Lula e o desconforto do Palácio da Alvorada
Crédito: I. A.
Lula e o desconforto do Palácio da Alvorada

Na quinta-feira (30/7), numa entrevista ao podcast Inteligência Ltda, Lula chamou de "desumano" morar no Palácio da Alvorada.

A explicação foi doméstica: a cozinha fica longe do quarto, o café chega frio, a cerveja chega quente.

Fui atrás do tamanho desse sofrimento.

O Alvorada tem 7 mil metros quadrados.

Oito quartos, cinema, biblioteca, sala de jogos, capela, heliponto, centro médico e uma piscina aquecida grande o suficiente pra ser chamada de olímpica.

Não chega a ser o Tayayá, o resort ligado à família do ministro Dias Toffoli que virou sinônimo de segurança paga com dinheiro público em meio ao inquérito do Banco Master, mas é um Palácio.

Faltou só um projeto de Oscar Niemeyer prever: um iFood interno. Sem ele, o café esfria e a cerveja esquenta. Uma tragédia.

Existe um nome pra isso na psicologia

Adaptação hedônica: quanto mais luxo vira rotina, menor o prazer que ele gera e maior o desconforto com qualquer imperfeição. Quem mora na base da pirâmide sente fome. Quem mora no topo sente falta de aplicativo de entrega. Isso não justifica a frase, só explica de onde ela vem.

Reis medievais reclamavam de correntes de ar em castelos com cem cômodos vazios. A régua de desconforto sobe junto com o teto. Quanto mais alto o teto, menor a corda que separa conforto de queixa.

O Brasil e a moradia

Enquanto isso, 392 mil brasileiros estão registrados em situação de rua pelo CadÚnico. Eram 198,7 mil em dezembro de 2022.

Um crescimento de 97,4% em três anos e meio. Essas pessoas não reclamam de cozinha longe do quarto. Não têm cozinha. Nem quarto. Nem endereço.

O Brasil também tem um déficit habitacional de 5,77 milhões de moradias. É o menor número da série histórica, caindo pelo segundo ano seguido, mérito que o governo pode e deve cobrar. O dado é bom, mas não apaga a fila de quem espera uma casa há anos.

"Desumano" foi, no mínimo, uma escolha infeliz de palavra. Ainda mais vindo de alguém que passou a infância numa casa de barro em Caetés, Pernambuco, e sabe exatamente a distância entre não ter cozinha e reclamar que ela fica longe.

Desumano não é atravessar um palácio pra buscar café. Desumano é atravessar a noite sem saber onde vai dormir.

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