
Uma das imagens icônicas da violência que marcou a invasão do Hamas é a do sequestro de Noa Argamani. Sentada entre dois terroristas em uma motocicleta, com os braços estendidos em direção ao namorado, Avinatan Or, ela chorava enquanto era levada à força para Gaza. Ele, por sua vez, foi filmado com os braços amarrados pelas costas, enquanto era empurrado por vários terroristas. Noa seria trazida de volta para Israel 246 dias depois, após ser resgatada pelo Exército, junto com outros três reféns: Almog Meir Jan, Andrey Kozlov e Shlomi Ziv.

Ontem, o terrorista que conduzia a motocicleta na qual Noa foi levada foi morto em um ataque cirúrgico da Força Aérea israelense. Diferente do que normalmente ocorre, desta vez o Exército de Israel (IDF) divulgou na íntegra o vídeo que mostra a sequência entre sua localização e o bombardeio.
Avinatan Or
Avinatan foi um dos 20 últimos reféns vivos a serem libertados pelo Hamas, 738 dias após seu sequestro. Após uma tentativa de fuga, ele foi mantido por mais de um ano em uma cela estreita, com cerca de 1,80 metros de altura, na qual, com seus 1,97 metros, não conseguia manter o corpo ereto. Isso, aliado à imobilidade extrema e à alimentação deficiente, teria afetado seus discos vertebrais: Avinatan perdeu 3 centímetros de altura e 40% de sua massa corporal. Ele não teve contato com outros reféns nem com a luz solar durante todo o período de cativeiro. Vários de seus sequestradores foram mortos antes mesmo de sua libertação.
Noa e Avinatan se reencontraram em liberdade, mas decidiram romper o relacionamento para buscar, separadamente, a recuperação do trauma vivido.
Omer Shem Tov
Assim como os dois primeiros, Omer Shem Tov foi sequestrado no Festival de Música Nova. Depois de 53 dias de cativeiro, foi levado a um túnel, onde permaneceu sozinho, na escuridão total, por 50 dias. Sua cela era tão estreita e baixa que ele não conseguia se pôr de pé nem abrir os braços. Ele foi trocado por terroristas palestinos após 505 dias de cativeiro. Na grotesca cerimônia de libertação da qual foi forçado a participar, recebeu instruções para beijar a testa de um de seus algozes, que foi morto por Israel em junho deste ano.
Família Bibas
Os mais famosos reféns desta guerra foram, sem dúvida, os irmãos Kfir (9 meses) e Ariel (4 anos), sequestrados junto com a mãe deles, Shiri.
Eles foram separados do pai, Yarden, que foi levado por outro grupo de terroristas. Segundo a IDF, com base em informações de inteligência e em exames forenses, Ariel e Kfir foram estrangulados pelos terroristas enquanto estavam em cativeiro, em novembro de 2023. Shiri também foi morta em cativeiro; exames forenses descartaram a versão do Hamas de que ela teria morrido em um bombardeio israelense. O pai foi libertado em 1º de fevereiro de 2025 em troca de terroristas palestinos, após 484 dias de cativeiro, e só então recebeu a notícia do assassinato de sua família. Um dos captores de Shiri, Kfir e Ariel foi morto em abril de 2025. Outro sobreviveu a um ataque neste mês e, portanto, permanece na lista da IDF. Um dos sequestradores de Yarden foi morto em agosto de 2025.
Há muitos outros exemplos como estes.
A posição da IDF
A caçada de Israel aos responsáveis e participantes da invasão e dos sequestros foi iniciada nos primeiros dias da guerra. No site da IDF, essa missão está descrita claramente:
“Os líderes do Hamas são a força motriz por trás dos inúmeros ataques e atos de brutalidade da organização terrorista. Sejam eles integrantes ativos de unidades de ataque e forças terroristas de comando ou ministros, todos os líderes do Hamas são responsáveis pelo assassinato de civis israelenses e palestinos, pelo armamento de crianças e pela exploração de áreas civis e humanitárias para fins terroristas. Como parte de sua missão de defesa, as Forças de Defesa de Israel (IDF) devem localizar e eliminar esses líderes para garantir a segurança de todos os civis.”
A Ira de Deus em Munique
A perseguição a terroristas envolvidos em massacres de israelenses já havia ocorrido, de forma sistemática, contra os responsáveis pelo ataque perpetrado durante os Jogos Olímpicos de Munique (Alemanha), em 1972.
Na madrugada de 5 de setembro daquele ano, oito integrantes do grupo palestino Setembro Negro, ligado à Fatah, principal facção da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), invadiram os alojamentos da delegação israelense na Vila Olímpica. No assalto inicial, dois israelenses foram mortos e outros nove foram feitos reféns.
O episódio durou várias horas e terminou com a morte de todos os nove reféns e de cinco dos oito terroristas. Outros três foram presos pela polícia alemã, mas soltos apenas 54 dias depois: terroristas palestinos sequestraram um avião da Lufthansa e exigiram a libertação deles. Eles deixaram a prisão sem jamais terem sido julgados pelo massacre.
Essa atitude levou o governo da então primeira-ministra de Israel, Golda Meir, a autorizar uma campanha clandestina para localizar e matar os responsáveis pelo atentado. A ação ficou conhecida como Operação Ira de Deus e levou anos para ser concluída.
A legitimidade da vingança
É difícil enxergar a vingança como uma virtude humana. Mais difícil ainda é imaginar que ela possa ser vista como atribuição de um Estado. No entanto, o tema merece reflexão quando se trata de crimes cometidos por aqueles para os quais a culpa nunca é reconhecida e o arrependimento — justamente um dos sentimentos capazes de impedir que o criminoso volte a atuar — simplesmente não existe.
A luta por um lar nacional judaico moderno precedeu o Holocausto: o sionismo político foi oficialmente iniciado no fim do século 19. Mesmo que infelizmente o país tenha sido criado apenas após a grande tragédia da Segunda Guerra Mundial, sua existência permitiu que milhões de judeus encontrassem refúgio depois de séculos de perseguições — entre eles vítimas de pogroms na Rússia antiga, sobreviventes do nazismo e, a partir dos anos 1950, 900 mil judeus expulsos de países do Oriente Médio e do norte da África, mais de 1 milhão vindos da antiga União Soviética e cerca de 100 mil da Etiópia.
Proteger os judeus que vivem em Israel e servir de refúgio para aqueles que, em qualquer parte do mundo, precisem dele estão entre as razões fundamentais de sua existência. O 7 de Outubro redespertou essa promessa.
Talvez isso ajude a compreender por que a perseguição aos responsáveis pelo massacre do Hamas é vista em Israel não apenas como um acerto de contas, mas também como uma forma de impedir que o evento se repita. E talvez torne a retaliação em curso, se não aceitável, ao menos compreensível para o público bem-intencionado.
Quanto aos mal-intencionados — bem, para eles, qualquer evento servirá como mais um argumento para atacar Israel.
* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal iG