
A publicidade na Netflix deixou de ser um complemento do negócio e passou a ocupar espaço central na estratégia de crescimento da plataforma. A empresa projeta que os anúncios possam representar cerca de 10% da receita global até 2030.
A mudança ganhou escala rapidamente. Mais de 250 milhões de pessoas usam mensalmente o plano com publicidade no mundo, modalidade que representa cerca de 65% das novas adesões.
No Brasil, são mais de 35 milhões de espectadores por mês. O número representa um avanço de aproximadamente 20% em relação a 2025. Cada usuário brasileiro do plano com anúncios assiste, em média, 54 horas de conteúdo por mês.
O dado interessa ao mercado por um motivo que vai além da própria Netflix. Ele mostra como o consumo de vídeo ficou pulverizado — e como essa fragmentação começa a mudar a lógica de compra de mídia.
Publicidade virou parte do negócio
A Netflix lançou seu plano com anúncios no fim de 2022. Desde então, a frente publicitária ganhou espaço dentro da operação.
Em 2025, a receita com publicidade chegou a US$ 1,5 bilhão, o dobro do resultado registrado no ano anterior. Para 2026, a expectativa é de uma nova duplicação, para cerca de US$ 3 bilhões.
No ano passado, os anúncios responderam por aproximadamente 3% dos US$ 45,2 bilhões faturados pela companhia. Considerando a projeção de receita total entre US$ 51 bilhões e US$ 51,4 bilhões para 2026, a publicidade pode se aproximar de 6% do faturamento.
A meta de chegar a 10% até 2030 mostra que a Netflix não trata mais publicidade como uma fonte secundária de receita.
E isso muda também o papel da plataforma para os anunciantes.
Brasil ganhou peso na equação
A América Latina é a segunda maior região da Netflix Ads, atrás apenas dos Estados Unidos. Em engajamento, porém, a região lidera entre os mercados onde a companhia comercializa anúncios.
No Brasil, a combinação de audiência, tempo de consumo e força das produções locais cria um ambiente relevante para as marcas.
Produções nacionais e comunidades de fãs em torno de filmes e séries ajudam a Netflix a oferecer contextos que vão além da simples compra de um espaço publicitário.
Para o anunciante, isso significa disputar a atenção de uma audiência que está profundamente envolvida com o conteúdo.
Mas existe uma mudança maior acontecendo.
Televisão já não termina na televisão
O consumidor não organiza seu dia por categorias de mídia. Ele pode assistir a uma série na televisão conectada, pegar o celular, entrar em uma rede social e depois encontrar outro anúncio em um painel digital na rua.
O planejamento das marcas, muitas vezes, ainda separa esses ambientes.
É aí que a Connected TV, ou CTV, ganha espaço. O formato combina a experiência audiovisual da televisão com recursos de segmentação, dados e mensuração associados ao digital.
O desafio deixa de ser simplesmente escolher entre TV, streaming ou internet.
A pergunta passa a ser outra: como esses ambientes podem trabalhar juntos sem fazer a marca repetir a mesma mensagem para as mesmas pessoas?
Para Bruno Campos de Oliveira, COO da Adsplay, a fragmentação exige justamente uma visão mais integrada da estratégia:
"O principal desafio para as marcas hoje não é simplesmente escolher entre televisão, streaming ou digital. É entender como esses ambientes podem trabalhar juntos. Quando a audiência está fragmentada, concentrar toda a estratégia em um único canal pode limitar o alcance ou gerar uma exposição excessiva para as mesmas pessoas. O planejamento precisa partir do comportamento da audiência e distribuir os pontos de contato de acordo com o objetivo da campanha", afirma.
Alcance e frequência continuam importantes. Mas a fragmentação da audiência aumenta a necessidade de coordenar os contatos.
Mais telas também mudam a criação
A expansão da publicidade em streaming não altera apenas a compra de mídia. Ela também pressiona a criação.
Uma campanha desenvolvida para uma televisão conectada não necessariamente terá o mesmo impacto em uma tela de celular. Um vídeo curto nas redes sociais pede outra construção. Um painel de DOOH precisa comunicar uma ideia em poucos segundos.
Segundo o Panorama 2026 da Central de Outdoor, 84% das empresas de OOH pesquisadas já contam com pelo menos um painel digital em seu inventário.
Isso adiciona mais uma camada ao planejamento.
Não basta saber onde está a audiência. É preciso entender como ela consome cada ambiente.
O dado ajuda a identificar esses contextos, mas não substitui a criação. Uma campanha pode ter segmentação precisa e ainda assim entregar uma mensagem pouco relevante.
Netflix quer ampliar seu ecossistema de mídia
A próxima etapa da Netflix aponta para uma operação ainda mais sofisticada.
A empresa pretende aproximar a publicidade de seu sistema de recomendação de filmes e séries, com maior personalização de acordo com os interesses dos espectadores.
Também prepara novos recursos de mensuração, compra programática e otimização de campanhas. A partir de 2027, podcasts e vídeos verticais para celulares e tablets devem ampliar os espaços disponíveis para anúncios.
A companhia também pretende aumentar sua base de anunciantes. Hoje, são cerca de 4 mil clientes, número que a liderança considera ainda pequeno diante do potencial da plataforma.
A partir de 2027, a publicidade da Netflix deve chegar a mais 15 países, incluindo Colômbia e Peru, alcançando 27 mercados.
A lógica é clara: quanto maior a audiência, mais formatos, mais mercados e mais dados disponíveis, maior o espaço para transformar a plataforma em uma operação de mídia completa.
O fim da divisão entre TV e digital?
A expansão da Netflix ajuda a colocar em xeque uma separação que já fazia cada vez menos sentido.
O vídeo deixou de caber em uma escolha entre televisão e digital. A audiência está espalhada e as plataformas passaram a disputar não apenas o tempo das pessoas, mas também os investimentos destinados a esse tempo de atenção.
Para as marcas, isso muda a pergunta.
Não se trata de estar em todos os lugares. Trata-se de entender o papel de cada tela dentro da mesma estratégia, controlar a frequência, buscar alcance incremental e adaptar a mensagem ao contexto.
A Netflix amplia seu inventário publicitário. O desafio para o mercado será transformar essa abundância de espaços em comunicação que faça sentido.
Porque, no fim, ter mais lugares para anunciar não resolve a questão mais difícil da publicidade: conseguir que alguém queira prestar atenção.
