Oscar Filho

Lula e Flávio nos tratam como idiotas. E nós fazemos campanha

Entre mentiras, perguntas sem resposta, debates vazios: eleitores defendem o menos pior enquanto os candidatos apenas atacam seus adversários

Lula, Flávio e os passadores de pano
Foto: Crédito: I. A.
Lula, Flávio e os passadores de pano

O político trata a gente como idiota. E a gente adora que ele faça isso.

Na sabatina de Lula na Globo, Renata Vasconcellos perguntou se ele já havia recebido no Planalto a lobista Roberta Luchsinger , amiga de seu filho.

Lula respondeu:

"Não conheço essa moça, nunca vi essa moça na minha vida, nunca conversei com essa moça, ela nunca esteve perto de mim."
Lula sobre Roberta Luchsinger em 27.08.26



Só que existem várias fotos dos dois juntos, é só fazer uma busca na internet. Tá certo que foto não prova amizade, mas desmente que ela nunca esteve perto dele. É uma limitação inconveniente da fotografia: registrar quem estava onde.

Já Flávio Bolsonaro, questionado sobre sua visita a Daniel Vorcaro , preferiu cobrar explicações de Lula sobre o encontro do presidente com o banqueiro.

O que não é adequado é um presidente da república receber numa reunião secreta um banqueiro prometendo ajudar um problema do seu banco. Quem deve esclarecimentos, é o Lula.
Flávio Bolsonaro durante sabatina do Globo em 28.08.26


A reunião de Lula com Vorcaro fora da agenda aconteceu. Claro que o Lula deve dar esclarecimentos, sim. Mas Flávio usou essa cobrança para não dar os seus.

Ter razão numa cobrança não te dispensa de responder à outra. A existência do adversário não é comprovante de inocência.

Ou seja: um mente e o outro aponta para o concorrente quando a pergunta é sobre ele. Além de terem também faltaram ao debate da Band. Veja, só, pessoas que querem nos representar pelos próximos quatro anos.

Onde estamos?

A gente chegou ao ponto de comemorar quando o candidato consegue escapar de prestar contas. Chama de estratégia, de inteligência, de habilidade para evitar desgaste. Como se responder ao eleitor fosse um obstáculo injusto para quem pretende governar o país em que ele vive.

Porque a gente não quer mais votar no melhor. Quer tirar quem acha pior. E, para isso, aceita qualquer coisa e ainda inventa desculpa para defender o candidato.

Para ele, uma maravilha.

Se basta convencer você de que o outro é pior, para que mostrar que entregaria um país melhor? Explicar uma proposta concreta dá trabalho. É preciso dizer como vai funcionar, quanto custa e de onde sai o dinheiro. Ainda existe o risco de alguém guardar a explicação para cobrar depois.

Atacar o outro rende corte, meme e piada. O insulto cabe no título da matéria. Resolver um problema não.

Aí as campanhas viram um campeonato de humilhação, e a gente vai confundindo resposta debochada com capacidade de governar. “Vixe, acabou com ele!”, vibra o eleitor diante do celular.

Tá, mas qual problema do país ele resolveu com essa resposta?

É um acordo perfeito para não sair do lugar: o candidato se dedica a atacar o adversário, e a gente se dedica a defender o candidato.

O tempo que poderia ser usado para cobrar uma proposta vira expediente voluntário de assessoria de imprensa.

A gente gasta toda a nossa energia defendendo o menos pior. Uma dedicação extraordinária a uma expectativa miserável.

Escolher o menos pior pode ser uma necessidade. Dispensar o candidato de responder, explicar e mostrar trabalho é uma escolha nossa.

É aí que o país vive o cúmulo do conformismo: quando a exigência fica tão baixa que basta ao candidato manter vivo o medo do outro.

E a gente aqui, fazendo campanha de graça para quem mente ou foge das explicações.

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal iG