Mateus Prado

Educador analisa o Enem, os vestibulares e o ensino brasileiro

Mateus Prado cursou Sociologia e Políticas Públicas na USP. É presidente nacional do Instituto Henfil e autor de livros didáticos. Presta assessoria em Enem

Conflitos na USP vão além da presença da polícia no câmpus

Reação de alunos representa série de insatisfações em relação à gestão do atual reitor da universidade

09/11/2011 20:03

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Os conflitos da Universidade de São Paulo (USP) não têm sua origem na tentativa de prisão de alguns jovens que faziam uso de maconha no câmpus. A origem é anterior. A reação à prisão desses alunos e a forma como ela se deu foi mais uma faísca no barril de pólvora que está formado na universidade. Como pano de fundo estão várias concepções de universidade que convivem dentro da USP e a atrapalhada imposição, nunca vista antes na instituição, de um modelo pelo seu atual reitor.

Leia também: Estudantes em greve pedem outro projeto de segurança na USP

É importante entendermos um pouco de como se formou a USP e de onde vem o espírito combativo e contestador de alguns de seus alunos, sobretudo dos da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). A USP foi criada na década de 30, como reação à derrota paulista na Revolução Constitucionalista. A FFLCH, antes FFLC, foi a condutora do projeto da USP. Entre os objetivos estava a formulação de um novo ideário político para o Brasil e a volta dos paulistas ao comando do governo federal. 

A reação à presença da polícia no câmpus iria acontecer a qualquer momento e representa mais do que a discordância de alguns em relação ao policiamento. É a canalização de todas as insatisfações com uma administração que só prejudica a USP e a sociedade

Entre as estratégias estava a criação de um ambiente participativo, inovador, contestador, de interação entre pessoas e pensamentos, tudo em contraposição ao que foi a repressão à Revolução de 32, que queria uma Constituição para o País. Foi esse ambiente que atraiu e/ou forjou, por várias gerações, uma juventude contestadora e participativa para a FFLCH.

A eleição para reitor na USP não é das mais democráticas. Pouquíssimas pessoas da universidade têm o privilégio de poder votar no colégio eleitoral que indica uma lista tríplice para o governador do Estado. Não bastasse a falta de representatividade e legitimidade desse processo, o atual reitor foi nomeado mesmo sendo o segundo colocado de sua eleição. Isso só tinha acontecido no período militar. O que não era bom ficou pior.

Em sua administração, João Grandino Rodas se mostrou um verdadeiro trapalhão. Já acumulava problemas de sua antiga gestão, como diretor da Faculdade de Direito da USP. Como reitor, trabalhou pela diminuição de vagas na universidade, fez do vestibular um modelo ainda mais elitista que o anterior, comprou imóveis e vagas de estacionamento em condomínios de luxo. Rodas inaugurou uma verdadeira 'caça às bruxas' contra adversários de sua gestão, abrindo vários processos administrativos contra alunos e funcionários. Nomeou parentes de antigos adversários para cargos na universidade, mesmo sem eles terem toda a capacitação necessária para exercê-los. Em 2007 recebeu a medalha de mérito Marechal Castello Branco, que faz alusão ao primeiro presidente da ditadura militar. A Faculdade de Direito da USP concedeu-lhe o título inédito de 'persona non grata'.

Por essas e outras ações de sua administração, Rodas tem enfrentado críticas e denúncias dentro e fora da universidade. O que, para quem está fora, fica no campo do debate de ideias, para quem está dentro da USP, sobretudo na FFLCH, é vivenciado dia após dia. A reação à presença da polícia no câmpus iria acontecer a qualquer momento e representa mais do que a discordância de alguns em relação ao policiamento. É a canalização de todas as insatisfações com uma administração que só prejudica a USP e a sociedade, sob todos os aspectos, mas principalmente sobe o aspecto de tentar deixar a universidade cada vez mais distante das populações mais pobres e carentes de intervenções públicas. 

A única coisa que é apontada pela maior parte da sociedade é um grupo de burguesinhos insatisfeitos por não poderem fumar maconha. Não deveria ser esse o debate. A verdade é que a gestão do reitor é predatória e suas consequências são milhares de vezes mais letais do que alguns móveis quebrados, paredes pichadas e portas arrombadas

Se está certo que toda pessoa flagrada fumando maconha deve ser abordada pela polícia, também está errada a forma de abordagem. Os alunos da USP não têm nenhuma obrigação de aceitar a truculência e a desproporcionalidade com que foi tratado o caso pela polícia e pela reitoria. Assim como a sociedade também não pode aceitar, em qualquer outro lugar do País, que as instituições públicas privilegiem a violência em suas ações.

A reação, que em um bairro de periferia poderia ter como consequência uns tapas nos envolvidos ou até mesmo a morte de alguns deles, com nenhuma nota em sites e jornais, na USP criou um conflito que virou pauta de debate nacional. A reitoria deveria ter discutido um protocolo de procedimentos com a Polícia antes que ela ocupasse a USP. Assim como devemos ter um protocolo de procedimentos para as ações da polícia em todo o País.

