Mateus Prado

Educador analisa o Enem, os vestibulares e o ensino brasileiro

Mateus Prado cursou Sociologia e Políticas Públicas na USP. É presidente nacional do Instituto Henfil e autor de livros didáticos. Presta assessoria em Enem

Alterações na Fuvest vão deixar cursos com mais vagas que alunos

Modelo do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) das universidades federais melhoraria distribuição de vagas na USP

09/05/2011 18:45

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O reitor da USP não descansa. Disposto a diminuir o número de vagas na universidade, João Grandino Rodas continua a insistir em projetos que façam a universidade diminuir o número de alunos na graduação, mesmo depois de todas as trapalhadas da reitoria nos últimos meses.

Desde o início de seu mandato, Rodas tem manifestado sua vontade de acabar com cursos de menor concorrência. Seu primeiro golpe contra as vagas na USP, que por hora não vingará graças à mobilização dos alunos, foi a tentativa de acabar com o curso de Obstetrícia e de reduzir o número de vagas de vários cursos da EACH (USP Leste).

Não duvido que, dentro da universidade, estejam sendo elaborados outros relatórios como o Melphi, que propôs cortes de vagas em uma das unidades da USP. Mesmo com estes relatórios correndo, provavelmente em segredo, é principalmente no vestibular que Rodas pretende atuar para diminuir o número de vagas e, por consequência, reduzir ainda mais o número de alunos oriundos do ensino médio público que chegam à universidade. A origem disso é a crença, equivocada, de que quem acerta mais questões de vestibulares terá melhor qualidade acadêmica e ajudará a USP a recuperar seu lugar nos ranqueamentos internacionais de universidades.

No ano passado eu já alertei, no IG Educação, o absurdo em que transformaram o vestibular da Fuvest. No dia da prova da primeira fase, indiquei que o vestibular tinha ficado, de repente, diferente e mais difícil. Quando saiu a correção, se comprovou que as notas de corte despencaram. E despencaram por que a Fuvest cobrou um monte de conteúdos que não avaliam se o aluno está ou não preparado para entrar, e permanecer com sucesso, no ensino superior. Naquele momento eu já havia percebido que o Rodas tentava fazer do vestibular uma espécie de licitação com cartas marcadas, onde ele cobrava alguns conteúdos que só são ensinados em poucas escolas tradicionais de São Paulo. Essa primeira fase muito mais difícil já fez com que algumas vagas da USP não fossem preenchidas em 2011.

Assim, uma das melhores universidades do Brasil, na a qual muitos estudantes gostariam de conseguir uma vaga, tem lugar sobrando. E isso ocorre porque a USP acha que os alunos não são suficientemente bons para frequentar suas salas.

E a coisa pode piorar. O Conselho de Graduação da USP já tentou votar duas vezes, e vai tentar pelo menos mais uma, alterações que devem deixar vários cursos com mais vagas do que alunos. As duas principais propostas que podem levar a sobrar mais vagas na USP é a de aumentar a nota de corte mínima para 27 de 90 (hoje é 22 de 90) e só levar dois candidatos por vaga para a segunda fase.
Mais de 20 cursos na USP possuem nota de corte igual ou menor que 27. Se a Fuvest mantiver a tendência de dificultar o vestibular, podemos passar a ter 30 ou 40 cursos nessa situação. A Fuvest convoca, hoje, pelo menos três candidatos por vaga, em cada curso, para a segunda fase. Tendo uma nota de corte mínima, acabam indo para a segunda fase menos que três candidatos por vaga. Se a nota de corte mínima subir para 27, provavelmente muitos cursos, principalmente as licenciaturas, terão menos candidatos do que vagas na segunda fase. Nas graduações de menor nota de corte, também é provável que não exista lista de espera.

Influencia na distribuição de vagas da universidade, entre vários outros motivos, a seleção do Sistema de Seleção Unificado das universidades federais (Sisu). Com mais de 80 mil vagas disponíveis no último ano e a possibilidade de chegar a mais de 100 mil no primeiro semestre de 2011, o Sisu permite que o aluno possa concorrer a uma vaga só depois de receber sua nota do Enem. Com o resultado na mão, o candidato sai procurando onde dá para ser aprovado. Certamente, muita gente que preferiu concorrer a um curso mais fácil na USP e passa no Sisu em um curso que acha melhor faz opção por ele. O fato de os vestibulares de São Paulo não serem unificados também retira alunos umas das outras.

