Mateus Prado

Educador analisa o Enem, os vestibulares e o ensino brasileiro

Mateus Prado cursou Sociologia e Políticas Públicas na USP. É presidente nacional do Instituto Henfil e autor de livros didáticos. Presta assessoria em Enem

Não foi a Fuvest de sempre

Nota de corte caiu porque a prova foi mais difícil e parte do conteúdo da 1ª fase só é visto em escolas tradicionais particulares

13/12/2010 19:34

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Como eu já havia previsto nesta coluna do IG Educação, as notas de corte da Fuvest 2011 caíram. A prova foi mais difícil, a concorrência diminuiu e as questões pareciam estar ali para selecionar somente para os cursos mais tradicionais e escolher um tipo bem específico de aluno. Era muito fácil prever que a nota de corte iria cair.

Posso dizer que, hoje, estão extremamente satisfeitas cerca de duas dezenas de escolas particulares tradicionais do Estado de São Paulo, por que a prova deste ano, mais do que nunca, foi feita quase que por encomenda para elas. Muitas das questões propostas pela prova tinham conteúdos que só são vistos nestes colégios. As outras milhares de escolas não chegam a esses conteúdos, e na verdade nem precisam chegar. Também devem estar satisfeitos os sistemas de ensino, que, em sua maioria, enchem os currículos de conteúdos e decorebas e impedem que o professor possa de fato ser um educador.

Notem que mais de 10 cursos tiveram 22 acertos como nota de corte. Para entender melhor o que isso significa, um aluno que soubesse resolver corretamente só sete das 89 questões e marcasse todas as demais em uma única alternativa teria uma nota maior que 22.

O que acontece é que boa parte de quem vai estudar na USP no próximo ano teve nota menor que 40% da prova na Fuvest (menos de 36 pontos). Isso mostra que alguns dos alunos que fazem a USP não são capazes de permanecer na vida universitária? A resposta é não. Do jeito que é o vestibular da USP, e neste ano mais que nos outros, ele não seleciona aqueles que são mais capazes de ter sucesso no ensino superior. Vários futuros alunos com nota baixa no vestibular de primeira fase que serão ótimos profissionais e um monte de alunos com nota alta que serão péssimos profissionais.

Isso acontece por que não há, hoje, nenhuma relação direta entre acertar questões conteudistas e ter a capacidade de compreender fenômenos, resolver problemas, fazer e implementar um projeto de vida e conviver de forma ética valorizando as diferenças e a diversidade.

O vestibular, por si só, é excludente. Ele parte da lógica de que existem mais candidatos do que vagas e por isto é necessário selecionar. A USP deste ano reforçou a função de ser, além de excludente, elitista.
Quando se escolhem as questões que estarão em uma prova, se escolhe o perfil de aluno que quer que entre na instituição. Que fique claro, isso não é somente a minha opinião. É o que tem dito o reitor da USP em suas entrevistas. Ou seja, a prova mais difícil, com suas questões conteudistas, não foi mera coincidência. Isso foi feito de forma planejada e articulada, para que o reitor encontrasse exatamente o aluno que ele quer.

Se o reitor quisesse alunos que conseguem conviver no ambiente universitário, não precisava fazer uma prova absurda como foi essa última da Fuvest. É muito mais importante saber as capacidades cognitivas, a resiliência - capacidade do indivíduo de lidar com problemas, superar obstáculos ou resistir à pressão de situações adversas - e a formação ética do candidato do que descobrir se ele sabe o que é "aliteração", "sinestesia" ou o "pretérito perfeito do indicativo".

Alguma coisa precisa ser feita para a USP se democratizar. O caminho, daquela que se orgulha de ser a melhor universidade da America Latina, tem sido o contrário. O vestibular, como vimos, foi totalmente contrário às reformas que os demais vestibulares do Brasil têm feito e extremamente distante do que há de mais moderno na educação. Foi feito para alguns colégios particulares e para as grandes redes de cursinhos.

Os poucos alunos da rede pública que furam este bloqueio já estão ameaçados, pois o reitor anunciou seu desejo de acabar com os cursos de menor concorrência. E para piorar, apesar de o orçamento da USP aumentar todos os anos (devido à vinculação orçamentária, que dá 9,57% do ICMS para as universidades públicas estaduais), o número de vagas na USP não aumenta na mesma proporção.