O debate, pelo menos até agora, tem beneficiado, em muito, o reitor Grandino Rodas. Criou-se, involuntariamente, uma cortina de ferro. Ou talvez agora a administração USP tenha mesmo ficado transparente. Tão transparente que não vemos nada do que foi a gestão de Rodas e de quanto ele trabalhou para criar o conflito. A única coisa que é apontada pela maior parte da sociedade é um grupo de burguesinhos insatisfeitos por não poderem fumar maconha. Não deveria ser esse o debate. Mas, como em política o símbolo acaba sendo mais importante que o fato, confesso que, pelo menos até aqui, sinto que o reitor ganhou o debate na sociedade e conseguiu passar a impressão de que faz uma gestão voltada para os interesses da sociedade. O triste é que a verdade é que a gestão do reitor é predatória e suas consequências são milhares de vezes mais letais do que alguns móveis quebrados, paredes pichadas e portas arrombadas.

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Mateus Prado - mateusprado@usp.br - Mateus Prado cursou Sociologia e Políticas Públicas na USP. É presidente nacional do Instituto Henfil e autor de livros didáticos. Presta assessoria em Enem

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    66 Comentários |

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    • Angelo Pavan | 15/11/2011 21:07

      Tendencioso por tendencioso, Mateus Prato fez a mesma coisa, só que para o outro lado! Não me convenceu...\n \nOs alunos deixaram para explodir usando como desculpa uma atitude, até que se prove o contrário, legal, da polícia?!? Estratégia errada, não?\n \nEle "explica" o "...espírito combativo e contestador de alguns de seus alunos..." com o argumento de que a USP, nascida na década de 30, em uma época de revoluções, e que "forjou, por várias gerações, uma juventude contestadora e participativa". Esses alunos, hoje estariam com no mínimo 70 anos de idade. Estes influenciaram tanto assim a ponto de criar ali um núcleo de intelectualidade acima da média para os padrões do restante da sociedade na qual está inserida a própria USP??? Não acredito...\n \nEle fala que a insatisfação é principalmente sobre a intenção do reitor de "...tentar deixar a universidade cada vez mais distante das populações mais pobres e carentes de intervenções públicas...". Alguém ouviu falar de alguma manifestação destes privilegiados querendo facilitar a entrada dos mais pobres na USP?? Eu não me lembro...\n \n"Os alunos da USP não têm nenhuma obrigação de aceitar a truculência e a desproporcionalidade com que foi tratado o caso pela polícia e pela reitoria". Será que foi desproporcional mesmo??? Uma palavra contra a outra. Mesmo assim, até onde sei, fumar maconha (ainda) é crime. Não quer tomar borrachada? Não sair da legalidade já é um bom começo.\n \n"A reitoria deveria ter discutido um protocolo de procedimentos com a Polícia antes que ela ocupasse a USP". HÃN?!?! Protocolos de procedimento?!? A polícia tem que fazer o papel dela, independente de onde esteja! Se ele age erradamente, aí é outra história! Vamos lutar por isso, mas também fora do Campus!\nA polícia "ocupou" a USP??? Como assim?? Estamos na ditadura?? Até onde sei, ela foi convocada porque a violência lá dentro estava demais, não? Por outro lado, quem ocupou os prédios, com faixas de "fora PM", foram os bandidinhos com coquetel molotov...\n \nEle disse que "não deveria ser o debate" o fato, que ficou para a sociedade, que "um grupo de burguesinhos insatisfeitos por não poderem fumar maconha". Percebe que ele não negou o fato? Isso não é um problema??\n \nPra finalizar...\nÉ óbvio que o Reitor, a polícia, o governador, ninguém é santo nesta história. Mas se os "super engajados" :-P estudantes querem melhorar a USP, que façam isso de maneira ordenada, clara (os "Datena" da vida também gostariam de receber uma comissão que quer meter o pau no Reitor) e, principalmente, sob nenhum efeito de qualquer intorpecente! \n

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      Angelo Pavan | 19/11/2011 16:36

      Daniel, aparte ideologias partidárias (saída típíca de petistas), e sendo mais direto que divagações "filosóficas", só gostaria de fazer-lhe uma pergunta: por que a "elite" Uspiana e "engajada" não se manifesta, portanto, pelos "reais" motivos de degradação da USP? Será que nenhum veículo de comunicação, da Jornal Nacional ao Brasil Urgente, do Destak ao Estado de São Paulo, da Veja a Caras, nunca quis dar voz ao que "sofrem" em período integral na maior universidade pública brasileira? Por que só apareceram agora, depois dos maconheiros presos, e somente sustentando o mote de "Fora PM"? \n

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    • Daniel da Costa | 14/11/2011 16:50

