Oscar Maroni com o biquini de Luma de Oliveira
Reprodução: Internet
Oscar Maroni com o biquini de Luma de Oliveira


A morte de Oscar Maroni não encerra apenas a trajetória de um empresário polêmico da noite paulistana.  Ele morreu em 31 de dezembro de 2025, aos 74 anos, em São Paulo, após lutar contra o Alzheimer. Ela marca o fim de um tipo específico de personagem público, aquele que viveu do cinismo assumido, profissional e consciente. Não como defeito colateral, mas como método de trabalho.

O cinismo como método

Maroni sempre foi absolutamente cínico. Quando chamavam o Bahamas de prostíbulo, ele negava. Não por ingenuidade, muito menos por moral.

Dizia que era uma “casa de entretenimento adulto”. Essa definição não era sobre pudor, era sobre estratégia jurídica. Servia para driblar leis, escapar de enquadramentos e manter o negócio aberto.

Não era mentira inocente. Era engenharia semântica aplicada à sobrevivência. Ele disse em entrevista a Antônio Abujamra:

"Sou imoral, indecente, pornográfico, mas não sou ilegal"

Essa estratégia funcionou: em 2017, o Superior Tribunal de Justiça absolveu Maroni das acusações de favorecimento à prostituição, permitindo que o Bahamas reabrisse após anos de interdição.

O leilão de biquini na TV

Esse mesmo cinismo aparece de forma cristalina no episódio do leilão do biquíni usado por Luma de Oliveira. Um caso que hoje parece surreal, mas que foi tratado como pauta legítima da televisão aberta.

Oscar Maroni, Eike Batista e Luma de Oliveira no Domingão do Faustão
Reproducao: Youtube
Oscar Maroni, Eike Batista e Luma de Oliveira no Domingão do Faustão


O biquíni foi arrematado por Maroni em leilão por cerca de R$ 6 mil. O então marido de Luma, Eike Batista, ofereceu R$ 35 mil para reaver a peça, mas Maroni recusou. A partir daí, instalou-se a confusão. Eike afirmava ter comprado a peça. Maroni também se colocava como proprietário.

O que deveria ser resolvido na esfera particular, se é que precisava disso,  virou conteúdo de auditório . Debatia-se ao vivo, diante de plateia e câmeras, quem “tinha direito” sobre uma peça íntima de uma mulher. E aqui está o ponto mais constrangedor de toda a história. A televisão topou!

Topou transformar um objeto íntimo em espetáculo dominical. Topou tratar a disputa como curiosidade, como entretenimento, como conversa leve para a família brasileira.

O caso circulou por mais de um programa, em mais de uma emissora. Quando uma polêmica funcionava, ela rodava. A TV daquela época não apenas tolerava o absurdo. Ela dependia dele.

Oscar Maroni entendia esse jogo como poucos. Para ele, não importava exatamente quem tinha razão jurídica. Importava o palco, o constrangimento, a atenção.

O mesmo raciocínio que o fazia negar que o Bahamas fosse um prostíbulo operava ali também. Se a TV aceita, vira legítimo. Se vira legítimo, vira espetáculo.

Essa lógica também se estendeu à política: Maroni chegou a se candidatar a vereador em São Paulo em 2008, usando sua imagem provocadora como capital eleitoral.

É claro que há uma dimensão negativa nisso, e ela é incontornável. O cinismo também serve para encobrir abusos, desigualdades e zonas morais nebulosas. Mas ignorar o outro lado é simplificar demais. Porque esse mesmo cinismo é, muitas vezes, a forma como o brasileiro aprende a sobreviver.

O cinismo mudou de endereço

Aqui, o problema raramente é o que se faz. É como se chama o que se faz. Não é gambiarra, é “solução provisória”. Não é atraso, é “readequação”. Não é prostituição, é “entretenimento adulto”. Maroni apenas levou essa lógica ao limite e fez disso um personagem público.

Por isso, falar da morte de Oscar Maroni é também falar do fim de um tipo de personagem. Não porque o cinismo tenha acabado, mas porque mudou de cenário. Saiu da boate e do auditório de TV e migrou para espaços mais polidos.

Hoje, o mesmo cinismo se manifesta em discursos corporativos cheios de eufemismos, em marketing que disfarça precariedade como “experiência inovadora” e em políticos que transformam crises em “oportunidades de ajuste”. Ele morre e o método permanece.

E talvez seja isso que mais incomode ao revisitar sua história. Não o excesso, não o mau gosto, nem o escândalo do biquíni. Mas a constatação de que a gente reconhece esse cinismo porque convive com ele todos os dias.

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