Se uma das novas medidas for aprovada pelo Conselho de Graduação da USP, ou, pior, se as duas forem aprovadas, aumentará o número vagas sobrando em cursos da USP. E aí, ficará mais fácil para o Rodas fechar o curso. É só falar que não tem aluno.

A outra proposta que pode ser votada fica esquisita nessa arquitetura elitista do Rodas. A ideia é que, a partir da terceira chamada, alunos que optaram por outros cursos pudessem escolher entre as vagas remanescentes. Parece bom, mas o modelo deixa de lado, por exemplo, candidatos a cursos muito concorridos que pontuam bem na primeira fase mas não conseguem chegar à segunda fase. É bom fazer a distribuição de possíveis vagas que sobrem na USP, mas é necessário um modelo melhor. Como está é contraditório até para a tão celebrada "meritocracia" propagandeada pelo reitor.

Uma boa proposta, para melhor distribuição de vagas da USP, seria seguir o modelo do SISU. O aluno tem a nota antes e só depois escolhe sua carreira. Claro, aumentando o número de vagas em todos os cursos. Certamente não sobraria vagas na USP. E a USP pode ir além. De 2003 a 2011, seu orçamento aumentou 150%. Isto aconteceu por que o orçamento da USP e das outras universidades públicas do Estado de São Paulo é vinculado à arrecadação do ICMS paulista. Se o número de vagas tivesse aumentado na mesma proporção da arrecadação, hoje a USP teria quase 22 mil vagas. Só tem 10.652, e com a ameaça de cortarem muitas delas.

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Mateus Prado - mateusprado@usp.br - Mateus Prado cursou Sociologia e Políticas Públicas na USP. É presidente nacional do Instituto Henfil e autor de livros didáticos. Presta assessoria em Enem

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    7 Comentários |

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    • carlos | 02/06/2011 19:38

      meu deus, sera que da pra ler uma noticia sem parcialidade de vez enquando!!!. o articulista trata o reitor como se fosse um diabo acefalado com o objetivo de destruir a universidade. nao se esqueça que voce fala da maior universidade da america latina . as pessoas acham que por o ensino superior estar deficiente no pais a USP deve suprir todos os alunos do pais. a universidade deve priorizar , acima de tudo ,a qualidade do ensino, mesmo que isso custe um numero de alunos melhor. a soluçao do problema da educaçao é mais universidades, nao uma unica universidade com 50000000 vagas mal administradas

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    • Frankko | 02/06/2011 16:30

      O Reitor está certo. A USP tem que selecionar muito bem seus alunos mesmo. Se não fizer isto, daqui a pouco surgirá outro "ministro da educação" -- tudo minúsculo, sim, achando que não há problema algum em se aceitar "nós pega o peixe". Esse coitado sequer sabe que o Mercado de Trabalho não aceita trainee ou estagiário, muito menos profissional que não fale bem, corretamente, segundo a norma culta. Os autores do famigerado livro que pretende "ensinar" o que o inculto já sabe -- falar erradamente -- certamente não fez USP. Nem poderia; não tem nível para entrar lá...

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      Michele Rodrigues | 28/06/2011 11:05

      Li o comentário do Frankko e cheguei a conclusão de que a USP está muito bem representada pelo reitor, ele o reitor Rodas reflete em suas ações as aspirações de alunos da própria universidade ou de pessoas fora dela mas que possuem uma forma de pensar elitista, vale lembrar que os alunos da USP não são superiores, são pessoas que conseguiram passar num vestibular concorrido, mas sendo realista, a grande maioria dos alunos que passa no vestibular da USP, possuem uma cituação financeira que os possibilitam a concorrer a vaga, são em sua maioria alunos de escolas particulares ou de cursinhos que preparam bem os seus alunos mas no entanto cobram caro por isso, um preço, que pessoas de camadas sociais pobres não podem pagar, não vejo mérito algum nisso!! vejo mérito quando uma pessoa vinda da clásse pobre consegue entrar na USP, com relação aos demais, não consigo ver o mérito que eles pensam que tem, quanto a opinião do Frankko é uma pena que a grande maioria dos alunos da USP se preocupem apenas em vencer no mercado de trabalho, isso apenas reflete a mentalidade pequena e a pouca cultura que essas pessoas tem, estudar numa grande universidade federal não é significado de cultura, se fosse seria lindo!! mas vejo que a cultura de massa está muito presente no interior dessas grandes universidades, o que é um pouco revoltante, os alunos se acham os grandes, mas possuem a opinião do senso comum e das massas, que eles tanto querem evitar, ser pobre não é o problema, o grande problema é a falta de cultura e a alienação, são todos robôs, pensando em mercado de trabalho, mercado de trabalho, fazer um curso superior é bem mais que isso, ou melhor deveria ser.