      Sou doutorando em filosofia pela USP, e concordo plenamente com a afirmação de que o problema em questão, veiculado pela mídia - como sempre bem "neutra" e compromissada com a "verdade" - como se tratando unicamente da reivindicação de "um punhado de maconheiros da fflch" que querem fumar maconha em paz é - por esta caricatura grosseira - uma maneira de desviar a população de problemas de ordem mais graves e que envolvem a política administrativa do reitor que reza na cartilha do Psdb, partido que pensa que a cidade de São Paulo lhe pertence. Eu teria que alongar muito o meu texto para falar da ideologia que comanda a visão administrativa e de mundo destes seres humanos do Psdb. Trata-se, no fundo, apesar da caricatura grosseira, de escamotear uma intenção de fundo que comanda o espírito de poder do Psdb (neoliberal na essência) cuja solução para os impasses sociais não é o diálogo lúcido, democrático e responsável, mas, como sempre, a pancadaria. A ideologia neoliberal (e liberal) deste governo (e na história ocidental, que quer ver o Estado diminuido em tudo, menos no poder de polícia) - governo que com o PCC dialoga e entra em acordo - com a sociedade civil, que eles têm na conta de uma abstração para manobra e uso eleitoreiro e que deve ficar sempre no seu lugarzinho calada, não quer conversa. Afinal, que sabem as pessoas sobre economia, sobre democracia, sobre diálogo, sobre liberdade etc.? Somente estes senhores do Psdb conhecem estas coisas, não é mesmo?

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    • Thom | 12/11/2011 02:24

      Bem dito! Isso muda algumas concepções - espero eu. Infelizmente, quando muitos perceberam que estavam errados, ou vão se omitir, vou vão negar que erraram até a morte, ou irão perceber quando já foi tarde de mais...

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    • Juliana | 12/11/2011 01:22

      Parabéns Mateus Prado e IG por finalmente mostrar a realidade dos estudantes e não manipular a opinião da sociedade como está ocorrendo em outros jornais.

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    • Paulo Detoni | 11/11/2011 22:57

      Até que enfim os fatos começam a ser discutidos com eles realmente merecem. Excelente texto.

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    • Elson | 11/11/2011 16:05

      Luta pela liberdade e democracia?!!!!! Insatisfação com a reitoria?!!!! Independente do que seja, a realidade é que o poder público está sendo é muito conivente com quem afronta as leis e autoridades constituídas,com quem danifica o patrimônio público.Era para desde o primeiro dia a justiça ter determinado a reintegração de posse e a polícia ter retirado todos e não haver toda esta novela.A pergunta que não se quer calar é esta: Se fossem um bando de sem teto que invadissem a USP,será que demoraria tanto tempo para serem retirados? Será que alguém iria intervir pedindo perdão para eles ou pagando suas fianças?O que há é muito interesse escondido atrás desses fatos.É bem mais que manipulação de mídia.

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    • Guilherme Burzynski | 11/11/2011 15:03

      Essa eleição por lista tripartida acontece na maioria das federais do Brasil e vários movimentos estudantis já se insurgiram contra ela e nada acontece. Fora o peso dos votos que é dado aos alunos nas eleições para reitoria, que equivalem a quase nada perto do valor dos votos dos professores e funcionários, apesar de eles serem os usuários dos serviços prestados pela universidade e saberem julgar a qualidade do ensino melhor que os interesses corporativistas dos funcionários e dos professores. \nSó acho engraçado a mídia dar tanta visibilidade para esse casinho pequeno da Usp e não investigar as diversas federais do Brasil que têm cursos sucateados, sem professores e sem livros nas bibliotecas. Na federal do meu estado, um aluno de um curso de graduação de uma universidade particular foi chamado para dar aula no curso de Direito. Isso apareceu na mídia? Não. Nada justifica depredar o patrimônio público, pessoas civilizadas sabem protestar com decência. Não adianta querer agora legitimidade para esse movimento da USP, eles apenas recebem da mídia o que eles pediram de início. Não tiveram seriedade na hora de protestar, então não terão o apoio da opinião pública, cujos integrantes nunca conseguiram entrar na usp.

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    • deuzana | 11/11/2011 13:05

      Este texto faz uma retrospectiva da história atual da USP no seu contexto; esclarecedor como os textos de um bom jornalista devem ser.Não fez comparações, nem colocações preconceituosas no que diz respeito ao povo brasileiro, valorizou a história da Instituição sem em momento algum fazer apologia ás drogas que levam a morte pessoas inocentes como o jornalista da Band, sim porque quem fornece dinheiro para bandido também é o consumidor. O que se percebe ao ler o texto é que os problemas na USP e sua reitoria são antigos e já deveriam ter sido colocado pela imprensa para a sociedade de uma forma mais insistênte e esclarecedora. Sendo contra qualquer tipo de violência resta pedir que o poder público avalie suas ações tanto a nível de policiamento como de reitoria, e que puna todos aqueles que ultrapassaram os limites do bom senso sendo eles alunos(universitários), policiais ou reitor.

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    • Paula | 11/11/2011 11:33

      Concordo totalmente. \n\nE acredito que é no grupo intelectual universitário que está a obrigação de desvendar os olhos da sociedade, levando-a à reflexão além dos fatos. Fora a administração predatória e incompetente!!!

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