
Antigamente o "nós contra eles" da política era fácil de entender. A gente era o povo e eles, os políticos. Pronto.
A gente desconfiava deles. Xingava tudo quanto era político, que naquela época era uma raça só. Até o vereador de quem ninguém sabia o nome.
Na época da cédula de papel, tinha gente que escrevia "ladrão", "palhaço", desenhava até piroca. Era tipo um SAC da democracia: "Nenhum candidato resolveu seu problema? Deixe aqui sua reclamação."
Em 1988, dizem que o Macaco Tião, do zoológico do Rio, levou uns 400 mil votos pra prefeito. Não ganhou, mas também nunca apareceu em escândalo nenhum.
O inimigo mora ao lado
Só que aí ferrou. O "eles" deixou de ser o político e virou o vizinho. E não é de hoje: a coisa desandou de vez em 2018. Esta aqui já é a terceira eleição presidencial seguida com clima de clássico.
Hoje você não briga com o deputado porque ele fez merda. Você briga com outro eleitor porque ele falou que o seu deputado fez merda. E ainda passa pano.
A gente conseguiu um feito histórico: virou fã de quem devia vigiar. É tipo ser cliente da Vivo e passar o dia defendendo a Vivo de cliente da Claro. "Retira o que você disse sobre a minha operadora!"
Seu político não sabe seu nome
E tem explicação: o político virou influencer. Faz dancinha, responde comentário, abre caixinha de pergunta, come pastel na feira pra câmera.
Em 1956, dois pesquisadores americanos repararam numa coisa: o público de TV criava uma ilusão de intimidade com o apresentador.
O cara sabia o nome do cachorro do apresentador, ficava triste quando ele ficava triste. O apresentador nem sabia que o sujeito existia. Deram um nome bonito pra isso: relação parassocial.
Hoje tem gente saindo no tapa com o irmão no almoço de domingo pra defender alguém que nunca vai saber o nome dela. Nem mandar parabéns no aniversário.
A eleição do "e o outro?"
A eleição de hoje é o retrato disso. Treze candidatos pediram registro pra disputar a Presidência, e o povo só fala de dois: Lula e Flávio Bolsonaro.
E olha que maravilha: os dois que tão na frente são também os mais rejeitados. Quase metade do país diz que não vota no Lula nem amarrado. No Flávio, mesma coisa.
A gente não escolheu dois candidatos. Escolheu dois inimigos.
Por isso papo de política virou essa coisa esquisita. Você critica um, já vem alguém: "E o outro?" Ninguém precisa mais defender o seu. É só provar que o outro é pior.
E o político tirou a sorte grande. Não precisa nem se defender, tem milhões de seguidores fazendo isso de graça. Engajamento orgânico: o sonho de qualquer influencer.
O carimbo na testa
E às vezes nem tem candidato na história. Basta a palavra. O cara fala uma coisa sensata, aí alguém descobre que ele é de esquerda, e pronto: virou mortadela, e a coisa sensata virou besteira. Se for de direita, vira gado, e dá na mesma.
Hoje a ideia vale menos que o carimbo. A gente não concorda nem que o céu é azul. Depende de quem falou primeiro.
E nem é impressão minha. Em 2003, um psicólogo de Yale chamado Geoffrey Cohen mostrou a estudantes americanos propostas de assistência social, umas mão aberta, outras linha-dura, dizendo que tinham o apoio dos democratas ou dos republicanos.
O selinho do partido pesou mais do que o que estava escrito. E todo mundo jurou de pé junto que não tinha sido influenciado.
É que ser de esquerda ou de direita virou pacote de operadora: você queria um canal e levou oitenta. Imposto, vacina, arma, aquecimento global, até chinelo, tudo já vem com a resposta pronta.
E não pode pegar um canalzinho da concorrente. Se o cara de direita admite que um programa social funcionou, vira comunista. Se o de esquerda admite que uma ideia liberal deu certo, é traíra.
Então é mais seguro discordar do pacote inteiro. E odiar até o canal que nunca nem assistiu.
Culpa dos franceses
E sabe de onde saiu essa história toda? Em 1789, na assembleia da Revolução Francesa, quem defendia o poder de veto do rei sentava à direita do presidente da mesa. Quem era contra sentava à esquerda. Só isso. Um mapa de lugares.
Duzentos e trinta e sete anos depois, tem família que não passa o Natal junta por causa de onde uns franceses resolveram sentar a bunda.
Segunda-feira tem elevador
E é com esse clima delícia que a gente vai pra urna hoje. Puto com metade do país e sem muita esperança na outra metade. Tem muita gente que não vai votar a favor de ninguém. Vai votar contra.
Só que raiva não constrói nada. No máximo, ganha a treta no grupo da família. Nenhum presidente conserta um país que não se fala.
Ganhe quem ganhar, segunda-feira o político pega o avião pra Brasília.
E você pega o elevador com o vizinho.