma das passagens o autor mostra, com dados de pesquisas, como são autoritárias as notas dos professores quando dadas de forma subjetiva. O próprio autor, sendo um dos maiores intelectuais do mundo, passou por uma situação em que fez, um pouco que involuntariamente, o texto do trabalho escolar de seu filho. A nota que o filho recebeu, na redação produzida pelo pai, foi muito menor do que o esperado para o trabalho de um dos maiores e mais respeitados intelectuais da atualidade.

Uma mesma redação, mesmo que avaliada pela mesma pessoa, terá notas diferentes em diferentes correções. Quando este corretor é outro, a diferença de avaliação certamente será maior. Um profissional que corrige há anos redações de vestibulares tradicionais como o da Fuvest e um corretor que está habituado a trabalhar com alunos de escolas públicas, e com suas naturais dificuldades, avaliam de forma diferente os textos. No Enem tem corretores com estes e com centenas de outros perfis.

O problema é ampliado por que o Enem não faz o que é óbvio e ululante. Os critérios de correção precisam ser mais racionais. Pode o Enem, por exemplo, indicar dez itens que precisam ser verificados na redação. Ao corretor caberia somente indicar se o item foi, ou não, minimamente, cumprido. A nota seria dada pelo leitor do cartão de correção, e não pelo professor. Isto é fundamental, por que o ENEM precisa avaliar a qualidade do Ensino Médio e se o aluno tem capacidade de frequentar, com relativo sucesso, os bancos das escolas superiores públicas. Não cabe ao Enem encontrar mais um Jorge Amado, Guimarães Rosa ou Drummond.

Redações anuladas

Quem teve o azar de receber a nota de corretores um pouco mais exigentes terá sua nota média prejudicada e encontrará mais dificuldades de ser selecionado pelo Sistema de Seleção Unificada (SiSU). Mas o problema é ainda maior. O Enem simplesmente anulou a redação de milhares e milhares de alunos. O MEC ainda não divulgou o número, e acho pouco provável que tenha a coragem de fazê-lo, mas o número de redações zeradas é significativo. Acredito que chega à casa dos centenas de milhares.

Dentre os alunos que tiveram suas redações anuladas, há muitos que a fizeram corretamente e que cumpriram com o que foi pedido na prova. Receber um zero na redação significa que o candidato está impedido de concorrer a uma vaga no SiSU e no Prouni. É isto, a pessoa colocou todo seu ano de expectativa em uma prova para poder entrar no Ensino Superior e um erro absurdo do MEC, e do consórcio responsável pela prova, vai simplesmente impedir o aluno de concorrer a uma vaga em uma Universidade Pública ou a uma bolsa em uma Universidade Particular.

Zerar uma redação, que tem 1.000 como nota máxima, só é justificável se o texto for milhares de vezes pior do que o pior texto que qualquer um de nós tenhamos lido na vida. As orientações do Enem são claras. O único motivo para uma redação não ser corrigida é ela ter menos de 7 linhas. O único motivo para ser anulada é ela não obedecer ao eixo cognitivo ético. Duvido que tantas pessoas fizeram a defesa do trabalho escravo, o que poderia anular a redação.

Para compararmos, a pior nota de Matemática e suas Tecnologias foi 313. Esta nota foi dada para o aluno que não sabe nada, que não resolveu nada da prova. Este não estará impedido de concorrer no SiSU e no Prouni. Agora, os milhares que constituem os novos injustiçados pelo Enem, que tiveram sua redações zeradas, não podem concorrer e não possuem à sua disposição nenhum canal que possa resolver seu problema. Faço mais uma vez um pedido ao MEC. Por favor, me ajudem a defender o Enem. Um exame como este tem muitos adversários, inconformados com a possibilidade de mudanças no Ensino Superior e no Ensino Médio brasileiro. Hoje, todos estes adversários juntos não fazem no Enem 10% do estrago que o MEC tem feito. O Enem precisa dar certo, pelo bem da educação brasileira. Pô, MEC, dá um tempo.

Sobre o articulista

Mateus Prado - mateusprado@usp.br - Mateus Prado cursou Sociologia e Políticas Públicas na USP. É presidente nacional do Instituto Henfil e autor de livros didáticos. Presta assessoria em Enem

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    171 Comentários |

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    • Rogerio Alexandre Garcia | 28/01/2011 08:23

      Precisamos nos unir para entrarmos com ações contra o MEC e pressionnarmos de todas as formas pois e muito injusto a forma de correções ja e 4 vez que faço o ENEM e sempre tive media acima 600 em redação e agora minha nota foi 250, quero que isso seja revisto.

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    • Úrsula | 23/01/2011 16:41

      Não precisa ser um gênio para perceber que muitos estudantes foram injustiçados em relação à correção de suas redações. Basta observar alguns comentários aqui para notar que muita gente se articula bem através da escrita. Eu ainda estou tentando compreender como o MEC conseguiu fazer com que o Enem 2010 fosse pior que o 2009.

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    • Mayron Henrique F. Moreira | 20/01/2011 18:16

      Ótimo texto.Infelizmente não pude fazer meu cadastro no SiSU e agora já terminou o prazo.Simples assim, um ano da minha vida jogado no lixo.Não consigo expressar com palavras a minha indignação.Obrigado pelo espaço.

