Miriam Sanger, de Israel

Em Gaza, estupro é arma de guerra

Dia após dia, somam-se os depoimentos de israelenses que sofreram abusos sexuais durante o cativeiro

A israelense e ex-refém Naamá Levy: no momento do sequestro e no dia de sua libertação
Foto: Imagens retiradas de vídeos do Hamas
A israelense e ex-refém Naamá Levy: no momento do sequestro e no dia de sua libertação


Se você não tem estômago para este tema, pare aqui: é sobre ele que escrevo a seguir.

Romi Gonen tem hoje 25 anos. Cresceu na casa de sua família com outros quatro irmãos em Kfar Vradim, uma pequena cidade montanhosa no norte de Israel. No dia 6 de outubro de 2023, era apenas uma garçonete simpática e sorridente que trabalhava em Tel Aviv. Estava especialmente feliz porque, naquela noite, viajaria para o sul com sua melhor amiga, Gaya Halifa, para uma rave:  o Festival Nova.

As amigas Gaya Halifa (à esq.) e Romi Gonen (à direita): uma morta, a outra sequestrada pelo Hamas
Foto: Reprodução de mídias sociais
As amigas Gaya Halifa (à esq.) e Romi Gonen (à direita): uma morta, a outra sequestrada pelo Hamas


No dia seguinte, o evento se tornaria um dos símbolos mais brutais do ataque do Hamas a Israel. No local, 364 pessoas foram assassinadas e 44 sequestradas por terroristas — entre elas, Romi.

Foto: Reprodução / CNN Brasil - 09.10.2023
Ataque do Hamas a local onde acontecia festival de música em Israel


Durante seus 470 dias de cativeiro em Gaza, o nome de Romi foi ouvido com frequência em Israel.  Talvez pela atuação incansável de sua mãe, Meirav, na luta por sua libertação. Ou talvez por ela ser uma das 17 mulheres jovens não libertadas no primeiro cessar-fogo e, portanto, mantidas por infindáveis meses sob o poder de terroristas sádicos do Hamas e de outros grupos armados de Gaza.

Mas havia também outro motivo, raramente verbalizado em público . Um sussurro desconfortável, cochichado entre israelenses: se esses bárbaros encontraram oportunidades para violentar meninas e mulheres durante a invasão de 7 de outubro — estuprando inclusive corpos sem vida —, o que não estariam fazendo com uma jovem judia (portanto, “inimiga”) e completamente à mercê de seus captores?

Violência sexual sistemática


O zum-zum-zum sobre estupros — nunca tratado abertamente em fóruns oficiais, mas amplamente discutido em espaços privados, sobretudo entre as famílias — de israelenses sequestrados, homens e mulheres, começou poucos dias depois da invasão. Com o passar do tempo, tornou-se impossível ignorar o fato de que a violência sexual não havia sido episódica, mas usada como arma de guerra no ataque do Hamas.

Não se tratou de eventos isolados, como muitos queriam acreditar, inclusive dentro de Israel, mas de uma prática sistemática. Nos bolsos de diversos terroristas mortos em 7 de outubro, foram encontradas folhas manuscritas com a tradução, do árabe para o hebraico, de frases a serem usadas durante a invasão. Entre elas: “abaixe as calças”, “abra as pernas” e “cale a boca”.

Não havia mais espaço para dúvidas de que essa era também a realidade diária enfrentada pelos reféns nos túneis de Gaza. As poucas imagens que puderam ser veiculadas — já que o governo de Israel não permite a divulgação de fotografias de massacres e assassinatos, em respeito às vítimas e às suas famílias —, somadas às centenas de depoimentos de socorristas, civis, sobreviventes, enfermeiros e médicos, confirmaram os piores temores das famílias israelenses a respeito da violência sexual empregada naquele dia.

E, diante disso, uma pergunta se impunha: por que seria diferente nos dias, semanas, meses e até anos seguintes, nos quais os reféns permaneceriam sob controle do Hamas?

O abandono das entidades internacionais

A resposta da comunidade internacional foi, na melhor das hipóteses, o silêncio.

Foto: Campanha "Eu acredito nas mulheres israelenses"
Campanha internacional visa chamar a atenção para as vítimas israelenses


A ONU se recusou a promover discussões substanciais sobre o tema. Entidades de defesa dos direitos das mulheres rejeitaram dar-lhe atenção. A Cruz Vermelha, a Anistia Internacional, o UNICEF — sim, crianças menores de idade também sofreram abusos sexuais durante a invasão e posteriormente no cativeiro —, em resumo, ninguém estava  disposto a escutar os gritos dos israelenses, mortos ou vivos.

E a mídia internacional? Com poucas exceções, desviou o olhar. Como no caso da entrevista com a irmã de Romi, Yarden, na qual a entrevistadora revirou os olhos e encerrou a conversa no momento em que a entrevistada tocou nesse assunto.

No primeiro ano de guerra, quatro mulheres sequestradas — libertadas após 51 dias de cativeiro no primeiro cessar-fogo — deram depoimentos detalhando os estupros sofridos. Em Israel, todos sabiam que era apenas uma questão de tempo até que  outros reféns começassem a falar sobre esse tema íntimo, humilhante e profundamente desmoralizante.

Ainda assim, o abandono persistiu.