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Mateus Prado - mateusprado@usp.br - Mateus Prado cursou Sociologia e Políticas Públicas na USP. É presidente nacional do Instituto Henfil e autor de livros didáticos. Presta assessoria em Enem

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    38 Comentários |

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    • Pagano | 13/01/2011 19:39

      Você defeca pela boca direto.

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    • Marcos Vinicius Gomes | 13/01/2011 13:36

      Os próprios comentários dão respaldo para o autor do artigo. Não há o que contestar no texto. Alguns vem aqui falando de 'pedagogia populista' (uma mente elitista, suponho, que aprecia elevadores de serviço para empregadas domésticas), outros falam em algo que nem compreendem nem tem capacidade para distinguir - como por exemplo o fato de a prova ter aplicado 'gramática normativa', algo que a própria USP não ensina mais!

      O nível dos comentários que beiram o 'ad hominem' são o reflexo dessa educação que se elitiza cada vez mais, hiperespecializada num mundo onde a visão transdisciplinar é necessária para que se compreenda os fenômenos científicos, a filosofia, a vida social.

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    • Cecilia Leal | 11/01/2011 21:18

      Não acredito que democratizar a mediocridade seja uma boa idéia. Quem não conseguiu fazer 50% da primeira fase podeaté ter ética ou cidadania..(ou nem saber o que é isso); mas vai ser mais um funcionário que espera o expediente acabar do lado do ponto.
      Estudei em escola pública, numa época em que não era obrigado estudar. Os professores eram respeitados, havia até expulsão.
      Hoje para ter algo parecido pago escola para meus filhos (3). Além de 27% de imposto de renda.
      Gostaria que meus netos tivessem oportunidade de estudar numa escola conteudista. Almejassem a excelência. Trabalhassem com qualidade. Fizessem a diferença.
      Que bom seria se todas escolas públicas fossem iguais a algumas particulares.
      Isso é igualdade de oportunidades.
      Que bom seria que todos hospitais fossem iguais a alguns poucos.
      Um dia todos esses profissionais vão estar no mercado fazendo menos que 50% do necessário.

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    • Fernanda Moura | 11/01/2011 18:22

      Eu, vestibulanda visando o Largo de São Francisco, que acabo de chegar do 3º e - graças a Deus - último dia de prova da Fuvest, preciso lhe dar os parabéns por uma análise tão crítica e atual. Sou do interior e estudei em uma escola boa, mas longe de poder comparar-se às escolas tradicionais das grandes cidades. E esse ano fiz cursinho em uma dessas grandes redes pré-vestibulares. Com as duas experiências, sou a prova de que tudo o que você disse é verdade. Toda a matéria e o jeito como ela é exposta foi o cursinho quem me ensinou e, se eu não tivesse condições financeiras para bancar a moradia de São Paulo e a mensalidade do cursinho, eu estaria fora. Não por falta de vontade de estudar, não por incompetência, simplesmente pq o vestibular da Usp É excludente e, de interdisciplinar, só tem o discurso.
      Obs: Rômulo, eu concordo que a Fuvest deve ser difícil. Com o perdão da falta de modéstia, eu não a achei difícil. Mas só tive esse desempenho por causa das minhas oportunidades. A questão não é a profundidade da matéria, é a forma como ela é cobrada.

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    • Danilo | 28/12/2010 16:28

      Li alguns comentários desta matéria e tenho de concordar com suas críticas. Creio que os resultados na vida acadêmica e profissional são a mescla de empenho e desenvolvimento de nossas capacidades. Discordo que o Enem seja uma prova democrática, a prova de matemática é extensa demais até para pessoas como eu que tem bastante facilidade, as questões em geral são pouco claras e por mais que se saiba a matéria respondesse muito mais intuitivamente do que seguro.
      Estudei em uma boa escola pública, um colégio de aplicação, onde se valoriza bastante a capacidade de raciocínio e a compreensão do contexto sócio-ambiental, muitas vezes em detrimento do "conteudismo", participei de movimentos sociais e organizações estudantis. Isso não me impediu de ser aprovado para a segunda fase da fuvest com alguns pontos sobrando para uma das carreiras de maior nota de corte,C. S. do Audiovisual, acertando mais de 70% da prova, mesmo após 3 anos em outra universidade e tendo menos de um mês para revisar conteúdo.
      A prova de física e de matematica, pareceram exemplares para mim. A primeira foi de natureza bastante teórica privilegiando a compreensão do aluno sem utilizar os conteúdos da segunda e tampouco entregando tudo de mão beijada. Matemático exigiu a um só tempo conteúdo e raciocínio, pela natural dificuldade da prova parte mais difícil de uma das provas mais difíceis do país.
      Gostaria de dizer que a prova é e tem de ser difícil para melhor selecionar candidatos (diferente do enem), mas que é sempre difícil para todos. Acredito que existem pessoas com mais facilidade com decorar conteúdos e outros com compreende-los e desenvolve-los, mas que ambas ambas habilidades são importantes. Cada qual conhecendo suas facilidades e dificuldades deve buscar superar-se utilizando de empenho e estratégia.
      Acredito que é importante para o aluno fazer uma prova difícil, mas clara para que ele possa reconhecer suas dificuldades ao faze-la, para que possa se preparar adequadamente e, então, ver o resultado do seus esforços. Não vejo isso no e em e acredito que seja o que de grande credibilidade a fuvest.
      Não acredito que alguém, sem capacidade de relacionar conteúdos de compreender o o mundo, de raciocinar será capaz de ser aprovado em uma segunda faze discursiva tão completa como a da fuvest.