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    • Irina | 02/06/2011 13:08

      Uma das melhores matérias que já li a respeito, e gostaria de usar este espaço de comentário para analisar outro aspecto do vestibular da fuvest. É fato que o reitor da USP não percebe que está selecionando os piores tipos de aluno pra universidade. Alunos que NÃO irão aumentar a nota da usp no ranking mundial, aliás.\n\nEle quer melhores alunos, mas com o tipo de vestibular que ele aplica, o que ele faz é lotar a usp com alunos que nunca abriram um livro na escola mas tiveram dinheiro pra pagar 4 anos de cursinhos e memorizar todo o conteúdo. Veja bem, não é uma questão de "luta de classe". Quando o aluno é bom não importa de qual classe ele vem - mas a questão é que os que passam não são necessariamente bons alunos, são apenas produtos de anos de cursinho. \n\nUm aluno excelente porém com menos condição financeira (não necessariamente pobre, já viram preço dos cursinhos hoje em dia?), que tirou notas boas a vida inteira mas obviamente não viu o conteúdo extremamente avançado que cai nas provas NÃO tem como competir com uma máquina de memorização de conteúdo dispensável que são os alunos de cursinhos pré vestibulares. Eles vivem pra isso, até passar. Eventualmente criou uma seleção natural: os que ficam mais tempo nos cursinhos decorando conteúdo são os que acabam passando. Não é uma avaliação pra ver quem é mais apto, quem pensa melhor ou tem mais cultura e gosto pelo conhecimento.\n\nOs melhores alunos, aqueles que tiveram as melhores notas a vida escolar inteira e souberam pensar, estão fora da faculdade publica porque não tem dinheiro pra pagar os cursinhos. Que tipo de sistema cria algo assim? E acha que ele é aceitável? Porque acham mesmo, afinal ninguém parece se manifestar. Eu nunca vi uma matéria sequer mencionando isso - o efeito cursinho - como sendo algo errado. E olha que há muita crítica sobre os vestibulares por ai, fraudes no pro uni, erros do enem e blablablá, mas nunca se vê nenhuma crítica a esse sistema. Enquanto a USP tiver esse sistema, ela não vai subir naquele ranking porque maquinas de decorar conteúdo não necessariamente tem as melhores mentes.

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    • claudevan | 18/05/2011 12:05

      ISSO É UMA VERGONHA...

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    • Deborah Neves | 12/05/2011 21:51

      Ocurioso é que essas decisões são tomadas nos bastidores do conselho de graduação, sem qualquer participação daqueles realmente interessados: a sociedade.\nEsse tipo de ddecisão deveria ser tomada em audiência pública, afinal, nesse caso, a autonomia da universidade está prejudicando a todos!\nNa verdade, o reitor só está cumprindo com a corrente política do governo do estado, que privilegia os privilegiados. Um reitor que foi rejeitado pela comunidade acadêmica num processo eleitoral pra lá de questionável, e conduzido ao poder pela grande mão do "poder moderador".\nFaço mestrado na USP e sei que as coisas não são tão boas como dizem por aí. A USP só será de excelência quando se tornar factível para muitos - o que significaria qualidade no ensino básico.\nLamentável

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    • Tarso Guilherme Macedo Pires | 12/05/2011 01:25

      Defendo o reitor na sua intenção de elevar a posição da USP no ranking das melhores do mundo. Acho mesmo vergonhoso que nossas universidades estejam tão mal em tal ranking. Porém, fica o questionamento: O Reitor term dados inquestionáveis de que a queda de posição no ranking está diretamente ligada à quantidade de alunos? A qualidade desses alunos. Além dom mais, questões como essa nunca tem uma única causa. Assim, considerando a hipótese de que seja mesmo uma das causas, pergunta-se: qual o peso dela isoldamente? Então, o reitor tem que der aexplicações antes de seguir a frente com suas açoes. Ainda assim, tais ações precisam ser melhor pensada. Daí, vem perguntas da outra ponta: diminuir, dessa forma, é suficiente para elevar a posição no ranking? \nPor tudo, penso que a reitoria precisa explicar melhor sua política e respectivas ações, sob o risco de nos soar como os moradores de Higienopólis que não querem estação do metrô por lá, temerosos que "gente diferenciada" passe a frequentar a freguesia. Seria essa a principal motivação do reitor? Acha que a USP está muito "marron"?

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