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    • Laís | 20/01/2011 13:58

      Sou uma pessoa, assim como você, que acredita no ENEM. Quando tive acesso a minha nota na terça-feira, tomei um susto quando vi "redação anulada". De qualquer forma, não pensei que fosse uma arbitrariedade de quem a corrigiu e sim, um erro no sistema, de passagem de nota, etc. Liguei pra o 0800 que todos já devem ter decorado de tanto ligar, mas a ligação nunca tinha sucesso. Tentei email, twitter, site no "fale conosco" do Inep, etc e hoje minha despreocupação em achar que foi apenas um erro e ficar tranquila que uma ligação resolveria tudo, está dando lugar a uma tremenda dor de cabeça. Hoje é o último dia do SISU e ainda não consegui falar com alguém responsável sobre esse assunto. Nenhuma resposta. Quero continuar acreditando no ENEM. Sei que sou minoria e tem muitos felizes, com sorriso no rosto, vendo a possibilidade de entrar em uma universidade. Mas mesmo como minoria, esse erro não é irremediável. Por mais que tenha me trazido preocupações, está na mão dos responsáveis resolverem isso. É questão de humildade pra reconhecer o erro e reavaliar a situação. Ah... E hoje ao tentar logar no resultado do ENEM, diz que CPF, senha ou número de inscrição está inválido. É brincadeira?

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    • Gabriel hidasy | 20/01/2011 03:21

      O meu caso foi o de uma dessas notas abaixo do esperado, a anos faço redações para vários corretores com medidas sempre superiores a 7, com frequentes notas máximas, nos vestibulares que realizei (unicamp, uff e uerj por exemplo) tive média 8, no enem 550, por um texto (levei o rascunho que foi igual a prova) que outros corretores, que conhecem os critérios do enem avaliaram como 850!

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    • Henrique Oliveira | 20/01/2011 00:06

      Ano passado tirei 875 por uma redação nem tão boa. Mas esse ano, fiquei com 650 por uma redação que me esmerei pra fazer e não entendo, após relê-la, como pude tirar nota tão baixa. Meu curso é muito concorrido e essa nota acabou com minhas chances, sendo q nas objetivas fiquei com média maior do que esta da redação. O pior de tudo, é q a universidade federal do meu estado, para a qual prestei vestibular, utiliza o enem como parte da nota... o que anulou todas as minhas chances mesmo eu tendo ido bem na prova. Uma decepção completa, nem em todos os anos de escola fui tão mal avaliado.

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    • Katia | 19/01/2011 21:17

      Lamentável. Minha redação foi umas das mais de 13 mil redações do enem que foram anuladas (segundo o que acabou de passar no noticiário da globo).
      Enviei um e-mail para o MEC, solicitando uma explicação do que houve para anularem a minha redação. A resposta do MEC foi a seguinte: O Edital nº 01 de 18 de junho de 2010 estabelece que: Item 7.1.4.2 "A redação que não atender à proposta solicitada, no que diz respeito ao tema e tipologia textual, será ''desconsiderada''; Item 7.1.4.3 Folha de redação sem texto escrito e redação com até 7 (sete) linhas, qualquer que seja o conteúdo, será considerada ''em branco''; Item 7.1.4.4 Folha de redação com texto fora do espaço delimitado, impropérios, desenhos, outras formas propositais de anulação e/ou rasuras, será considerada ''anulada.''
      Em resumo, continuo não sabendo o motivo pelo qual anularam a minha redação.
      Além de anularem a redação ainda nos tiram a oportunidade de concorrer as vagas do SISU, será que isso é justo?
      Ao menos deveriam dar alguma explicação para nós candidatos que tivemos nossas redações anuladas. Deveriam falar o motivo específico, explicando ao candidato o porque de sua redação ter sido anulada. Não é justo ficarmos sem ao menos ter acesso a esta informação que para nós é de suma importância.

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    • Rui Junior | 19/01/2011 20:09

      Sou mais um, como vários aqui, ROUBADO mais uma vez por este Enem. Meu cursinho goza de boa reputação em todo país, tendoficado entre os 5 melhores colocados en nível nacional, pelo Enem 2009.

      Pois bem, redação é levado a sério por aqui, a ponto de obrigarem os alunos a fazerem uma dissertação, no mínimo, por semana. Além das aulas e oficinas que abordam o assunto. Tal conduta gerou resultados: na grande maioria dos vestibulares que preste neste fim de ano tive notas quase máximas. Pois bem, quando acesso o meu boletim do ENEM 2010 para verificar minha nota de redação, que eu dei total ênfase no momento que fazia o exame, justamente por saber de sua importância, me deparo com um injusto 650. Mais uma vez, roubado. Palhaçada. O texto do Matheus Prado não poderia ser mais esclarecedor sobre o problema, simplismente, o que estão querendo fazer, uma redação em nível nacional, corrigida de forma subjetiva, é uma tarefa IMPOSSÍVEL. E optar por este caminho é atestar a falta de capacidade e dissernimento dos responsáveis pelo exame, INEP.

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    • Fábio | 19/01/2011 17:28

      Minha redação também foi anulada e não sei qual o critério que o MEC usou para essa anulação gostaria realmente de saber, pois devido a isso não pude me inscrever no sisu e perdi a grande oportunidade de entrar em uma universidade pública. Isso é um erro totalmente grotesco.

      Fabio

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    • ADILSON | 19/01/2011 16:57

      Sou pai de um aluno que se submeteu a esse leilão de vagas nas universidades federais e estou muito revoltado. Meu filho era um dos melhores alunos de redação, seus textos eram elogiados e para minha supresa ficou com 550 pontos na redação. Deve haver uma ampla discussão sobre o futuro do ENEM, pois aqui em Fortaleza os alunos locais ficarão sem vaga na UFC-CE e meu filho terá um ano perdido, pois o correto era de que a primeira opção não poderia ser mudada. Ele conseguiu passar em Arquitetura na UNIFOR e terei que me submeter a pagamentos exorbitantes cobrados pelas universidades particulares, que serão as maiores beneficiadas com essa confusão no ENEM.

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