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    • José Victor | 27/12/2010 22:07

      A prova da FUVEST facilitando para os alunos de escolas particulares não é nenhuma novidade... Desde de que me conheço por gente para entrar em uma Universidade Pública acontece uma inversão, pois os que sempre estudaram em instituições públicas dificilmente consiguirá adentrar nela, enquanto os alunos de escolas particulares tem "acesso livre" a uma educação que também é paga pelos pobres...
      Desde os 6 meses frequentei instituições públicas e me orgulho por isso!!!!!

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    • Arthur | 20/12/2010 19:58

      Tudo bem, vestibular é injusto. Agora qual é a solução? Diminuir a dificulade da prova não ia mudar nada! Pense: alguem que tiraria 30, vai tirar 50. Aí um "filhinho de papai" que faria 60 faz 75. A nota de corte sobe, a final as vagas são as mesmas! Quem não sabe continua sem passar. Aquele aluno que sabe "materia só de cursinho e escola particular" sabe bem mais dos outros temas do que um que não sabe. Resultado: quem vai entrar vai ser a elite! Crie mais vagas em universidades públicas e melhore o ensino das escolas públicas e a elitização será diminuida.

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    • Daniel | 20/12/2010 18:31

      Caro colunista Mateus Prado,
      de uma olhada em todos os comentários descordantes que estás recebendo. Assim como, estes também tenho que descordar de sua opnião. O problema do Brasil é um ensino público de baixíssima qualidade, além da falta de vagas no ensino superior como tu mesmo falaste. Não adianta jogar a culpa de todo o ensino público em UM vestubular, ao fazeres isso estas desmerecendo o mérito de todos aqueles que passaram, sendo estes de escolas públicas ou privadas.
      Como estudante de escola particular, uma das três melhores de São Paulo, devo dizer que nem todos meus amigos foram aprovados, inclusive alguns daqueles que já pareciam ter vaga garantida. Pesquise mais e verás que estás equivocado.

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    • Aline Neves Nakayama | 17/12/2010 01:22

      Creio eu que sou um "corpo estranho" na FUVEST então! Desde o pré, estudei em escola pública - Fundamental em Municipal e Médio em Estadual. Terminei o Médio em 2004 e desde então (6 anos), havia aposentado todo o material de escola, nunca mais olhei. Fui pra Fuvest sem fazer cursinho, sem revisar matéria... só mesmo com conteúdo guardado na memória e consegui 39, alguma coisa de pontos.
      Quando vi a prova, não acreditei! Pois todo o conteúdo cobrado eu já tinha visto sim nos tempos de escola, lembrando que, eram escolas públicas.
      Fiz a prova tranquila, mas com peso na consciência de não ter revisado o material antigo, pois a nota seria bem mais alta sem dúvida alguma.
      O ensino pode sim ter piorado de 6 anos pra cá, mas o que caiu na Fuvest, dava sim pra qualquer aluno, esforçado, com vontade de entrar na USP, estudar por conta e mandar bem na prova.
      Não achei um vestibular elitista, excludente. Até me assusta ver que passei tantos anos sem estudar e passei na primeira fase da versão mais difícil da Fuvest, não dá pra acreditar!

      Acho que, o esforço vale a pena em provas como esta. Classificar a prova e proteger "as vítimas" do ensino público não está certo. Quem realmente quer a vaga, consegue!

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      Marina | 22/12/2010 12:43

      Concordo plenamente!

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