
A visita à exposição sobre o ataque do Hamas ao Festival Nova teve um impacto profundo no músico inglês Boy George. Uma sala reuniu pares de sapatos abandonados durante a tentativa dos participantes de fugir da morte; outra trazia fotos dos mais de 350 jovens assassinados brutalmente no local. O músico, que há anos trabalha como DJ em eventos como aquele, sentiu-se especialmente tocado pela tragédia.
“Esse é meu mundo e, portanto, senti uma enorme conexão com aquele espaço” , declarou Boy George ao explicar como a visita o motivou a compor a canção We Will Dance Again (Dançaremos Novamente), expressão adotada como lema pelos sobreviventes do massacre. “Eu a escrevi porque senti que o mundo partiu novamente o meu coração. O resultado é uma declaração emocional, muito mais do que política”.
Mesmo com essa afirmação e após admitir, em entrevistas, que “importar-me com os judeus e com Israel não quer dizer que sou indiferente aos palestinos”, Boy George entrou na fila dos artistas vítimas da patrulha ideológica internacional que vê em tudo apenas um aspecto político, nunca humano.
Ameaças e vandalismo
O preço de declarar em voz alta seu apoio a Israel e ao povo judeu está alto. Ele se vê envolvido em embates com personagens do meio artístico, perdeu amigos e deixou o elenco da produção londrina de Jesus Christ Superstar . Também rompeu com o responsável pela sua gravadora, que se recusou a trabalhar no lançamento da canção. “Recebo ameaças, e pôsteres de meus shows e fotos minhas são vandalizados” , comentou em entrevistas. Além disso, o músico tem sido acusado de fascismo.
Em Israel, a reação é oposta: os israelenses o aguardam ansiosamente para os dois shows, marcados para os dias 4 e 7 de novembro, em Tel Aviv. O primeiro já está com os ingressos esgotados. Como tem encontrado resistência por parte dos músicos convidados para acompanhá-lo, ele agora está em busca de novos músicos. “Posso também fazer um show acústico sozinho. Mas creio que encontrarei profissionais corajosos para me acompanhar” , declarou.

O movimento de boicote contra Israel
A situação vivida por Boy George está sendo vivenciada por outros artistas em todo o mundo. Ela não surge espontaneamente: o movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) promove campanhas internacionais organizadas contra Israel, incluindo o boicote cultural, e conta com apoiadores em diferentes esferas, da política à arte.
Roger Waters, um dos fundadores do lendário Pink Floyd, foi, por muitos anos, um dos ativistas anti-Israel mais proeminentes. Outros se juntaram a ele, como a atriz Susan Sarandon e, mais recentemente, os atores hollywoodianos Javier Bardem e Mark Ruffalo. Os três têm circulado em eventos públicos com keffiyehs (lenços tradicionais do Oriente Médio que se tornaram símbolos da identidade nacional palestina) e usam o palco de eventos artísticos — como a cerimônia de entrega do Oscar — para professar suas crenças.
A pressão pelo cancelamento de shows em Israel por vezes funciona, como aconteceu com artistas como Lorde e Elvis Costello. Mas foi ignorada por estrelas internacionais como Madonna, Paul McCartney e o grupo Radiohead.
Debate político versus espetáculo musical
A pressão, entretanto, não atinge apenas aqueles que decidem manifestar publicamente suas posições — também alcança artistas que tentam manter seus espetáculos distantes da disputa política. O músico britânico Ed Sheeran vivenciou a força da onda contra Israel em setembro, quando os produtores de sua turnê decidiram afastar o rapper Macklemore. Ativista pró-palestino e convidado para abrir os shows de Sheeran, ele aproveitou o palco para entoar slogans e cantar uma música de protesto contra Israel.
O rapper foi retirado das oito apresentações seguintes da turnê. Diante da repercussão do episódio, Sheeran sentiu-se obrigado a responder publicamente, condenando tanto o ataque do Hamas de 7 de outubro quanto as operações militares israelenses em Gaza. Ao tentar explicar sua posição, acabou entrando diretamente no debate político que pretendia evitar.
Seus fãs se viram arrastados para uma disputa que não esperavam encontrar em um espetáculo musical. Em entrevistas à imprensa, alguns espectadores disseram que não haviam comprado ingressos para participar de um debate político — queriam apenas assistir a um show de música.
Essa patrulha ideológica, que se tornou comum após o início da atual guerra no Oriente Médio, representa um caminho perigoso para o universo artístico global, apesar de o envolvimento de artistas em disputas políticas não ser novidade na história moderna. Neste caso, no entanto, observa-se uma tentativa de “cancelamento” daqueles que resistem à atual exigência de alinhamento ideológico. Boy George paga o preço por manifestar sua solidariedade a Israel; Ed Sheeran, por permitir que um convidado transformasse seu palco em uma tribuna política. Em ambos os casos, a liberdade artística sai perdendo.
* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal iG