
A gente tá cansado de saber que, muitas vezes, a Black Friday é o conceito escondido por trás do “Pague a Metade do Dobro”. Mas tem uma coisa além disso que me incomoda bastante: o limite já foi ultrapassado e que nós simplesmente normalizamos.
A Black Friday virou aquele fenômeno comercial que engole tudo pela frente: sapato, geladeira, colchão, língua de sogra, curso de como enriquecer em 7 dias... Mas agora chegamos ao ponto de ver estabelecimentos ligados à saúde participando desse tipo de ação de vendas.
Confusão entre farmácia e loja de conveniência
Hoje mesmo eu estava vendo um vídeo no YouTube e me deparei com a divulgação de uma rede nacional de farmácias com a chamada em letras garrafais: “BLACK (NOME DA FARMÁCIA)”.
Existem farmácias fazendo promoção de medicamento como quem vende ração pra gato. Uma espécie de “Compre dois anti-inflamatórios e ganhe um combo ansiedade + refluxo totalmente grátis”.
Algumas redes podem até argumentar: “A gente não faz promoção de medicamentos, só de itens de higiene e perfumaria.” Mas isso serve como isca pra você, no meio da compra, já pegar também o seu Rivotril “pra dormir em paz”.
Aliás, chama a atenção como as farmácias hoje funcionam como uma espécie de loja de conveniência. Encontrar antidiabéticos a poucos passos da gôndola de chocolates já virou cena comum. E isso não é apenas estranho, é perigoso.
Automedicação
Segundo o Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ), em 2024, 90% dos brasileiros se automedicam. Agora imagine essa galera com desconto progressivo. É quase uma Black Friday da automedicação. O sujeito entra na farmácia pra comprar um curativo e sai com um kit “Seja seu próprio médico” com antibiótico, ansiolítico e um ômega-3 porque “tava barato”.
A própria Anvisa já alertou que propaganda de medicamento tem limites éticos e legais. Mas as farmácias insistem porque descobriram que saúde vende tanto quanto perfume. Muitas vezes literalmente no mesmo corredor.
E isso abre a porta pra uma lista de setores que jamais deveriam entrar na onda “30% off só hoje!”. Eu dei uma pesquisada e achei alguns setores absurdos pra prática da Black Friday que filósofos chamariam de “absurdo”, mas os marqueteiros chamariam de “funil”.
Setores que nunca deveriam entrar na Black Friday
Terapia em promoção, proibida pelo Conselho Federal de Psicologia. Se tem proibição, tem antecedente. Porque não pega bem resolver traumas na base do cupom: “Compre 5 sessões, desbloqueie a infância!”
Clínicas médicas e odontológicas, que legalmente não podem fazer promoções mercantilistas, segundo o CFM e o CFO. Mesmo assim, basta abrir o Instagram pra aparecer um “Black Botox Week”. Aquela coisa sutil: “Venha tratar da sua cárie e das suas rugas também”.
Escritórios de advocacia, regidos pela OAB, também são proibidos de oferecer “descontão no divórcio”. Imagina que maravilha seria: "Separou hoje? Ganhe guarda compartilhada grátis!"
Clínicas de fertilidade, que nos EUA já entraram na onda com desconto em FIV. A ASRM (American Society for Reproductive Medicine) precisou emitir diretrizes éticas, porque resolveram transformar o processo de gerar um filho em “oportunidade imperdível”. Vale ficar atento: o Brasil adora imitar os EUA.
E, pra completar:
Funerárias, que tentaram promoções de plano funerário, geraram críticas da Senacon. Porque realmente nada resume melhor o espírito natalino do que: “Morrer em novembro está mais barato. Espere pra bater as botas no fim do ano!” Se continuar assim, no futuro, poderemos ver uma associação: “Falando em botas, que tal aproveitar o saldão de calçados?” O auge da distorção comercial.
O absurdo normalizado
O mais impressionante é como aceitamos sem resistência a normalização dessa lógica dentro das farmácias. Porque, diferente de comprar televisão, ninguém se programa pra comprar um anti-inflamatório “só porque tá com 40% off”.
Medicamento não é desejo, é necessidade. E quando empresas transformam necessidade em impulso de consumo, isso é combustível pro caos sanitário… e, claro, pra vendas recordes.
Esse tipo de promoção diz mais sobre a nossa relação com consumo do que sobre os produtos. Estamos transformando tudo em varejo, até aquilo que deveria ser protegido do varejo. Daqui a pouco vai ter promoção de UTI: “Aproveite! Internou, ganhou um check-up!”.
A real é que estamos tão espremidos, tão exaustos e tão endividados que já parcelamos tudo em 12 vezes. Inclusive o bom senso.