Oreo, BTS e Americanas: quando a loja vira mídia

Fachada em Ipanema, edição limitada com o grupo e retail media mostram como o ponto de venda disputa atenção como espaço de mídia e experiência

A fachada da Americanas em Ipanema ganha identidade da Oreo para transformar o ponto de venda em uma experiência ligada ao universo do BTS
Foto: Foto: Divulgação
A fachada da Americanas em Ipanema ganha identidade da Oreo para transformar o ponto de venda em uma experiência ligada ao universo do BTS

Uma fachada de loja costumava ter uma função bastante objetiva: chamar atenção para o que havia dentro dela. A estratégia da Oreo, marca da Mondelēz, em parceria com a Americanas parte de outra lógica. Em Ipanema, no Rio de Janeiro, a fachada inteira da varejista foi transformada em uma extensão do universo da marca e da edição limitada OREO BTS .

É uma mudança de papel que diz muito sobre o varejo contemporâneo : o ponto de venda deixou de ser apenas o lugar no qual a compra acontece e passou a disputar atenção como espaço de mídia, entretenimento e experiência.

A iniciativa, que permanece por dois meses, ganha ainda mais força pelo momento cultural. O BTS retorna ao Brasil após sete anos e a mobilização dos fãs cria um contexto particularmente favorável para uma marca que busca conversar com gerações mais jovens.

O mérito da estratégia está justamente em não tratar essa audiência apenas como público consumidor de biscoitos .

Não basta patrocinar a conversa

O relacionamento entre marcas e cultura pop mudou. Durante anos, a fórmula mais direta era associar uma marca a uma celebridade, programa, filme ou evento. Hoje, isso parece insuficiente.

Comunidades de fãs querem participação, identificação e experiências que façam sentido dentro do universo que acompanham.

O OREO BTS parte dessa premissa. O produto foi cocriado com os integrantes do grupo, traz 13 relevos exclusivos e embalagem inspirada nos mercados de rua da Coreia do Sul, além de se conectar ao hotteok, sobremesa tradicional coreana.

Ou seja, não é apenas uma embalagem diferente. Existe uma tentativa de construir um produto que carregue elementos da cultura que pretende representar.

Para Oreo, isso amplia o território da marca. Para o consumidor, aumenta a sensação de que existe algo para descobrir.

Fachada é só o começo

É aqui que o projeto ganha uma dimensão ainda mais interessante para o mercado publicitário .

A flagship não está isolada da estratégia de retail media da Americanas. A ativação combina presença física, mídia no site e no aplicativo e conteúdo patrocinado nas redes sociais.

A jornada começa antes mesmo da entrada na loja e pode continuar depois da compra.

Essa integração é talvez o ponto mais relevante do projeto. A mídia deixa de ser um elemento separado da experiência comercial e passa a acompanhar o consumidor em diferentes momentos.

A loja física, portanto, funciona como mídia proprietária. A fachada gera impacto. O interior cria interação. O digital amplia alcance. E o checkout fecha a jornada comercial.

Não é mais apenas sobre vender espaço publicitário . É sobre vender acesso a uma audiência em um contexto de consumo.

O varejo quer ser parte da estratégia de marca

A movimentação também revela uma ambição maior das empresas de varejo.

Ao estruturar soluções de retail media, a Americanas não oferece somente exposição. Ela apresenta um ecossistema capaz de conectar marca, audiência, dados, conteúdo e ponto de venda.

Para anunciantes, isso muda a conversa.

O varejo conhece o consumidor em um momento especialmente valioso: quando existe intenção. E quando esse conhecimento é combinado a uma experiência criativa, o ponto de venda pode deixar de ser a última etapa da comunicação para se tornar uma das mais importantes.

Para a Mondelēz, o movimento também reforça uma estratégia de integração entre canais e de transformação do varejo físico em espaço de memória e interação.

A próxima disputa é pela experiência

O caso Oreo BTS mostra que a fronteira entre publicidade, entretenimento e varejo está cada vez mais difícil de enxergar.


A marca não quer apenas aparecer. Quer criar um ambiente no qual o consumidor tenha uma razão para parar, fotografar, compartilhar, experimentar e, finalmente, comprar.

Para os profissionais de marketing, fica uma provocação: se a loja pode ser mídia e a mídia pode ser experiência, quem ainda trata esses canais como departamentos separados?

O futuro do retail media provavelmente será menos sobre telas e mais sobre contexto. E as marcas que conseguirem unir dados, cultura e experiência terão uma vantagem importante: poderão transformar atenção em vínculo — e vínculo em negócio.

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal iG