Gustavo Reis

O risco do apagão docente e o valor da sala de aula

Levantamentos baseados no Pisa mostram que apenas cerca de 3% dos nossos jovens de 15 anos sonham em seguir a carreira docente

Gustavo Reis discursa para plateia de educadores durante a 3ª Semana Municipal de Educação de Jaguariúna. A iniciativa, realizada em 19 de julho de 2019, teve como foco a capacitação e atualização dos profissionais da rede municipal de ensino.
Foto: Arquivo pessoal
Gustavo Reis discursa para plateia de educadores durante a 3ª Semana Municipal de Educação de Jaguariúna. A iniciativa, realizada em 19 de julho de 2019, teve como foco a capacitação e atualização dos profissionais da rede municipal de ensino.

Cresci vendo minha mãe, Dona Flora, lecionar Português e Inglês. Em casa, aprendi desde cedo que o conhecimento é a única ferramenta capaz de libertar o indivíduo e promover uma verdadeira transformação social. Essa vivência moldou minha visão como cidadão e como homem público. No entanto, hoje, ao olhar para o futuro do nosso país, uma pergunta urgente e silenciosa me preocupa: quem vai ensinar as próximas gerações?

Os números formam um alerta vermelho que não é de hoje. Um estudo do Instituto Semesp, referência no setor, projetou que o Brasil poderá enfrentar um déficit de 235 mil professores na educação básica até o ano de 2040, apontando que a proporção de docentes em início de carreira, com até 24 anos, já havia despencado mais de 40% na última década. O desinteresse pela profissão é estrutural: levantamentos baseados no Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) mostram que apenas cerca de 3% dos nossos jovens de 15 anos sonham em seguir a carreira docente. Estamos caminhando, a passos largos, para um verdadeiro apagão nas salas de aula.

Capacidade de gestão

Mudar essa realidade exige mais do que belos discursos; exige prioridade absoluta e capacidade de gestão. Durante meus três mandatos como prefeito de Jaguariúna (2009-2012, 2017-2020 e 2021-2024), fiz da educação o pilar central da nossa administração. O empenho de toda a nossa equipe trouxe resultados concretos: Jaguariúna alcançou a marca de 4ª melhor educação do Estado de São Paulo, segundo o IDEB, e tive a honra de receber reconhecimentos como o prêmio de Prefeito Educador . Provamos na prática que é possível transformar o ensino público quando oferecemos infraestrutura para os alunos e, fundamentalmente, valorização e respeito para os profissionais que estão na linha de frente.

Agora, o desafio precisa ser encarado com força total na esfera estadual. O governador Tarcísio de Freitas tem feito um trabalho contínuo para modernizar São Paulo, atraindo investimentos, digitalizando serviços e ampliando a infraestrutura do nosso estado. Para que esse ciclo de desenvolvimento seja pleno, a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (Alesp) tem o dever de atuar lado a lado com o Executivo na construção de políticas públicas que resgatem a atratividade da carreira docente.

Precisamos de mecanismos que incentivem nossos talentos a entrarem nas licenciaturas. Isso passa por planos de carreira sólidos, formação continuada focada na prática metodológica e um ambiente de trabalho que ofereça segurança e preserve a saúde mental dos educadores. O Estado e os municípios precisam caminhar na mesma direção.

A docência deve ser vista como uma escolha profissional de excelência, não apenas como um ato de sacerdócio ou resistência. Como costumo dizer, o Brasil só será grande quando a sala de aula for a nossa maior obra.

* Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal iG