Miriam Sanger, de Israel

O antissemitismo fora da tela de cinema

Situações humilhantes voltam a fazer parte da experiência de judeus e israelenses pelas ruas do mundo.

Oficial nazista força judeus a fazerem o aceno nazista
Foto: Reprodução
Oficial nazista força judeus a fazerem o aceno nazista

A atual geração de cidadãos e turistas judeus está vivenciando, nas ruas de países de todos os continentes, situações que, até há pouco tempo, eram vistas apenas nos cinemas. Uma delas é retratada no filme O Pianista, que narra a história real do pianista polonês Władysław Szpilman durante a Segunda Guerra Mundial.  Na cena, seu pai é abordado por um soldado nazista enquanto caminha pela calçada de Varsóvia, na Polônia. “Por que você não nos cumprimentou?”, pergunta o militar que, em seguida, derruba o idoso com uma bofetada no rosto.

Os passantes, cidadãos poloneses comuns, não contestam o soldado — ele mesmo, um invasor em seu país — e tampouco amparam o agredido. A vida continua, exibindo a trágica normalização da ocupação estrangeira. A cena ilustrou bem a perda total dos direitos dos judeus poloneses  à época, que se tornaram reféns da brutalidade.

O pianista polonês Szpilman, na vida real.
Foto: Reprodução
O pianista polonês Szpilman, na vida real.


Os atuais incidentes de agressão e desrespeito contra judeus pelo mundo obviamente não chegam ao nível do assistido na era nazista — mas são um prenúncio evidente. Eles têm sido alvos de ataques verbais e físicos em situações e locais os mais diversos: em hotéis que recusam sua reserva ou os expulsam ao reconhecê-los como judeus, em atrações turísticas, em restaurantes e pubs, ou no meio da rua, em plena luz do dia.

Preocupante, e não apenas para os judeus

Esses eventos, se analisados sob um prisma mais amplo, evidenciam uma situação preocupante não apenas para as comunidades judaicas. Afinal, a perseguição aos judeus ao longo da história frequentemente funcionou como um sinal de que algo mais profundo estava se deteriorando na sociedade que a produzia: quando uma população começa a aceitar que uma minoria possa ser humilhada, excluída ou atacada sem qualquer reação das instituições, não são apenas os judeus que estão em perigo: é a própria ideia de igualdade perante a lei.

A preocupação com esse tema é legítima e não deveria ser sentida apenas pelas comunidades judaicas. Uma vez que a mídia brasileira peca na cobertura dos ataques antissemitas diários que ocorrem em todo o mundo, é importante apresentar exemplos.

No dia 14 de agosto, um homem invadiu a Sinagoga Central de Nova York e, antes de ser detido, conseguiu agredir fisicamente uma mulher que participava do serviço religioso. Em 4 de julho, um grupo de judeus franceses foi atacado por uma turba que, durante 90 minutos, os perseguiu entoando slogans antissemitas. Também no início de julho, vários homens judeus que voltavam da sinagoga foram atacados em plena luz do dia nas ruas de Montreal. No fim de abril de 2026, dois judeus foram esfaqueados em Golders Green, bairro londrino que concentra uma grande comunidade judaica.

Nesta última semana, um casal de israelenses e seus filhos foram grotescamente impedidos de entrar em um parque aquático na Tailândia. No mesmo país, mãe e filha (de 62 e 23 anos) foram atacadas por um turista francês após ele concluir que eram israelenses. Ambas foram hospitalizadas.

Acenos nazistas no estádio de futebol

Outra israelense, acompanhada de três filhos menores de 5 anos, foi expulsa de uma loja em Lucca, na Itália, pelo proprietário após se identificar como israelense. Um grupo de manifestantes pró-Palestina cercou um  centro comunitário judaico no Sri Lanka por horas. Em um estádio, torcedores do time polonês GKS Katowice, irritados com a derrota para o Hapoel Tel Aviv, repetidamente fizeram gestos nazistas à torcida  do time israelense.

Foto: Beit Chabad Sri Lanka
A polícia do Sri Lanka no centro comunitário judaico.


A cada semana, cresce o número de episódios dramáticos vividos por turistas israelenses no exterior. Por se sentirem acuados, milhares deles estão optando por evitar a exposição ao perigo e buscam destinos considerados mais seguros. Nos últimos meses, no entanto, o mapa do antissemitismo se ampliou consideravelmente — o mundo está novamente se tornando pequeno para os judeus.

Há quem reaja aos episódios de hostilidade, entre eles muitos soldados da IDF que acabam entrando em confronto com os agressores. Isso, se por um lado reduz a sensação geral de impotência, por outro não ajuda a criar uma experiência positiva. Para eles, responder é a forma de não aceitar passivamente a agressão.

Registro de perigo e medo

Para crianças e outros membros mais vulneráveis da comunidade judaica, o registro do perigo e do medo permanece latente por muito tempo. Essa é uma lição que não é nova para os judeus. Um bom exemplo é o próprio diretor de O Pianista , o judeu polonês Roman Polanski, sobrevivente do gueto de Cracóvia.

A experiência da infância deixou uma marca que ajuda a entender por que, décadas depois, ele não quis assumir a direção de um filme que o levaria de volta a aquele universo. Poucos sabem que ele foi o primeiro diretor a ser convidado a dirigir o filme A Lista de Schindler, que retrata amplamente a história do gueto onde ele viveu por alguns meses, aos 8 anos de idade. Alegando motivos pessoais, ele recusou o convite, que então foi passado a Steven Spielberg .

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal iG