
Em 2023, a jovem iraniana Mahsa Safaei perdeu repentinamente a conexão de seu telefone celular. Ao contatar a operadora, descobriu que sua linha havia sido bloqueada por determinação das autoridades. Mecânica de automóveis, ela divulga seu trabalho por meio de vídeos publicados no Instagram. O problema estava na sua vestimenta: Mahsa trabalha com blusas de manga curta e a cabeça descoberta. Durante três anos, ela ficou impedida de possuir uma linha de celular.
O problema seria menor se praticamente todos os serviços no Irã não dependessem do cadastro de um número de celular. Portais governamentais, universidades, bancos, seguradoras, compras pela internet e até aplicativos de entrega de comida — todas essas atividades exigem uma linha ativa, seja para o cadastro ou para o recebimento de códigos de verificação.
Desconectados desde 2022
A denúncia não é rara e a punição não é nova: há vários relatos de iranianos desconectados desde 2022. Em setembro daquele ano, multidões saíram às ruas no Irã para se manifestar após a morte de Mahsa Amini, uma iraniana curda de 22 anos que morreu enquanto estava sob custódia da polícia da moralidade. A prisão foi motivada pela forma “inadequada” como ela usava o hijab.
Entre os iranianos desconectados há os que são politicamente ativos. Também há entre eles mulheres que divulgam fotografias com os braços descobertos, pessoas que manifestam simpatia pela monarquia dos Pahlavi ou cidadãos que criticam a guerra contra Israel e os Estados Unidos.
Os telefones são desconectados sem aviso prévio. É um tipo de punição que não tem começo nem fim, pois não há acusação, investigação ou sentença judicial.
Em alguns casos, quando procurado, o governo revela o motivo da desconexão, como no caso do professor de Direito Constitucional Ali Akbar Gorji. Seu telefone foi desconectado durante a guerra de 12 dias entre Israel e Irã, em junho de 2025. Ao procurar esclarecimentos, recebeu uma exigência: apagar suas publicações críticas ao regime no X e publicar 20 mensagens favoráveis à República Islâmica.

Donya Rad, iraniana que se tornou conhecida por ter sido fotografada sem hijab em uma casa de chá em Teerã, também teve sua linha suspensa. Já a jornalista Negin Bagheri produzia uma reportagem justamente sobre a desconexão de comerciantes iranianos decorrente de posts divulgados no Instagram quando teve sua linha cortada.
O mesmo ocorreu com familiares de manifestantes mortos durante os protestos de janeiro, logo após divulgarem a seus conhecidos informações sobre seus parentes assassinados.
Esta prática não é secreta: já foi documentada por diversas ONGs de direitos humanos e até mesmo por uma missão internacional de investigação da ONU sobre o Irã, em um relatório de março de 2025.
Restrições à internet
A estratégia de impedir a comunicação entre os iranianos e o mundo também foi implementada por meio da interrupção do acesso à internet. Durante várias semanas do início deste ano, no período mais crítico das manifestações públicas contra o regime — que resultaram no massacre de cerca de 40 mil civis pelas forças de segurança do regime —, a população iraniana viu-se isolada e intimidada.
Em resumo, a infraestrutura digital, que um dia foi construída para facilitar a vida dos cidadãos iranianos, foi transformada em uma arma contra eles.
* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal iG