
O político trata a gente como idiota. E a gente adora que ele faça isso.
Na sabatina de Lula na Globo, Renata Vasconcellos perguntou se ele já havia recebido no Planalto a lobista Roberta Luchsinger , amiga de seu filho.
Lula respondeu:
Só que existem várias fotos dos dois juntos, é só fazer uma busca na internet. Tá certo que foto não prova amizade, mas desmente que ela nunca esteve perto dele. É uma limitação inconveniente da fotografia: registrar quem estava onde.
Já Flávio Bolsonaro, questionado sobre sua visita a Daniel Vorcaro , preferiu cobrar explicações de Lula sobre o encontro do presidente com o banqueiro.
A reunião de Lula com Vorcaro fora da agenda aconteceu. Claro que o Lula deve dar esclarecimentos, sim. Mas Flávio usou essa cobrança para não dar os seus.
Ter razão numa cobrança não te dispensa de responder à outra. A existência do adversário não é comprovante de inocência.
Ou seja: um mente e o outro aponta para o concorrente quando a pergunta é sobre ele. Além de terem também faltaram ao debate da Band. Veja, só, pessoas que querem nos representar pelos próximos quatro anos.
Onde estamos?
A gente chegou ao ponto de comemorar quando o candidato consegue escapar de prestar contas. Chama de estratégia, de inteligência, de habilidade para evitar desgaste. Como se responder ao eleitor fosse um obstáculo injusto para quem pretende governar o país em que ele vive.
Porque a gente não quer mais votar no melhor. Quer tirar quem acha pior. E, para isso, aceita qualquer coisa e ainda inventa desculpa para defender o candidato.
Para ele, uma maravilha.
Se basta convencer você de que o outro é pior, para que mostrar que entregaria um país melhor? Explicar uma proposta concreta dá trabalho. É preciso dizer como vai funcionar, quanto custa e de onde sai o dinheiro. Ainda existe o risco de alguém guardar a explicação para cobrar depois.
Atacar o outro rende corte, meme e piada. O insulto cabe no título da matéria. Resolver um problema não.
Aí as campanhas viram um campeonato de humilhação, e a gente vai confundindo resposta debochada com capacidade de governar. “Vixe, acabou com ele!”, vibra o eleitor diante do celular.
Tá, mas qual problema do país ele resolveu com essa resposta?
É um acordo perfeito para não sair do lugar: o candidato se dedica a atacar o adversário, e a gente se dedica a defender o candidato.
O tempo que poderia ser usado para cobrar uma proposta vira expediente voluntário de assessoria de imprensa.
A gente gasta toda a nossa energia defendendo o menos pior. Uma dedicação extraordinária a uma expectativa miserável.
Escolher o menos pior pode ser uma necessidade. Dispensar o candidato de responder, explicar e mostrar trabalho é uma escolha nossa.
É aí que o país vive o cúmulo do conformismo: quando a exigência fica tão baixa que basta ao candidato manter vivo o medo do outro.
E a gente aqui, fazendo campanha de graça para quem mente ou foge das explicações.
* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal iG