Muito pouco, muito tarde


Já no segundo ano de guerra, começaram a aparecer murmúrios tardios: um relatório aqui, um debate protocolar na ONU ali. Mais de um ano após a invasão. Too little, too late. 

Hoje, algumas entidades internacionais reconhecem que houve violência sexual sistemática. Nenhuma delas, porém, se retratou por ter ignorado o assunto quando as denúncias começaram a surgir. 

Voltemos à história de Romi.

Na quinta-feira da semana passada, ela concedeu uma longa entrevista a um programa de televisão israelense de enorme audiência. Sentada na sala de sua casa, Romi falou, pela primeira vez, sobre seu sequestro e sobre os estupros que sofreu durante os 16 primeiros dias de cativeiro.  O que ocorreu depois disso — quando foi transferida para os túneis —, só saberemos no episódio da próxima semana.

Sua mãe e sua irmã estavam presentes, sentadas à distância. Logo no início da entrevista, o jornalista perguntou se os fatos que ela estava disposta a relatar já eram conhecidos por sua família. Romi respondeu que “nem tudo”. “Falo pouco sobre o período de cativeiro”, disse. É uma frase recorrente entre reféns israelenses libertados.

Descida ao inferno


Romi e sua amiga Gaya conseguiram escapar do ataque inicial do Hamas e passaram horas escondidas em arbustos. Mais tarde, foram “resgatadas” por dois amigos israelenses que fugiam de carro. Não chegaram longe. A poucos quilômetros dali, foram alvejados por uma chuva de tiros de metralhadora.

Romi presenciou a morte imediata do amigo que dirigia e os últimos minutos de vida de Gaya. Ela foi atingida no braço direito quando tentou colocá-lo sobre o amigo que, sentado ao seu lado, havia levado tiros no peito. Minutos depois, os dois sobreviventes foram arrancados do carro e levados para Gaza — mais especificamente, para o hospital Shifa, posteriormente revelado como um dos principais quartéis-generais do Hamas.

Romi contou que lá ela foi despida, sedada, e seu braço foi, de alguma forma, costurado ao corpo. Ao recobrar a consciência, viu o corpo inerte do amigo em uma maca ao seu lado.

Quatro “vigias”, quatro estupros

Durante 16 dias, Romi foi mantida em apartamentos no interior de Gaza, sob a guarda de quatro homens diferentes, oficialmente responsáveis por sua “segurança”. Um deles se apresentava como “enfermeiro” e a visitava diariamente para trocar as bandagens  de seu braço — que até hoje não recuperou totalmente os movimentos, apesar de diversas cirurgias e fisioterapia.

Foto: Ziv Koren
Romi Gonen em sessão de fisioterapia após cirurgia


Os quatro a estupraram, em momentos distintos. Os quatro a ameaçaram de morte e exigiram sigilo absoluto sobre o ocorrido.

Um deles, logo após violentá-la, perguntou se ela “estava bem”. Ao vê-la chorar, encostou uma arma em sua cabeça e ameaçou: “Se contar a qualquer um sobre isso, eu mato você”.

Pouco antes de ser levada aos túneis, onde seria mantida por longos meses, um dos terroristas lhe disse que deveria tomar banho, pois seria transferida e não sabia quando ela teria outra oportunidade. Romi celebrou o fato de, pela primeira vez, estar sozinha no banheiro, sem ser observada por seus abusadores. Assim que terminou de se banhar, foi estuprada novamente. Desta vez, por um período prolongado. “Eu chorava sem parar e ele estava aparentemente vivendo o melhor momento de sua vida. Ele não podia perder essa última oportunidade” , disse na entrevista.

Hoje, Romi Gonen é vista, com justiça, como uma heroína por sua resistência e coragem. Mas sua história está longe de ser única.

Outras vozes, o mesmo crime

Diversos reféns libertados relataram abusos semelhantes:

1 /1 Reféns israelenses estuprados em Gaza Reprodução


  • O estuprador de  Amit Soussana (acima, à esquerda) esperou que sua mentruação acabasse antes de atacá-la.

  • Ilana Gritzewsky  (segunda à esquerda) foi espancada pr vários terroristas, perdeu a consciência e, ao acordar, estava seminua e cercada por sete homens.
  • Aviva Siegel  (abaixo, à esquerda) confortou uma refém de 16 anos quando ela foi trazida de volta para o quarto após ter sido obrigada a se desnudar e fazer sexo oral em um de seus captores.
  • Romi Gonen  (no centro) sofreu 4 estupros nas primeiras duas semanas de cativeiro.
  • Guy Gilboa  (foto inferior, no centro) foi estuprado após um banho, com uma faca colocada em sua garganta. “Se contar a alguém, mato você”, disse o estuprador.
  • O abusador de Dafna Eliakim , então com 15 anos, (acima, à direita) a tocava enquanto lhe dizia que ela ficaria para sempre em Gaza e se tornaria a mãe de seus filhos.
  • Rom Braslavski  (à direita, no centro) foi mantido por semanas nu e acorrentado. Foi chicoteado e estuprado com diferentes objetos durante meses, sempre pelo mesmo homem.
  • Alon Ohel  (à direita, embaixo) contou que era ensaboado por um terrorista o tocando em suas partes íntimas; ao perguntar ao abusador se a homossexualidade não era proibida no Islã, foi ameaçado de morte.

Seus testemunhos estão disponíveis publicamente. Infelizmente, há — e haverá — muitos outros.

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal iG