Quem quiser acreditar, que acredite. Afinal, vivemos numa democracia e esse regime dá a todos, e não apenas àqueles que se consideram seus únicos defensores, o direito de ter sua opinião sobre os fatos divulgados com liberdade pelos meios de comunicação, pelas redes sociais ou pelos cartazes mostrados nas manifestações que, felizmente, também podem acontecer sem restrições. É do jogo . Porém, exigir que se acredite na versão mais conveniente para qualquer um dos lados de um confronto político dominado pelo oportunismo, como o que se viu no domingo passado, é muito diferente de se expressar com liberdade.  

Manifestantes usando preto contidos pela polícia em frente ao Museu de Arte de São Paulo
Reprodução Globonews
Manifestação de torcedores pró-democracia ocorre neste domingo (31)

O saldo das manifestações que aconteceram na avenida Paulista, em São Paulo, é mais grotesco do que trágico. Misturar política com futebol é algo que já foi tentado sem sucesso por muita gente que quis se apoiar no esporte mais popular do Brasil para, de forma oportunista, tentar tirar algum proveito. Nesse cenário, acreditar que torcedores do Corinthians se uniram a seus rivais do Palmeiras ou do São Paulo Futebol Clube, para exigir respeito à democracia, é um direito. Da mesma forma, é um direito levar a sério as desculpas do técnico Felipão, que atribuiu os humilhantes 7 a 1 aplicados pela seleção da Alemanha em seus mal escalados e mal treinados jogadores, na Copa de 2014, a um mero “apagão”. Eu não acredito nisso, e você?

ORGANIZAÇÕES CRIMINOSAS

Basta fazer uma pesquisa superficial sobre o passado das torcidas organizadas que assumiram a liderança das manifestações — que já foram considerados “ Organizações Criminosas ” pelo Ministério Público e pela Justiça — para concluir que, se eles estão realmente preocupados com a democracia, Fio Maravilha jogava mais bola do que Pelé. Outra lorota difícil de engolir, embora tenha sido divulgada a torto e a direito desde o momento que a confusão teve início, é a de que os “ torcedores ” se manifestaram de forma espontânea.

Aceitar essa ideia é imaginar que todos eles, cada um em sua casa, acordaram no domingo com uma vontade irresistível de lutar pela democracia. Agiram de boa fé: certamente não sabiam que havia outra manifestação, de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro , que se iniciaria uma hora depois que ocuparam o espaço. Desembarcaram na estação Trianon-Masp do Metrô com a mesma disposição que demonstram quando chegam às estações de Itaquera ou da Barra Funda nos dias dos jogos de seus times. E foram embora no final da tarde com o sabor amargo de uma partida que, por mais disputada que tenha parecido, terminou num melancólico zero a zero. 

CRÍTICAS A DORIA

Calma! Os manifestantes que estavam do outro lado também não são santos. Para começar, são os únicos ativistas do mundo que reivindicam a supressão e não a ampliação dos direitos. Protestar contra o STF e o Congresso é um direito cobrar seu apefeiçoamento também é do jogo. Pedir o fechamento dessas instituições, porém, é uma estupidez que deve ser criticada com todos as forças. A disposição de se protestar contra o STF e o Congresso, por mais legítimo que seja esse direito, vai embora assim que surge a primeira ameaça aos próprios direitos.

Muitas vezes, neste espaço, foram feitas críticas à falta de conveniência e ao oportunismo político dos que se habituaram a ocupar a avenida Paulista durante o isolamento da pandemia para criticar o governador João Doria e pedir a abertura indiscriminada do comércio. Nada contra o direito de qualquer cidadão se manifestar contra o governador ou qualquer outro político. Doria, certamente, merece críticas por decisões que tomou antes e depois da pandemia. Seria melhor, no entanto, que elas fossem feitas em momento mais oportuno e pelas razões certas: negar que São Paulo não está lutando com as armas de que dispõe contra um inimigo oportunista como coronavírus é, no mínimo, má fé.

Parecia que não faltava mais nada para escancarar a falta de bom senso e a inadequação desse tipo de manifestação numa hora grave como essa. Só parecia: as rusgas de domingo passado serviram para comprovar que tudo que está ruim pode piorar. O que menos interessa neste momento é saber quem atirou a primeira pedra (felizmente que em sentido figurado) e deu início à confusão: as manifestações de um lado e do outro foram, para dizer o mínimo, marcadas pelo mais puro oportunismo. Serviram, quando muito, para manter acesos os ânimos dos que, por fraqueza intelectual ou qualquer razão parecida, acreditam ser possível aumentar a adesão à própria causa agredindo os que pensam diferente. Como são ingênuos, coitados.

NARRATIVA CONVENIENTE

O grande João Ubaldo Ribeiro utilizou como epígrafe de sua obra magistral Viva o Povo Brasileiro uma frase que ilustra com perfeição ao momento atual. “ O segredo da Verdade é o seguinte: não existem fatos, só existem histórias ”, escreveu Ubaldo. No caso das manifestações de domingo, não existe lado certo na história: ambos estão errados. Prova disso (para usar uma expressão que está na moda), é que a “narrativa” de um é muito parecida com a do outro. Os dois se acusam com argumentos praticamente iguais. O que varia é apenas quem aponta o dedo e quem é o alvo das críticas.

Um ponto, no entanto, os uniu e é para isso que todos precisamos estar atentos. Os dois lados criticaram o governador de São Paulo, acusado pelos “torcedores” de apoiar os “bolsonaristas” e pelos “bolsonaristas” de defender os "torcedores”. Uma explicação provável para essa sintonia é que dois lados em conflito talvez o enxerguem como um adversário de peso para as eleições de 2022. Sim. O que se viu na avenida Paulista no domingo passado nada tem a ver com as ameaças nem com a defesa da democracia como valor. Tudo se resumiu, infelizmente, a uma demonstração do clima que marcará as próximas eleições presidenciais, que só acontecerão daqui a mais de dois anos.

ESTELIONATO IDEOLÓGICO

O Brasil caminha para uma recessão sem precedentes. Muita gente ainda corre o risco de se expor a um vírus letal durante a pandemia e os dois lados acham que a sociedade está mais interessada em escolher seu candidato para 2022. A favor dos que se manifestavam a favor de Bolsonaro, pode-se dizer que eles, pelo menos, tiveram a coragem de mostrar a cara e de assumir com clareza seu propósito: não precisaram se esconder atrás de um subterfúgio nobre para mostrar o que pensam e o que desejam. Tiveram, pelo menos, a decência de não cometer o estelionato ideológico de se apoiar numa paixão nacional, o futebol, para transformá-la em bandeira de sua causa.

Isso, no entanto, não os livra da responsabilidade de estar ali criticando medidas muito parecidas com as que qualquer governante com um mínimo de preocupação com a saúde do povo tomaria se estivesse no lugar de Doria. Não. Ninguém que foi à Paulista no domingo estava minimamente preocupado com a democracia. Estava, quando muito, se apoiando no direito de se manifestar, que a democracia assegura a todos, para fazer um jogo que é, no mínimo, inoportuno. O confronto, porém, continuará em pauta e será utilizado por um lado e por outro para tentar atrair as pessoas para causas que, já está provado, tem defensores aguerridos, mas não refletem o estado de ânimo da maioria da população brasileira. Que só deseja voltar a trabalhar, desde que isso não signifique se expor a um risco que existe e é grande.

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