Oscar Filho

Flávio imita Lula e foge dos debates para conter ataques e cortes

Favoritos nas pesquisas evitam confronto direto, temendo virar alvo de adversários menores ou produzir material negativo durante a campanha eleitoral

Lula e Flávio Bolsonaro fora dos debates
Foto: Crédito: I. A.
Lula e Flávio Bolsonaro fora dos debates

Foi só Lula anunciar que não vai pro debate da Band que surgiu a notícia:

" Flávio Bolsonaro imita o presidente e também evita o confronto direto, para conter ataques e reduzir o risco de cortes negativos nas redes."

É o velho “se ele não vai, eu também não vou”.

Finalmente uma proposta com apoio dos dois lados.

Claro, porque, sem o Lula, o Flávio seria o alvo dos outros candidatos.

Eles não querem debater com quem nem chega aos 5%. Talvez achem que debater com eles é dar palco pra quem não devia estar na eleição.

É interessante: esses 5% não servem pra dividir o palco. Só servem pra ser roubados depois.

Existe também o medo de que os candidatos menores provoquem alguma cena pensada só pra render corte de vídeo.

E o medo é justo. Tem gente que não vai pro debate atrás de proposta. Vai atrás da respostinha certeira, aquela que vira meme da Tramontina.

No boxe, existe um termo pra isso: ducking

É quando o lutador evita o adversário que oferece mais risco do que recompensa.

Na política funciona igual: quem lidera não procura briga. Administra a vantagem.

E olha que o debate nem é tão hostil assim com quem participa, hein?

O candidato ganha intermináveis um minuto e meio pra explicar a dívida pública do país. Pô, um minuto e meio?

Eu, no caixa do mercado, demoro mais que isso só pra dizer que não quero CPF na nota.

O mediador, aliás, costuma gastar mais tempo explicando as regras do que o candidato tem pra explicar o Brasil.

Por isso o podcast virou refúgio.

Ali dá pra passar quarenta minutos respondendo uma pergunta que ninguém fez e sem ninguém encher o saco pra terminar.

O debate é tipo corrida com obstáculos: juiz cronometrando, adversário correndo do lado e perguntas esperando pra você tropeçar.

Candidato que entra sabe que qualquer resposta pode virar corte contra ele.

Candidato que fica de fora sabe que a ausência também vira notícia.

Não existe escolha sem risco, só a que parece menos ruim. E talvez seja exatamente por isso que o debate continue necessário.

Os candidatos já controlam quase tudo na campanha, inclusive quando aparecem em podcasts amigáveis.

O debate é uma das poucas coisas que ainda escapam do roteiro.

Tem gente dizendo que o formato está falido.

Eu acho que ele só sofre do mesmo problema da academia: quem mais precisa dar as caras é sempre quem inventa uma desculpa pra não ir.

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal iG