Uma das casas destruídas pelo Hamas no sul de Israel no dia 7 de outubro de 2023
Miriam Sanger
Uma das casas destruídas pelo Hamas no sul de Israel no dia 7 de outubro de 2023

Nosso estado de confusão por aqui reflete bem o do próprio Oriente Médio. Não há espaço para ingenuidades como “comemorar o fim da guerra”, uma vez que ela permanece — ainda que não em força total, em atrito diário. Também não há espaço para aquela sensação de vitória, leveza e liberdade que Hollywood gosta de abordar, propiciada pelo atual momento de cessar-fogo com Gaza e com o Líbano, muito mais teórico do que prático.

No entanto, é óbvio que há de se comemorar cada cena dos ex-reféns sobreviventes de volta às suas casas e famílias (ou o que restou delas). Também se celebra o alívio de não acompanharmos mais o avanço de tropas Gaza adentro, e o número de soldados caídos e civis palestinos mortos que crescia a cada dia. Acordar todas as manhãs sem termos corrido à noite para os bunkers é outro fator ainda novo na rotina local, igualmente aliviante.

Fora do lugar

A sensação geral por aqui é, ainda assim, a de que muito ainda está fora de lugar. O que faz a mim, e a muitos, perguntar se há lugar de fato para todos os fatores que nos cercam nesse “novo” Oriente Médio. Aparentemente, não.

Exemplos? Grupos jihadistas na Síria gritando publicamente pelo fim de Israel sem nenhuma represália do governo de seu novo presidente. O Catar exigindo que o exército de Israel mude as regras do  cessar-fogo e retire-se de Gaza antes que o grupo terrorista Hamas entregue o poder, como acordado há apenas dois meses. Os líderes políticos do Hamas declarando para a mídia que só entregarão as armas para um “líder do futuro Estado palestino”(do qual ainda nem se tem sinal). Gaza dividida em dois: uma sob controle de Israel, outra sob o descontrole do Hamas.

Em suma, bagunça — ou balagan, como se diz em hebraico.

Desconforto e inquietude

Essa sensação de desconforto e de inquietude caiu sobre mim como uma descarga elétrica após três semanas física e mentalmente distante da realidade local. Quando se está do lado de fora, de fato tem-se a visão de que, bem, a guerra com Gaza acabou, há um cessar-fogo com o Hezbollah,  um novo presidente promete paz na Síria e, então, “bora lá” retomar a vida. Do lado de dentro, você mal chega e cai em um mar de detalhes — aqueles em aberto há meses e aqueles que começam a se abrir agora.

Aí bate um certo cansaço psíquico que até parece físico, você olha para os céus e pergunta: é sério isso? Afinal, eu (e todos por aqui) realmente gostaríamos de estar, nesse momento, pulando de alegria e planejando um passeio romântico durante o inverno que se aproxima. Mas não dá, e não só porque o custo de vida subiu, as passagens estão caríssimas, as famílias ainda nem começaram a se recuperar dos dois anos de guerra ou porque o mundo europeu — continente que até hoje foi o preferido para as férias do israelense, que não pode visitar com segurança (nem que queira) seus vizinhos — não está ansioso por nos receber.

Ainda não dá. E a pergunta é: quando dará?

Uma nota pessoal

A primeira coisa que assisti na televisão, pouco depois de retornar a Israel após três semanas no Brasil, foi a entrevista com Arbel Yehud, a última refém a ser libertada do cativeiro após 482 dias prisioneira da Jihad Islâmica.

Arbel Yehud, no momento caótico e assustador de sua libertação após 482 dias de cativeiro
Reprodução
Arbel Yehud, no momento caótico e assustador de sua libertação após 482 dias de cativeiro


A Jihad Islâmica é outro dos vários grupos terroristas que povoam Gaza e parece ser ainda mais cruel do que o Hamas, segundo depoimentos de reféns mantidos por eles.

Foi um erro de minha parte. Desde então, passo horas do dia revendo mentalmente o depoimento de Arbel, que durante todo esse período não teve contato com nenhum outro refém. Entre eles, houve três relatos dela que, de alguma forma, são para mim muito simbólicos do 7/10.

Um deles foi o fato de seus captores não a permitirem chorar. “Eles não gostam de choro”, segundo ela, que aprendeu a fazê-lo sem emitir nenhum som. Outro, que o tom de voz dela baixou alguns decibéis: ela desaprendeu a falar normalmente e até hoje luta para se comunicar com clareza, e não por meio de sussurros. Por fim, durante a entrevista, ela mostrou, abandonada na frente de sua casa, uma sandália típica usada pelos palestinos — uma espécie de chinelo de couro.

Invasores abandonaram sandálias durante a invasão de 7.10
Reprodução
Invasores abandonaram sandálias durante a invasão de 7.10


Segundo ela, havia sandálias assim espalhadas por todo o kibutz depois da invasão. O que evidencia duas coisas: 1. Muitos invasores (calcula-se que foram 3 mil no total) eram civis “a passeio”, que invadiram o país e as casas caminhando de chinelos. 2. Dentro das casas de famílias que haviam acabado de ser torturadas, feridas, mortas ou sequestradas, eles sentiram-se suficientemente à vontade para trocar os seus sapatos pelos de suas vítimas. Fizeram uma limpeza completa nessas comunidades, roubando de brinquedos e lingeries a tratores.

Não sei quanto a você, mas, para mim, esses detalhes (entre muitos que luto para esquecer) demonstram um aspecto muito sombrio do ser humano. Como retomamos daí? Boa pergunta, para a qual precisamos de tempo e oxigênio para encontrar a resposta.

Mas ela virá.

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